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O Nordeste

Janeiro de 1963, página 157 · 17 trechos transcritos

Manchetes desta página

  • ATENTADOS À SAÚDE NOS BAIRROS E SUBÚRBIOS Fortaleza nunca foi uma cidade limpa, não passando de ironia a sua alcunha de “Loura desposada do Sol”... E agora, com a queda das primeiras chuvas, sente-se ainda mais o grande problema, a deficiência da chamada Limpeza Pública, com as ruas e praças da Capital atulhadas de lixo em decomposição, sem falar nos pântanos das sargetas numa metrópole, cujo serviço de saneamento é dos mais precários, com uma rede de esgoto de meio século de existência em absoluto desgaste e condições de imprestabilidade. É uma situação calamitosa esta por que passa a população de Fortaleza, com terríveis focos de contaminação a multiplicar-se por toda parte, no centro como na periferia da urbe, que ameaça o habitante e escandaliza o visitante, em cada quarteirão, marcado pelo espetáculo dos monturos malcheirosos e esterqueiras, onde proliferam os agentes de terríveis epidemias. Sabemos que, para resolver o caso, as medidas que se reclamam serão de base. Mas, pelo que observamos, o fracasso, a deficiência de determinado e rotineiro serviço público, são o responsável maior pelo deprimente estado em que se acham as nossas ruas, nos bairros pobres, na área central. E este serviço é, sem dúvida, o da Limpeza Pública da capital, o qual, ao que parece, entrou em greve, pelo menos em relação ao recolhimento do lixo em certas ruas, onde as donas de casa se levantam, muito naturalmente revoltadas, com a sujeira da Municipalidade e insensibilidade da Saúde Pública. E será que ainda vale a pena a gente apelar para as autoridades competentes?...
  • Funcionários-vítimas — Incontestavelmente, neste caso da nulidade do Serviço de Limpeza Pública, na capital, sofre a população fortalezense, como mais uma grande vítima. Entretanto, segundo podemos constatar, maior vítima, ainda, é o pessoal encarregado da Limpeza, que sofre uma sujeira ainda maior... da parte da Municipalidade. Conforme soubemos, aqueles humildes servidores percebem salários ínfimos, irrisórios, que absolutamente não correspondem às suas necessidades de sobrevivência, pelo que se veem eles condenados a condições de marginais e níveis infra-humanos de vida. São verdadeiros párias do serviço público municipal, a que se engajam sem as devidas garantias legais, sem se enquadrarem numa categoria qualquer de funcionários, consoante as formalidades estatutárias, ficando, portanto, completamente à margem dos benefícios adicionais e previdenciários a que tem direito um servidor público. Então, não será para admirar que constantemente estejam tombando, inválidos, feridos pela terrível infecção pulmonar, as pobres vítimas da exploração do suor alheio que são, neste caso os trabalhadores da Limpeza Pública, dignos de um tratamento mais humano, com a sua desventurada família, criminosamente preterida pelos “pianistas” daquelas obras faraônicas e mirabolantes tipo Beira-Mar... e por vereadores insensíveis e incapazes até de ajudarem “um homem a morrer”... ganhando mesmo as polpudas propinas arrancadas aos cofres municipais com a renda de toda a sua parentela regiamente empregada...
  • INSTITUTO MUNICIPAL DA CASA POPULAR É uma notícia recebida com justificável entusiasmo nos bairros e subúrbios da capital esta, que se refere ao plano já anunciado pelo cel. Murilo Borges, concernente à criação do Instituto Municipal da Casa Popular, a ser movimentado com os fundos proveniente do recolhimento da “Taxa do Mocambo”, que se vem processando desde 1951, quando foi instituída aquela obrigação tributária pelo Município, que, até ao momento, não fez a devida aplicação daquele pecúlio, somando já bilhões de cruzeiros. Enquanto isto aí continua em progressão geométrica a deplorável chaga dos mocambos em toda a área da periferia desta capital. O grave problema social da favela merecerá uma atenção toda especial do novo governador da cidade!
  • JA’ não cuidamos dos aspectos jurídicos. Não é esta a primeira vez que se “formaliza” um assalto público sob o manto legal e nem será, infelizmente, a última. Desde que perdure a mesma mentalidade nos nossos homens públicos. A reintegração dos funcionários do Conselho de Assistência Técnica aos Municípios ocorreu quarta-feira última, com a aprovação do projeto de Lei n. 30.72. Inconstitucional, ferindo de maneira grosseira e deplorável a Carta Magna. Tangenciando, também, a análise do que representará de negativo para a futura administração, que se propõe a examinar um planejamento realmente sério, tentaremos mostrar que a irresponsabilidade criminosa dos deputados está, mais uma vez, empanando um fato de natureza histórica, cujas consequências negativas para os responsáveis por tais expedientes, mais cedo do que esperam, surgirão inexoráveis a arrebanhá-los para o vórtice que eles próprios estão a cavar. Essas contradições atentam contra os princípios que originaram a “União pelo Ceará”, além de colocar-lhe as vísceras à mostra. Pois a verdade é que vivemos um período de transição difícil, onde o povo começa a se conscientizar, adquirindo o necessário discernimento para julgar os homens públicos e os seus atos. Os homens públicos são o regime. E se estes se desmoronar, batido pelos sucessivos e intermitentes erros políticos, a democracia será ferida. É sabido que a união dos grandes partidos representou a primeira tomada de posição das forças políticas para enfrentar o inimigo comum que ganhava maturidade. Mas para enfrentá-lo, seria necessário, como o é, que esse novo contexto sofresse uma reformulação radical, que o livrasse dos vícios e erros, responsáveis pela diluição do pluri-partidarismo. O que se vê todavia, é a repetição dos mesmos erros, com agravantes, até. A mesma irresponsabilidade a servir de argumento aos adversários. Se não houver um freio enérgico, francamente, o homem não oferecerá o remédio e só Deus conseguirá sustar o inevitável na forma em que andam as coisas. A irresponsabilidade sim, é quem acelera a revolução.
  • Colégios Não Aceitarão Bolsas Federais e Nem da Prefeitura “Só recebo as bolsas estaduais. As demais só têm dado dor de cabeça. Desde o ano passado que os colégios vêm lutando com essa questão das bolsas. As federais ainda não pagaram, as distribuídas pelos deputados. A nossa [...] seccional também não saldou os seus compromissos para com os Colégios. A Prefeitura nem se fala: os vereadores distribuíram bolsas a torto e a direita e o sr. Prefeito de Fortaleza ainda nem sequer cuidou de dar-nos uma justificativa. Para que se tenha uma ideia exata: a Prefeitura deve só ao meu colégio mais de 1 milhão de cruzeiros” Estas declarações foram prestadas à reportagem de O Nordeste pelo prof. [...] Vasconcelos, Diretor do Colégio [...] São José. Prosseguindo em suas declarações, afirmou o entrevistado que os nossos colégios, de modo geral, não aceitarão este ano, bolsas que não sejam do Estado, porque o “Estado tem sido 70 por cento leal para com os diretores de Colégios”. Pesquisamos ainda o dr. Lourival [...] que os prejuízos dos Colégios provenientes do não pagamento das bolsas é realmente assustador, uma vez que o Governo Federal e a Prefeitura de Fortaleza não saldaram os seus compromissos.

