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O Nordeste

Janeiro de 1963, página 105 · 6 trechos transcritos

Manchetes desta página

  • OS PROBLEMAS DO MUNDO COMUNISTA Observadores políticos internacionais estão com as atenções voltadas para a cidade de Berlim Oriental. No dia 10, teve início o Congresso do Partido Comunista da Alemanha do Leste. Nas previsões sobre os resultados deste encontro, cuja importância cresce para o dia graças ao comparecimento de delegados, chega-se mesmo a prognosticar um rompimento clamoroso entre Moscou e Pequim. Já é bastante antigo o objeto da contenda ideológica entre os dois blocos do mundo oriental. Enquanto a Rússia, de um lado, recusa a perspectiva de uma guerra nuclear mundial contra o Ocidente, na convicção de que esse conflito assinalaria apenas a destruição do mundo ocidental, mas da humanidade, o Partido Comunista Chinês mantém o ponto de vista dogmático (porque se baseia numa férrea interpretação do “princípio” marxista) de que esse conflito não só é inevitável como necessário, a divergência ideológica não é nova. Tornou-se mundialmente conhecida no grande Congresso Comunista Internacional da Bucareste em 1960, e, a partir dessa data, vem assumindo proporções cada vez mais graves. Destaca-se, porém, a intransigência de Pequim e o seu surto de proselitismo, de que é exemplo o caso da Albânia, e, até certo ponto, de Cuba, é natural que o Partido Comunista Soviético esteja na intenção de Moscou, com relação ao seu agora perigoso parceiro, fazer uma espécie de operação-isolamento, a que dificilmente se submeterá o duro stalinista Mao-Tsé-Tung. A exemplo do bloqueio de Cuba, que ocasionou a última grande explosão das divergências de tática revolucionária, os comunistas, de ambas as partes em contenda, trocam uma série de declarações oficiosas e comentários na imprensa que agora estão servindo de material de consulta para os delegados comunistas reunidos em Berlim. Do lado chinês, o grande editorial do “Diário do Povo” de Pequim, é um repositório de denúncias e acusações contra o Primeiro Ministro soviético. Do lado russo, o enorme editorial de duas páginas da “Pravda” e o discurso de Kruschev ao congresso partidário de Moscou, atualmente traduzido e publicado em várias línguas para uma larga difusão no mundo, são o mais completo acervo de argumentos para a pulverização do dogmatismo chinês. E quanto aos resultados da investida soviética no Congresso de Berlim, tornou-se uma certeza depois de anunciada a presença de um dos mais candentes oradores russos, o impetuoso Kruschev, de ambos os punhos cerrados e do seu mais acentuado entusiasmo. O clima em que se encontra o mundo comunista este ano. Este Congresso de Berlim que é apenas o congresso de um partido comunista, e onde o personagem oficialmente mais importante não é o Premier soviético mas o chefe alemão Ulbricht — este Congresso não é nem a primeira nem a derradeira instância da querela. Quando se esgotarem os resultados dos modos de argumentação, o PC chinês apelará para o Congresso Mundial, como aliás já apelou oficialmente. E então o ano de 63 ficará na História. A primeira lição vamos tirar dos fatos. E’ o que antecipamos no início deste comentário. O comunismo se corrompe e se destrói. De um lado já está correndo o seu grande risco (porque do risco filosófico há muito tempo falava a sã filosofia) a velha profecia fundamental de Marx, de que o seu pensamento viria transformar a História. Pois é. Não está transformando coisas. Está apenas continuando. E em comparação com Nero e Gengis Kan. J. C. ANTUNES
  • PONTOS DE VISTA PROCESSO CONDENÁVEL A imprensa de Fortaleza todo princípio de ano se lança contra os diretores de colégios particulares, acoimando-os de “exploradores” e de “gananciosos”, por que são os mesmos obrigados a aumentar as anuidades a fim de atender à elevação sempre maior das despesas de custeio dos estabelecimentos de ensino. É uma atitude que concorre para desmoralizar esses colégios e colocar mal seus dirigentes diante dos educandos, que passam a olhá-los como algozes de suas famílias, corações embrutecidos pela vil pecúnia, destituídos, assim, de qualquer força moral para a realização de sua missão educativa. Seria aconselhável que os redatores incumbidos das seções educacionais em nossa imprensa procurassem, antes de invectivar os diretores de ginásios, apurar, na verdade, a situação financeira dos estabelecimentos atacados tão rudemente. Se o ensino fosse ministrado apenas pelos diretores de colégios, vá que lhes fizessem recriminações por quererem ganhar muito na sua profissão. Mas as despesas de um estabelecimento de ensino implicam o pagamento de professores, pessoal administrativo, serventes e conservação de prédio, aquisição de material escolar, etc. Ora, tudo isso, hoje, está na dependência direta da inflação dos preços. O que se comprava ontem por uma quantia hoje é quase duplicado. Os diretores de jornais sabem disso muito bem, visto como estão arcando com enormes dificuldades para pagar o papel que utilizam e os seus servidores. Com o novo salário, que em Fortaleza representou aumento de 80 por cento, os professores estão exigindo essa percentagem nos seus proventos. Como pagá-los, sem recorrer ao aumento das anuidades? Quanto custava um jornal em janeiro de 1962? Cinco cruzeiros. Quanto custa hoje? Quinze cruzeiros. Será que os diretores de jornais estão explorando os leitores? De modo algum. Ainda estão enfrentando prejuízos possíveis. Não queremos metermos a advogados diretores de colégios. Mas temos que ser justos. Se tudo aumenta de preço, se até uma caixa de fósforo duplicou de custo, como poderão os colégios funcionar sem pagar os salários exigidos pelos professores, pelos demais auxiliares, etc? Pode haver abusos aqui ou ali. Mas, por causa de um ou outro, não se lancem ao opróbrio os educadores dos nossos filhos, que, assim apontados, como ladrões, perdem toda e qualquer autoridade para a realização de sua importante missão. E se eles forem menosprezados pelos seus alunos, a sociedade será a maior vítima. L. S.
