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O Nordeste

Janeiro de 1963, página 3 · 8 trechos transcritos

Manchetes desta página

  • O NORDESTE TERCEIRA PAGINA Perspectivas de paz do novo ano PONTOS DE VISTA De um lado e do outro da Cortina de Ferro, o ano de 1962 terminou com acontecimentos que estão destinados a marcar as primeiras discussões dos respectivos blocos no começo do corrente ano. De um lado, o Presidente da Iugoslávia, Tito, será mais uma vez o pomo de discórdia do mundo comunista. Voltou da União Soviética convencido de que Kruschev escolheu definitivamente o caminho da paz e da coexistência em matéria de política exterior. Esta é a declaração que Tito vem fazendo desde o seu regresso, há cerca de duas semanas, de uma visita à Rússia. A imprensa iugoslava, por sua vez, está fazendo um coro sonoro a estas declarações do líder neutralista, salientando, ainda, com insistência, a identidade de pontos de vista entre Belgrado e Moscou sobre os demais problemas do socialismo e da paz. Os dirigentes iugoslavos fazem questão de acrescentar que o Primeiro Ministro soviético está interessado em obter um acordo duradouro com o Ocidente, e não apenas um momento de trégua para se refazer do malogro nas Antilhas. “Cuba abriu os olhos aos soviéticos — afirmou o marechal — e eles não vão cometer erros daquela natureza”. POSIÇÃO DEFINIDA Calcule-se, deste modo, a fúria de Pequim! Há poucos dias a Agência noticiosa “Nova China” informou que, em outra aparente ofensiva contra a União Soviética, dirigentes chineses e albaneses reiteraram, na capital asiática, que estão empenhados na verdadeira luta contra o imperialismo e o revisionismo moderno. Declarações como esta, acrescidas da notícia de que a Albânia está tomando a iniciativa de abandonar o Conselho de Ajuda Econômica Mútua (Comecon), que é o Mercado Comum do bloco oriental, vêm aumentar as hipóteses de que, nesta disputa sino-soviética, não há linguagem interessada em reduzir os atritos e sim em aumentá-los cada vez mais. E esta, pelo menos, a impressão deixada pela notícia da próxima visita de Kruschev à Iugoslávia. No próprio instante em que a China radicaliza a sua posição “anti-revisionista”, um abraço do primeiro Ministro soviético ao herege número um do comunismo, em pleno coração de Belgrado, tem todas as características de lesa-majestade. No bloco ocidental, o assunto que empolgou as discussões políticas do fim do ano foi a proposta feita pelo Presidente norte-americano ao Premier britânico MacMillan, de uma união dos seus países e da França na constituição de uma força nuclear armada de foguetes “Polaris”, a fim de pôr um termo à dispersão de forças atômicas nos países ocidentais. Enquanto o Primeiro Ministro inglês enfrenta em seu país a oposição no que a imprensa considera a “Munique de MacMillan”, sob o pretexto de que o acordo de Nassau colocaria a Inglaterra em dependência dos Estados Unidos e em pé de igualdade com a França, o governo francês se mantém na expectativa. Enquanto a Alemanha considera o acordo entre Kennedy e MacMillan como o primeiro passo rumo à criação de uma força nuclear atlântica, o jornal soviético “Izvestia” escreve que “armar uma cidade contra a colaboração pacífica dos povos”. Nada se sabe ao certo do êxito final da proposta norte-americana. Por enquanto é certa apenas a reação desfavorável que causou nas duas capitais diretamente interessadas. Para os ingleses é duro aceitar a consequência dos acordos de Nassau, ou seja, o arquivamento do projeto do fabuloso foguete britânico “Skybolt”, arma fenomenal nos seus efeitos tanto quanto no preço, razão da necessidade de cooperação dos Estados Unidos para ser construído, e certamente, também da contraproposta norte-americana do foguete “Polaris”, a queixa de Paris já é no sentido de ser colocada nas mesmas condições da Inglaterra no que diz respeito à troca de informações atômicas. Em última análise, o pensamento do governo norte-americano é impedir ao máximo a proliferação de potências atômicas plenamente autônomas no Ocidente, o que será do mundo — dizem eles — se dentro de cinco ou dez anos tivermos, em vez de três, vinte potências nucleares armadas de foguetes, brandindo-os ameaçadoramente na Assembléia da ONU? Será de todo provável que, por descuido ou de espontânea vontade, alguma delas venha a disparar o trágico comando da explosão que daria início à terceira guerra mundial. Dai o interesse do Presidente Kennedy em ajudar as duas potências atômicas do Ocidente, municiando-as de foguetes norte-americanos. Ajuda que as tornará mais poderosas. Poderosas, mas unidas em aliança com um mais forte, que no final das contas não deixará de ser o dono do negócio. Tudo indica que serão estes os debates iniciais de um lado e do outro da cortina de Ferro. Praza aos Céus que eles tenham, como pretendem ser na aparência, debates em favor da paz, cuja conservação foi, no ano passado, o grande merecimento do ano.
