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O Nordeste
Janeiro de 1963, página 119 · 5 trechos transcritos
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- PONTOS DE VISTA O regime parlamentarista foi revogado pela nova lei que extingue o regime parlamentarista do Brasil. A vontade do povo nas urnas foi clara. O prazo de 90 dias da emenda Valadares foi revogado, permitindo que o sr. João Goulart assuma suas atribuições de presidente. O Brasil encontra seu próprio caminho democrático, mostrando ao mundo que a arte de grandes crises nacionais consiste na nobreza no acordo. O sr. Jango nem se incomodou com a manobra psicológica dos senhores deputados. Apoiado por Mangabeira, a solução política foi dada. A solução jurídica veio de Oliveira Brito, que, lembrando o artigo 153 da Constituição, afirma que a Câmara já tem o poder de emendar a Carta Magna pelo quorum de 2/3. Assim, o prazo de 90 dias foi revogado. O Presidente organiza o ministério e a Câmara fará sua emenda quando for o caso. A saída política que o Brasil encontrou para a crise institucional é clara. Agora, falta uma solução para as terríveis dificuldades financeiras que o povo enfrenta. O aumento em aumento, essa corrida para o abismo, não é possível. O Brasil não se julga com direito de desafiar todas as leis do equilíbrio financeiro, numa inflação de 60% ao ano. Que o sr. João Goulart, que falhou por esses seus poderes, queira saber o que fazer nesta hora. Que tire férias da sua arte de fazer política e ingresse na política do bem comum. Porque a política tem como fundamento criar as condições de vida confiante e digna para todo o povo. CONTINUA
- A SANGRIA... Chegou a vez também de o Governo Federal entrar na dança do aumento de salários para os seus servidores, tanto civis como militares. É uma coisa fatal e disso deviam estar bem inteirados os que se metem a obrigar os particulares a subir os proventos dos trabalhadores em geral. Não seria, realmente, admissível que só uma classe de proletários conseguisse ajustar seus vencimentos ao custo de vida, enquanto as demais ficassem à margem, transformadas em verdadeiros miseráveis. Mas também precisavam saber os homens de governo que todo aumento de salário implica mais elevação do custo de vida. E, assim, como num círculo vicioso, o aumento de salário segue aumento de custo de vida e com aumento de custo de vida impõe-se aumento de salário. Dessa manobra cega e condenável impõe-se a inflação monetária, mas, à medida em que se alargam os meios de aquisição sobem os preços das utilidades com o desenvolvimento da procura e a redução da oferta. Agora são os militares que tomam a frente de um movimento capaz de proporcionar o reajustamento dos seus ganhos às exigências dos preços altos. E como não pode haver diferença entre servidores militares e civis no que diz respeito à situação financeira, o que sucede é que terá o governo que providenciar até abril, segundo as promessas, um reajustamento para cima dos proventos dos seus funcionários, já estipulado na base de 50 por cento. Agora é o caso de perguntar como vai o Tesouro Nacional enfrentar essa nova sangria, que não deve ser inferior a 200 bilhões de cruzeiros? Se já existe um “déficit” no Orçamento para 1963 de mais de 500 bilhões de cruzeiros, como conseguir recursos para os novos aumentos de despesa? E o pior é que o País enfrenta uma situação de quase desespero no tocante às suas finanças, combalidas até o excesso, e mais prejudicadas com a política exterior e cambial adotada pela “bossa nova” dos responsáveis pela economia nacional. Brigados com os Estados Unidos, não podem os assessores do sr. Jango Goulart obter recursos para o soerguimento financeiro nacional, implicando isso no desgaste até zero grau da nossa capacidade de pagamentos. Será que teremos de acompanhar a Bolívia na decadência da sua moeda, pois hoje, não serve seu papel moeda nem para enfeitar paredes? Continuando a sangria nos cofres públicos, chegará o dia da capitulação total, ou seja a destruição do regime. L.S.