  • O IMPOSTO DE RENDA Já se acha em pleno vigor a nova Lei do Imposto de Renda, aprovada num abrir e fechar de olhos pelo Congresso, por exigência do Governo que apresentou a medida indispensável para evitar o caos financeiro. Infelizmente, como sucede com todas as reformas tributárias, não teve a divulgação que atingiu a renda e o consumo dos brasileiros nenhuma divulgação até agora, ao menos para conhecimento dos que lhe vão sofrer as pesadas consequências. Seria de aconselhar que a União das Classes Produtoras, através de sua Consultoria Fiscal, se a possui, procurasse esclarecer os seus associados, que poderão ser apanhados de surpresa e cair em multas agora muitíssimos elevadas. As chamadas alíquotas ou percentagens reclamadas pelo Governo de quantos percebem mais de 336 contos por ano foram duplicadas e mesmo triplicadas, chegando ao cúmulo, no caso de grandes lucros, de ser exigida mais da metade dos ganhos dos contribuintes. Antigamente a escala do imposto proporcional começava em 1 por cento, agora principia em 3 por cento, passando a 5, depois a 8, 12, 16 por cento, etc. O fato é que, com os altos salários agora vigorantes, muita gente terá que cair nas malhas do Fisco. Mas o que brada aos céus na reforma em vigor é a parte relacionada com a Declaração de Bens. Todo mundo passou a ser obrigado a declarar, sob pena de prisão e outras mais, estabelecidas no Código Penal, tudo o que possui, salvo móveis e vestuário. A simples aliança de casamento, os brincos das filhas, o anel da mulher, qualquer objeto que possua valor intrínseco, e também o dinheiro que guardar em casa. E uma verdadeira devassa não escapando ninguém. E para que tamanha exigência? Para que, no ano que entra, quando for apresentada nova Relação de Bens, fazer-se um confronto e proceder-se à cobrança do imposto sobre o dinheiro que se gastou na compra de novos bens ou se conseguiu na venda dos mesmos. Ninguém pode mais ter dinheiro guardado em casa sem declarar isso ao Imposto de Renda, porque se vier a gastá-lo ou emprestá-lo, sem conhecimento da Fiscalização, pagará imposto com multa elevadíssima. Cuidado, pois, brasileiros. A Nação vai entrar até no íntimo das residências, para arrecadar o imposto de renda.