  • Lançando uma bacia de água fria nas considerações que se vão desenvolvendo em alguns meios católicos, principalmente nos de certo nível intelectual, relativamente a uma possível aproximação da Santa Sé com o governo soviético, a ponto de trocarem embaixadores e firmarem acordos bilaterais no terreno das relações diplomáticas, o “Osservatore Romano”, que, como se sabe, traduz de maneira oficiosa o pensamento do Vaticano, acaba de firmar, peremptoriamente, que “nenhuma conciliação é possível entre comunismo e religião” e que “os governos comunistas, mesmo quando atuam em países solidamente católicos, como a Polônia, jamais renunciam a seu totalitarismo ateu e nivelador”. Dirige-se o jornal católico diretamente ao vice-presidente do Parlamento polonês, Zenon Kliskp, que aventou a possibilidade de uma concordata entre a Santa Sé e a Polônia. Dizendo claramente que o súdito de Kruschev estava mentindo, ao alegar a existência de um ambiente de harmonia entre o clero e o regime político polonês, adianta o “Osservatore Romano” que, apesar das solenes promessas garantidas à Igreja, oferecidas pelos dirigentes comunistas da Polônia, a fim de conseguirem a colaboração do povo, isso apenas ocorreu durante seis meses, passados os quais “a opressão se fez de novo sufocante”. “Não só a religião foi novamente abolida nas escolas, mas o Departamento dos Cultos entrou a limitá-la, contingenciá-la e controlá-la até mesmo nos edifícios do culto”. Assim, a “convivência” entre católicos e comunistas na Polônia não passa de uma invenção. Diante disso, diante dessa triste realidade, não há motivo para qualquer esperança de um entendimento dos ditadores comunistas com o apostolado da Igreja. Não por resistência desta, mas por facciosismo daqueles. A Igreja está disposta a abrir os braços a quantos desejam uma conciliação, mas os comunistas não querem entendimento, porém dominação. E como é a liberdade o fundamento da fé cristã (Veritas liberavit vos, diz São Paulo), jamais aceitará a Igreja concordatas com regimes ateus e perseguidores da religião, “intrinsecamente maus”, que, de caso pensado, quando pretendem acordos estendem a mão esquerda a fim de que fique livre a direita para apunhalar pelas costas. L.S.