- PARADOXO Ao mesmo tempo em que se anuncia que a safra de cereais este ano, em nosso Estado, se apresentará reduzida por falta de braços no interior, divulga-se que está ocorrendo na Capital a crise do desemprego, com a dispensa em massa dos trabalhadores fabris. Como se sabe, a maioria dos operários de fábricas ou na indústria de construção em Fortaleza provém dos sertões, e é constituída de rurícolas, que abandonaram os campos, atraídos pelas tentações da cidade grande. A facilidade de transportes, com os caminhões servindo de “paus de arara” mais concorreu para o êxodo camponês; e enquanto a lavoura ficava abandonada, a Capital se superpovoa, criando quistos purulentos urbanos, com a promiscuidade habitacional, a desordem social e a falta de higiene geral, além da subnutrição em alta escala. Por causa disso mesmo surgem as lamentações do Juizado de Menores, às voltas com a prostituição em larga escala, o descaminho de meninotas, o furto organizado por menores. Por que as autoridades estaduais, em combinação com as federais e aliadas às chefias comunais do interior não organizam um trabalho de volta ao campo, levando para a agricultura esses excessos de população citadina, que veio do interior e pode muito bem, no interior, desempenhar, devidamente assistida, realizar uma tarefa do mais alto valor econômico para o Estado? Não se concebe que continue a evasão dos campos em busca de meio de vida problemático e difícil, quando há possibilidades reais para a fixação do sertanejo em seu “habitat”, onde poderá viver bem e contribuir para a produção de riquezas em benefício próprio e da comunidade. O jornalista Jáder de Carvalho, que já figurou entre os mais exaltados e vigorosos socialistas avançados no Ceará, decidiu ser agricultor e está entregue a essa atividade de corpo e alma. Pois bem: lutando com o homem do campo é que vê que como é difícil tratar com ele, habituado à indolência, não gostando de economizar, gastando o que ganha e o que não ganha, pouco se interessando pela produtividade. Assim, o que lhe falta, em primeiro lugar, é a educação para a vida rural. E isso não se consegue do dia para a noite mas com um esforço continuado e demorado. E esse esforço é que se faz preciso começar. Só se fala em reforma agrária, mas ninguém cuida de primeiro formar o bom camponês. Abandonado, ele abandona o campo e vem para a cidade, donde o paradoxo de se estar pedindo braços nos campos, enquanto ele sobra na Capital.
- CINCO ANOS COMUNIDADE ECONÔMICA EUROPEIA O “MÍSSIL DE TRÊS ESCALAS DA EUROPA — O SEU OBJETIVO: UNIDADE POLÍTICA POR MEIO DA INTEGRAÇÃO ECONÔMICA De 1958, por cinco anos, a Europa passou por uma transformação que se fez sentir em todo o mundo. As antigas rivalidades de um continente que se desgastou durante séculos em antagonismos que muitas vezes levaram a guerras foram substituídas por novas formas de cooperação, tais como a Comunidade Econômica Europeia (CEE) e o Mercado Comum; Es-tas são as faces de uma nova Europa que ainda não mostrou com igual nitidez da sua força; no entanto, não há dúvida que o empreendimento de constituir uma Comunidade Econômica Europeia (OEE) atingiu sua meta: Conseguir pela integração econômica a unidade política da Europa. A unificação progrediu em obediência a um plano bem ponderado, nos grandes “Tratados de Roma”, firmados em 1957 pelos Governos da França, Itália, da República Federal da Alemanha, da Bélgica, da Holanda e Luxemburgo. Já se encontra na segunda escala de uma evolução para a qual se previu um período transitório de 12 anos. Em face do seu escalonamento comparou-se a CEE com um míssil de três escalas. A união aduaneira, o primeiro elemento, já desenvolveu tal força de propulsão que em 1961 se pôde acender a segunda escala: a união econômica, tendo-se já criado dois dos seus elementos integrantes: o mercado agrário comum dos seis países, assim como um direito comum no domínio dos cartéis. A terceira escala, a união política, tem por carga a essência de todo o empreendimento e