  • PONTOS CHAVES NORONHA NETO Consta-nos que um grupo de técnicos que nada têm de livresco ou pré-fabricado entregará ao sr. Virgílio Távora um documento de elevado juri. Trata-se de um conjunto de sugestões que, após amadurecido e continuado estudo sobre as condições da economia e da administração do Ceará, lhes pareceu inadiável experimentar. Nunca se repetirá, bastante que administrar não é adivinhar. Sabe-se que alguns homens que, posto à frente de determinadas setores ou atividades, demonstram depressa tanta adaptação e capacidade quase se transformam em verdadeiros dínamos. São os chamados excepcionais. Infelizmente, não é de excepcionais que vive a humanidade. Os “medíocres prevenidos”, que são a imensa maioria, estes sim, governam e dirigem, visto que os excepcionais apresentam porcentagem muito baixa. Nessa ordem de ideias, e não pretendendo arguir quem quer que seja de medíocre ou excepcional, parece-nos de bom aviso ingressarmos, todos, na área dos medíocres prevenidos. Se vamos governar, desconfiemos muito da tentação da genialidade para nos amarrarmos a objetivos definidos, concretos. Ficar com os pés no chão e a cabeça para cima, eis a posição normal em que ninguém perderá uma guerra, nem Napoleão! Dentro de um esquema assim, impõe-se a racionalização das atividades administrativas. Quer dizer: o administrador fica entre as duas pernas deste dilema: necessidades, recursos. Identificar a ambos, é tal o problema! Depois, procurar cozinhar, da melhor maneira possível, do modo que mais rentabilidade apresentem as soluções, os mil modos de ligar necessidades e recursos, como a venda normal dos fatos. Faça-se isso, e pronto. Teremos administrações aproveitáveis, profícuas. Infelizmente, se isso é fácil de ser dito, muito difícil se configura na hora da execução! Os administradores são, em geral, homens políticos, e, como tais, solicitados por uma faixa de problemas e injunções difíceis de controlar e coordenar. E é este, exatamente, que insere na administração pública aquele elemento de debilidade de que não padecem, geralmente, as entidades privadas. No entanto, sabe-se que, com um entendimento adequado, esse fator ficará relegado a segundo plano e não atrapalhará tanto. Para contorná-lo, porém, mister se faz dar alicerces técnicos à moderna administração. A rigidez que discipline os atos administrativos terá que se fundamentar em razões de ordem técnica. Por isso é que o fato da apresentação de sugestões de pessoas competentes ao governo do sr. Virgílio Távora é merecedor de aplausos e de ampla publicidade.
  • O DOGMATISMO DOS MARXISTAS O comunismo se define como uma “seita internacional que se organiza para desvirtuar a sociedade humana, baseada na lei de Deus e no Evangelho, bem como para instaurar o reino de Satanás neste mundo, implantando um Estado ateu e revolucionário, organizando a vida dos homens de sorte que se esqueçam de Deus e da moralidade” (D. Geraldo Sigaud, CATEQUESE ANTICOMUNISTA). Partindo do mais puro materialismo, os marxistas interpretam a história como a luta de todas as atividades humanas. As manifestações do espírito são consideradas como meros reflexos da matéria. A sociedade se divide em classes e em disputas entre os homens, em consequência da luta de classes. Para eles, tudo funcionará a. Todos os homens serão nivelados, nivelados pela mesma miséria espiritual e material. Os marxistas creem firmemente nisso. E condição para ser marxista acreditar em tais afirmações. Fé que não pode sofrer dúvidas. Os marxistas creem em tais verdades com mais firmeza do que os próprios cristãos. E esta fé que confere aos marxistas uma tranquilidade, ao menos aparente, diante de todas as situações. Quer triunfem quer sejam derrotados, creem na vitória final do seu movimento, isto é, da revolução. Como quer que interpretem o próprio pensamento e a própria dependência da doutrina de Marx, vivem numa total tranquilidade de espírito. Reconhecem seus erros e fracassos, mas a dialética lhes permite considerá-los como um momento necessário do processo que os conduzirá à vitória. Confiam no seu sistema, confiam na história, que lhes dará razão. A história é inexorável e, no seu desenvolvimento, caminha necessariamente para o socialismo comunista, porque as leis econômicas são fatais. Todos os obstáculos serão superados e todas as contradições conduzirão à síntese final do comunismo. A mediação do trabalho e do desenvolvimento técnico e econômico transformará em harmonia todas as oposições. Amanhã, todos serão marxistas, tragados e convencidos pela inelutabilidade do processo histórico. Muitos, mesmo aceitando que Marx errou na maior parte de suas previsões, que se enganou quanto ao futuro do capitalismo e do socialismo, que suas obras econômicas estão cheias de erros, continuam marxistas. Há mesmo os que declaram insustentável o humanismo marxista, materialista e ateu, mas creem cegamente na sociologia marxista. O que fazer contra tais crentes? Nada. Pode-se apenas impedir, isso deve ser feito com urgência, que suas ideias se alastrem ainda mais, e que novos adeptos sejam conquistados. Esta é a obrigação grave de todos os cristãos e de todos os homens livres.
  • AS COSTAS LARGAS DO BRASIL O Brasil é um país de grandes extensões litorâneas. Possuindo nove mil quilômetros de costa, que vão do Amapá ao Rio Grande do Sul, natural seria que o mar se tornasse via obrigatória de interligação de áreas distantes no imenso território nacional, já nos longínquos tempos do chamado Brasil-Colônia compreendeu-se a importância de aqui instalar estaleiros para suprir o país de embarcações. A política de transportes teve efeito no governo de D. João VI. Não só ativou a construção de estaleiros, como explorou ao máximo as estradas naturais: os rios e o mar. Durante o Império, conheceu o Brasil um período áureo em matéria de navegação. A oportunidade naval...
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