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O Nordeste
Janeiro de 1963, página 77 · 6 trechos transcritos
Manchetes desta página
- PONTOS DE VISTA BOAS PERSPECTIVAS Última semana assinalou três acontecimentos de diverso, mas todos, a seu modo, de importância global. Inicialmente, a nota conjunta dos governos americano e soviético, para que seja retirada da pauta do dia do Conselho de Segurança da ONU a questão cubana. Este acontecimento quer dizer, em outras palavras, que as duas grandes potências conseguiram um acordo em torno do difícil problema que mais de dois meses ameaçou tão gravemente o mundo. Para os Estados Unidos é a conclusão de um arriscado jogo em que o Presidente Kennedy empenhou o seu futuro pessoal e o do seu governo, para lograr, logo em seguida, a consolidação do seu prestígio e uma grande vitória eleitoral dos democratas. Para a União Soviética, o quase compromisso norte-americano de não invasão da ilha já é um resultado da nova política de coexistência pacífica, que o Primeiro Ministro Kruschev vem procurando impor a todo custo como princípio básico da atual política comunista. É de supor que está de posse dessa nota conjunta que certamente caberá exibir como triunfo comunista sobre o imperialismo, é que o chefe do governo soviético resolveu inspirar aquêle editorial do Pravda, pelo qual o partido comunista russo se declara disposto a aceitar a opinião de todos os comunistas do mundo, proposta por Pequim para uma discussão em torno das diversas divergências ideológicas que no momento separam as potências do bloco oriental. E' certo que Kruschev está em condições de impor na reunião o ponto de vista soviético, embora saiba que neste caso estaria correndo um grave risco, é que ninguém conhece. De qualquer forma, permanece a novidade deste outro acontecimento de importância mundial, pelo que deixe prever sobre a crise ideológica do comunismo. O terceiro fato, pela importância cada vez mais crescente no continente americano e em face das novas nações africanas, é o resultado e a repercussão mundial do plebiscito. A esperada, mas imponente vitória do presidencialismo foi recebida mundialmente como um triunfo da democracia, e o grande índice de comparecimento às urnas, como um sinal da educação política do nosso povo. E como, na América Latina, a eleição normal é o melhor termômetro da saúde do regime e das instituições, esta consulta popular veio consolidar o crédito do Brasil no exterior. De modo particular nos Estados Unidos, veio oferecer a prova da argumentação do sr. Roberto Campos, nosso embaixador em Washington, segundo a qual o nosso é um dos poucos países latino-americanos não ameaçados de inversão da ordem constitucional, exatamente por estarmos de posse de instituições e instrumentos democráticos capazes de amortecer e superar mesmo catástrofes políticas como a que resultou da renúncia do sr. Jânio Quadros. Espera-se, desde já, em consequência do êxito do plebiscito, o fim da grande crise de confiança que o Brasil vem suportando nesses últimos tempos, em consequência, sobretudo, de certos acontecimentos políticos relacionados à esfera federal. E tudo indica que o sr. João Goulart, que aparentemente recebeu o resultado das urnas como um chamado à responsabilidade, está de também convencido de que os próximos meses poderão acentuar e consumar essa restauração internacional em relação ao Brasil. E, por último, mereceríamos então o elogio feito por um importante órgão da imprensa de Buenos Aires, que, ao saudar o plebiscito e a vitória do presidencialismo como triunfo da democracia apontou o exemplo do Brasil a todos os países da América Latina.
- Geografia CERTAS cidades do interior têm contra si, uma geografia ingrata. Foram situadas em função sobretudo da água, pois que, naqueles longínquos dias, não existiam meios adequados à condução do precioso líquido até os lugarejos, por essa razão, eram as margens dos rios em geral, preferidas para a localização de cidades e povoados, sem outras maiores preocupações de ordem econômica ou social. Algumas cidades que conhecemos muito bem, como Limoeiro do Norte e Morada Nova, pagam, hoje, a falta de condições mais amplas que presidiram seu nascimento. Limoeiro do Norte, foram empurrá-la para dentro do rendilhado do rio Jaguaribe, na confluência do Banabuiu, de tal sorte que, se poderia utilizar a beleza natural que os recortes de paisagem lhe oferecem, está ameaçada de ver-se, de uma hora para outra, tudo aquilo transformada numa imensa planície d’água, tendo a cidade, nesse tempo acesso difícil. O homem, pode corrigir a geografia. Corrigir, no entanto, os defeitos naturais significa inversão às vezes elevada e supõe uma continuada atenção para os detalhes mais minuciosos de um trabalho sem férias. Há que se utilizar, nesse tocante e em larga escala, da iniciativa privada. Limoeiro do Norte, aliás, tem podido levar na conta de crédito à iniciativa privada muitas de suas realizações, muito de sua vida e de seu renome. Haja vista ao caso do comércio de Limoeiro, hoje francamente numa área vastíssima, sem dúvida alguma o mais amplo raio de ação comercial de que desfrute qualquer cidade do interior cearense. Uma das grandes linhas será tentar agir em paralelo com as tendências correntes no comércio e na agricultura, forçar, além disso, a marcha para a industrialização de produtos agrícolas, melhoramento de itens econômicos já existentes e fazer, afinal, uma coordenação que evite dispersão de recursos, só assim se contornarão os percalços que a ingrata geografia plantou à frente do nosso município.