contém, finalmente, os órgãos de comando técnico, ou sejam as órgãos da Comunidade, já com caráter político federativo ou quase-federativo: a Comissão de Bruxelas, como executivo, o Conselho de Ministros e o Parlamento Europeu como instância legislativas, assim como o Tribunal Europeu em Luxemburgo. Em colaboração com os governos e as autoridades dos vários estados filiados assim como com o setor privado da economia, estes órgãos começaram a transpor para a realidade os Tratados de Roma. Cálculos pragmáticos no cérebro de homens que sabem que a sua Comunidade é o maior parceiro comercial e o maior comprador de matérias primas do mundo. A CEE é, antes de mais nada, na sua essência, uma obra construtiva ao serviço do fomento do bem-estar e da evolução econômica em todo o mundo. Isto já ressalta do fato de o intercâmbio de mercado interno de 92%, de 1958 até 1962, foi acompanhado de um aumento das importações de terceiros países de quase 40%. E vendo a evolução sob o ponto de vista dos consumidores na Comunidade, compreende-se o resultado da integração econômica: o aumento do produto social bruto de 25% em cinco anos. Em 1959 era cerca de 180 bilhões de dólares e deve atingir, segundo as estimativas, até 1970 um total de cerca de 280 bilhões de dólares. Os parceiros comerciais da CEE podem, portanto, contar com oportunidades crescentes para a colocação dos seus produtos e artigos. O dinamismo interno do Mercado Comum é o segredo da atração crescente sobre outros países. (Conclui na 6a. página)
- O Açude Banabuiú O Açude Banabuiú está voltando ao cartaz das notícias. Isso está ocorrendo há três anos, desde que as nuvens comecem a ajuntar-se no céu, prometendo chuva. E' que o grande reservatório — 1,8 bilhões de metros cúbicos — tem sido sempre um pesadelo para a região à jusante, dado que sua barra nunca ficou completamente concluída. Nesses dias, relembrar a aflição e a emoção que dominam as populações das várzeas de Morada Nova, Limoeiro, Quixeré. Limoeiro, sobretudo, que está a mira do rio, tem vivido, desde 1960, sob o signo da preocupação acerca da possibilidade de vir o reservatório a despencar de uma vez, provocando uma inundação violenta que varreria a várzea como um furacão diabólico. Informações recentes, cuja origem, porém, é desconhecida, e são apenas repetidas por toda a gente, dizem que, este ano não ocorrerá perigo algum, visto que o sangradouro (provisório desde 1960) foi reaberto, de tal modo que evitará o acúmulo de água no açude em proporções que venham a tornar-se perigosas. Outras pessoas, sobretudo entre a população que já sofreu o mal dessa preocupação, anunciam que tudo lá estaria como antes, nas mesmas condições e possíveis de gerar as mesmas consequências. Dois aspectos importantes dessa emergência nos parecem como merecedores de reparos sinceros. Por que não informaria OFICIALMENTE o DNOCS sobre a VERDADEIRA situação do reservatório? Isso poria cobro à alarmante divulgação de notícias infundadas, cujo resultado é implantar a desconfiança e a descrença nas iniciativas governamentais, além de criar condições de pavor, entre as populações por cima de cujas propriedades e vivendas se abateria o colosso, no caso de uma catástrofe. Depois, por que será que a imprensa do Ceará, sempre solícita em noticiar as últimas de tudo, não aborda problemas sérios desse tipo para fazer reportagens que, além de conterem substância informativa muito rica, encerrariam um significado humano de raro valor? Acaso ali, naqueles milhões de metros cúbicos de terra que estrangulam o famoso rio, não se enfileiram os cordéis de um palco imenso que escondia uma das mais dramáticas peças já montadas pela magia natural das cousas e dos elementos, na hipótese de um arrombamento? Seria, parece-me, a iniciativa que seria tomada: o departamento responsável daria a explicação definitiva, a imprensa destacaria elementos capazes para obter informações precisas sobre a situação do Banabuiú. Só assim deixaria o açude de ser o terror das várias baixo-jaguaribanas.