  • FATO DO DIA Mais um órgão estatal acaba de ser organizado, com a incumbência de interferir diretamente na produção algodoeira de todo o Brasil. O novo órgão, que é o Conselho Nacional do Algodão, não é propriamente uma novidade, por que apenas substitui, com poderes mais largos, a extinta Junta Nacional do Algodão. E por isso mesmo, diante do que foi o fracasso daquela Junta, nada resolvendo de proveitoso em favor da cultura e da valorização de tão importante fonte de divisas em face da fome internacional de tecidos, pouco se pode esperar do órgão de cúpula recém-criado, composto de altas sumidades, pelo menos de nome, mas entrosado na temível burocracia oficial, que, como todo mundo sabe, funciona mais como entrave do que como incentivo da economia brasileira. Há-de-se dizer que essas considerações envolvem uma eiva de pessimismo, como se, para nossa gente, não houvesse mais nenhum meio de reabilitação ou progresso material. Mas o fato simples e notório é que os elementos com que conta o observador das nossas coisas para formular conjecturas não ajudam a uma conclusão favorável. Pelo contrário: aí estão, numa demonstração lamentável de fracasso continuado os Institutos do Café, do Açúcar, do Sal, do Mate, do Arroz etc., bem como as autarquias destinadas a regularizar ou incentivar a produção como o Conselho de Produção Econômica, a COAP, a SUNAB e outras bolsas de valores, que gastam rios de dinheiro e não proporcionam resultados ao menos razoáveis. Vejase, por exemplo, o que nos diz respeito no tocante ao algodão. Concorre a malvácea de modo importante para a riqueza estadual e para a receita pública. Noutro qualquer país, ter-se-ia cuidado, ao menos, de conseguir um produto apresentável no cumprimento exato da fibra, no aperfeiçoamento dos tipos, na seleção das sementes, no estudo, enfim, das condições ecológicas para uma produção mais elevada e recomendável. No entanto, o Ceará não possui, ao menos, uma estação experimental, onde o agricultor venha receber instruções e obter sementes garantidas. Daí a mistura de tipos, a fraqueza das fibras, a desordem na produção, que muito concorrem para a desvalorização do produto. Se ao menos o novo Conselho Nacional do Algodão olhasse para esse lado do problema e cuidasse, em primeiro lugar, da uniformização e regularidade da produção, ainda se podia confiar no seu funcionamento. Mas só para fazer sessões no Rio e gastar dinheiro a rodo, não há otimismo que se aguente. OBS
  • Governo de Técnicos Comentou a imprensa, na semana passada, que o sr. Virgílio Távora estaria mesmo disposto a fazer no Ceará um governo de técnicos. Noutras palavras, estaria determinado a colocar nos postos de seu governo homens afinados para o funcionamento de sua administração. Essa linguagem é sobremaneira alvissareira, tendo-se em vista que, para muitos observadores, as causas dos fracassos de certos governantes é deixar que apenas o móvel político inspire seus atos e processos de governar. Não se cairá, com isso, no exagero oposto, só os técnicos fariam governo bom. Não. Há centenas de homens por aí que, sem serem especialistas nisso ou naquilo, possuem aquele sexto sentido de ver a realidade nua e crua, e que são incapazes de desfazer por sua própria culpa uma atividade ou método que vise a dar ao Governo a mais elevada produtividade e eficiência. O que são esses homens? Exatamente aquilo que se chama “técnicos de idéias gerais”, isto é, homens que, sem serem jejunos na maioria dos conhecimentos que sua atividade implica possuir, podem aperfeiçoar-se com rapidez, amoldando-se à especificidade de seus encargos. Doutra parte, louva-se a ideia do sr. Virgílio Távora não por crermos na infalibilidade dos técnicos. Não. Também estes podem errar, sobretudo quando, como nesse caso, vão partir da estaca zero do planejamento administrativo do Estado. Nem nos pareceria exagero afirmar isso visto que não se vislumbrou trabalho de planejamento decisivo em nosso Estado, como, aliás, em várias outras unidades da federação. Agora, porém, que se enxergou que já não é mais possível estragar quatro anos de governo resolvendo as cousas depois que Marta as fia, tinha, necessariamente, o sr. Virgílio Távora de apelar para uma experiência nova neste campo, por isso se elogia, de um extremo a outro, essa sua atitude corajosa de afirmar que governará rigidamente, dentro de esquemas administrativos e econômicos que alguns técnicos estão preparando. O planejamento se faz mais necessário: avultando as necessidades, cresce, de ponto, a fatalidade da consecução de recursos para sua satisfação. Recursos não se fazem da noite para o dia, num desses milagres que a conjuntura política geralmente nega e escamoteia ao administrador imprudente. Mister se faz tenha o administrador sempre em vista as veredas pelos quais desenhará sua atividade. Sem isso, tudo descambará para a improvisação, pai e mãe de erros que se acumulam fatalmente, desmantelando as boas intenções de muita gente.