- FAT0 Do dIA ASSIM E’ QUE DEVE SER O governo do Rio Grande do Norte, depois de devidamente aparelhado tanto do ponto de vista pessoal como financeiro, através de acordo com a “Aliança para o Progresso”, injetou a verdadeira reforma agrária no seu estado. Não quis limitar-se a palavrório sem consistência nem a promessas balofas, no que são férteis os demagogos do malcheiroso nacionalismo brasileiro. Começou por desapropriar 20 mil hectares de terras aráveis e produtivas e entrou a planificar a colocação de famílias nos núcleos, que pretende estabelecer. Como fruto dessa programação, foi criando, o núcleo pioneiro da Fazenda Pedra d’água, área de 3.500 hectares, no município de Baixada Verde. Dos 3.500 hectares já delimitados, 800 serão destinados à agricultura, com o cultivo de feijão, fava, mandioca, milho e algodão; 1.000 estão reservados à pecuária com um plantel inicial de 300 reses, ficando o restante do terreno para moradia e avicultura. A fim de acolher os moradores, serão construídas previamente 140 residências confortáveis, acrescidas de escolas campo de esporte, postos de saúde com lactários, farmácia, ambulatório, armazéns, casas de comércio e serviços de luz, água e esgotos. Com essa organização, dispondo de um açude e situada à margem de uma estrada de ferro, além de boa rodovia, a Fazenda Pedra d’água realizará o primeiro ensaio específico e proveitoso de reforma agrária no Nordeste. Não se trata de granjas coletivas de feijão comunista, no estilo chinês, nem de kolkoses, no modelo soviético, mas de comunidades rurais, em que a iniciativa particular será incentivada e garantida nas realizações. Disponindo de conforto e facilidades para estabelecer-se com a família, o camponês contará com meios acessórios para desenvolvimento da sua mentalidade, conseguindo, assim, a coletividade resultados benéficos para a existência da população. Se no resto do Brasil, em vez de apenas se limitarem os governos a mandar mensagens e a distribuir folhetos sobre a reforma agrária, apelassem para a “Aliança para o Progresso” e seguissem os passos do Governo do Rio Grande do Norte, em pouco seria realidade o desenvolvimento econômico e social do país, dissolvendo-se de uma vez as veleidades sovietizantes de meia dúzia de nacionalistas ignorantes e farofeiros.
- DINHEIRO TEM IDEOLOGIA? FERNANDO MENDES FILHO O dinheiro não tem ideologia — foi sempre o ditado mais difundido em certos círculos, que passaram a considerar o estabelecimento de relações comerciais com comunistas. Anos atrás, a necessidade de exportar para carrear soma cada vez maior de divisas para o país, a conquista de novos mercados parecia vir como via indispensável para atingir objetivos. Daqui, as missões comerciais que frequentemente são mandadas aos países da Cortina de Ferro com finalidade de expandir negócios em áreas do mundo socialista. A esta altura, possuindo-se já alguns dados concretos sobre esse intercâmbio, têm surgido algumas dúvidas e comentários a respeito. Em primeiro lugar, lembremos a euforia com que, desde o governo Jânio Quadros, se encaravam as vantagens, para o Brasil, da “conquista dos mercados socialistas”. Fontes oficiais previam fabulosas entradas de milhões de dólares a se despejarem nas arcas domésticas. Amainado, porém, o alarde demagógico, a frieza dos fatos vinha demonstrar toda a verdade. Levantamento de algarismo procedido pelo Conselho Nacional de Economia acabou revelando que a despeito do aumento de nossas exportações para a área socialista daí não advieram os esperados benefícios para o país. Isto porque, apesar de as exportações representarem algumas dezenas de milhões de dólares, esse dinheiro não se incorporou à economia brasileira. Por dois motivos; primeiro porque se trata de importância resultante, uma parte, de vendas feitas a longo prazo e, outra parte, de crédito, a curto prazo acumulado pelo Brasil, o qual servirá para pagar produtos por nós importados mas que só nos serão entregues dentro de alguns anos... Evidentemente, como concluiu o próprio CNE, o Brasil está financiando a produção dos países socialistas. Mas não é só isso que está acontecendo. Porque, a esta altura, o interesse