Anúncios, notas e expediente

  • Nota social 30 BISPOS VISITAM A TERRA SANTA O bispo da Galiléia, mons. Jorge Hakim teve a amabilidade de convidar, no Concílio Ecumênico, seus irmãos no Episcopado, para visitarem a Terra Santa em condições excepcionais e com os preços de viagem e hospedagem muito reduzidos. A época não era boa porque o inverno se avizinhava e quase todos os Padres Conciliares, ausentes de suas dioceses, há mais de 2 meses, desejavam retornar antes do Natal. – Apesar disso, mais de 80 prelados e 40 sacerdotes, das regiões mais distantes, aproveitaram a oportunidade. Iniciou-se a peregrinação, em Roma, aos pés de Maria Santíssima, no dia 8 de dezembro, ocasião em que o Cardeal Carlos Confalonieri, arcipreste da basílica de Santa Maria Maior, dirigiu palavras congratulatórias, deu a bênção do Santíssimo Sacramento e procedeu à leitura de um telegrama, em latim, do Santo Padre, cuja tradução é a seguinte: “Cidade do Vaticano, 29292–70–5–1962–Revmo. Sr. Padre Pasquale Magni, Conciliazione, 28, Roma–O Augusto Pontífice formula votos para que os Arcebispos, Bispos e Sacerdotes que partem fervorosos para a santa pátria do Redentor, seguindo o Divino Mestre em seus vestígios terrenos possam mais facilmente imitar o mesmo Príncipe dos Pastores e Sacerdote Eterno e enquanto manifesta seu agradecimento pelas preces que prometeram fazer pelo Concílio Ecumênico amavelmente concede a bênção apostólica que auspices as graças divinas e testemunha a sua benevolência. (a) Cardeal Cigognani, Secretário de Estado. No dia 9, à tarde, em avião especial dos Serviços Aéreos do Mediterrâneo, partiu o primeiro grupo, constituído de 30 pessoas, sob o nome “Santo Salvador” e presidido por dom Alberto Gaudêncio Ramos, arcebispo de Belém do Pará, por ser o mais antigo em promoção arquiepiscopal. O segundo grupo, intitulado “Santa Maria”, seguiu no dia imediato, em direção ao aeroporto de Tel-Aviv, em Israel. Por angular coincidência, coube também a um brasileiro, a presidência dessa turma, dom Manuel da Silveira Delboux, arcebispo de Curitiba. Tanto em Amã, capital da Jordânia, como em Lod, aeroporto de Israel, os dois grupos episcopais foram recebidos pelos representantes do Governo e da Igreja Católica. Belém! Enquanto o primeiro grupo estava na Jordânia, o segundo visitava Israel. O cruzamento dos dois verificou-se no Caminho da Cruz, em Jerusalém, na sexta-feira, 14. Terminada a Via Sacra, em que os próprios bispos se revezavam a carregar uma cruz pesada, o “Santa Maria” fez sua entrada solene no Santo Sepulcro, enquanto o “Santo Salvador” se despedia da venerável (Conclui na 6a. pág.) A organização técnica da peregrinação coube à I.V.E.T. (Instituto de Viagens e Turismo), órgão de um Instituto religioso, a Companhia de São Paulo, cujo superior geral, padre Pascoal Magni, acompanhou o 1o grupo, encarregando-se da parte litúrgica e da leitura do Evangelho, pois toda a viagem se realizou num elevado nível de espiritualidade, com uma participação intensa nas páginas bíblicas relembradas em cada um dos veneráveis lugares que eram visitados. Cantavam-se também hinos litúrgicos adequados a cada santuário. Imagine-se a emoção com que se entoavam o “Magnificat” no local da Anunciação, em Nazaré, ou o “Adeste Fideles” na gruta da Natividade, em Belém! No dia 15, o grupo “Santo Salvador” visitou a cidade de Belém, onde se encontra a gruta da Natividade. No dia 16, o grupo “Santa Maria” visitou a cidade de Nazaré, onde se encontra a Anunciação. No dia 17, os dois grupos reuniram-se em Jerusalém para visitar o Santo Sepulcro e o Cenáculo. No dia 18, o grupo “Santo Salvador” visitou o Monte das Oliveiras e o Jardim do Getsêmani. No dia 19, o grupo “Santa Maria” visitou o Monte Carmelo e a cidade de Haifa. No dia 20, os dois grupos reuniram-se em Tel-Aviv para uma missa de ação de graças e despedida. No dia 21, os dois grupos partiram de volta para o Brasil.
  • Expediente Expediente Fortaleza, Quarta-feira, 2 de Janeiro de 1963 O NORDESTE TERCEIRA PÁGINA
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