maior dos países socialistas é o de vender e não o de comprar... E isto é decorrência das crescentes dificuldades internas, que, tanto na Rússia como nos demais países do campo socialista, estão produzindo sérias efervescências no espírito do “homo sovieticus” e seus subprodutos satelitários... À bem dizer, pois, o Brasil foi buscar lã e saiu tosquiado. Os fatos teriam aconselhado uma mudança de orientação em nosso comércio exterior. Infelizmente, não é o que está acontecendo. Pregões oficiais recentíssimos continuam a insistir na área socialista para a colocação de nossos produtos de exportação. E isto ocorre no preciso instante em que as estatísticas revelam um acentuado declínio no volume e valor global de nossas remessas para o exterior. O Brasil está exportando menos que quando incluiu os países socialistas entre seus compradores. Bastaria atentarmos para o que se passa com o café afim de não perdermos o contato com a realidade. Todos sabemos que o café é o nosso principal produto de exportação, pois entra com mais de 60% do valor total da mesma. Nosso maior freguês é a nação norte-americana que, além de isentar esse produto de gravames fiscais tanto para entrar no país como para nele circular ainda paga a mercadoria em dólares. Obviamente, todo interesse teria, então, o Brasil, em fazer do café o produto-chave nos negócios. O que é necessário, agora, é que todos os investimentos que o poder público municipal deverá fazer, sob a sombra dos recursos federais ou estaduais, sejam dirigidos no sentido de proporcionar à cidade as oportunidades que lhe faltam de desenvolver, cada vez seu raio de ação e de trabalho na região. (Conclui na 6a. página)
Anúncios, notas e expediente
- Telegrama tòs Rcontecimentas I Mundiais BOAS PERSPECTIVAS Apesar de não merecerem muita confiança as considerações otimistas do ditador russo Nikita Kruschev, há, no entanto, fundadas razões para se acreditar que o ano que se inicia traga no seu bojo o “degêlo soviético”. Tudo está indicando que modificações profundas irão ocorrer no mundo comunista dominado por Moscou. A quase submissão que representou a atitude de Kruschev ante as exigências de Kennedy, no caso de Cuba, bem mostraram que outros galos andam cantando no quintal bolchevista. A furibunda imponência do mandonismo vermelho de que o ditador soviético era figura impressionante vai dando lugar a uma certa acessibilidade, e pode-se dizer mesmo, a uma espécie de contemporização que até há pouco ninguém acreditava ser possível. O encontro de Kruschev com Tito, considerado por ele um renegado, a vontade de uma aproximação com a Alemanha Ocidental, até agora adiada por força da atitude de Adenauer; a maciez com que o “ateu e comunista” Nikita se refere ao Papa João XXIII; a insistência na condenação dos processos violentos da ala chinesa, dão a entender que algo de superior colocou-se nos acontecimentos soviéticos, atrapalhando o “determinismo histórico” e negando a “tese catastrófica’. Segundo observadores autorizados, essas cousas estão ocorrendo porque os líderes soviéticos perderam, de certo modo, o controle que exerciam sobre as novas gerações. Em vez de mandarem, como mandavam passaram a sofrer pressões sobre exigências de melhorias e liberdades vigorantes no mundo ocidental. As visitas de ocidentais à Rússia e as excursões de jovens russos ao Ocidente, onde encontram uma vida rica de atividades inteiramente livres, concorreram para que os moços abrissem os olhos e verificassem que estavam sendo enganados. Sentiram que a opressão que vêm sofrendo não passa de mandonismo feroz de individualistas grosseiros. Respiraram o ar das liberdades políticas e levaram um pouco dessa alegria para irmãos prisioneiros da cortina de ferro, começou então, a surgir a reação. A princípio indeciso, por fim mais enérgico e mais premente. E não será ir muito longe aceitar uma revolução branca na Rússia, com abrandamento da ditadura vermelha, com concessões ao Ocidente, com um pouco de liberdade ao povo e, afinal, com facilidades à juventude para que conheçam de fato os benefícios da democracia ao menos pela metade.
- Nota social Ingrata NORONHA NETO 6 (Conclui na 6a. página)