Anúncios, notas e expediente

  • Expediente Fortaleza, Quarta-feira, 23 de Janeiro de 1963 O NORDESTE QUINTA PÁGINA O REPÓRTER DOS O Nordeste Político Bairros e Subúrbios Expediente Diretor Presidente: Cipriano Capelo Rodrigues Redator Chefe: [...]
  • Nota social SOCIEDADE DE ASSISTÊNCIA À POBREZA Já em vias de conclusão, deverão ser inauguradas, brevemente, em Messejana, duas casas residenciais, construídas por iniciativa do vigário local, Pe. Francisco Pereira, cujo rendimento de aluguel será revertido em benefício das obras de caridade da Sociedade de Assistência à Pobreza, recém-fundada, ali, pelo pastor paroquial, que luta, naquele subúrbio, com o angustiante problema social dos marginais favelados. Aquela entidade de socorro à indigência atende, semanalmente, aos pobres da redondeza, com a distribuição de leite em pó, óleo, feijão, outros alimentos, medicamentos e roupas. A cerimônia de inauguração daqueles prédios contará com a presença de S. Excia. Revdma. D. Antônio de Almeida Lustosa. Aliás, o padre Francisco Pereira, que se encontrava ausente da paróquia, fazendo repouso no sítio Prainha, deverá regressar a Messejana ainda esta semana.
  • Nota social Fonte altamente credenciada informou ao repórter que carece de fundamento a notícia, segundo a qual o cel. Virgílio teria topado conhecimento dos “inventários” da Assembleia e dado boas gargalhadas ao saber que alguns deputados não foram reeleitos. O seu informante: familiar do governador eleito, garantiu que a força de Virgílio se fará sentir, logo que assuma as rédeas... da administração.
  • Nota social Os srs. Barroso e Gentil Barreira convocam reunião da bancada estadual da UDN, ontem, à tarde, na Assembleia. Pouquíssimos compareceram. Os jornalistas não conseguiram ver quais os assuntos debatidos no encontro. Acredita-se, todavia, que o caso dos “inventários” foi o ponto do dia. Burros ainda continua agastado com os seus liderados que estiveram envolvidos na marotagem.
  • Nota social Às vinte horas de hoje, os srs. Périlo Teixeira e Pádua Campos serão empossados na direção do Conselho de Assistência Técnica aos Municípios. O primeiro como presidente do órgão e o segundo, como Vice. O sr. Perilo Teixeira (UDN de Itapipoca) substitui o dr. Raimundo Ivan que, por haver sido eleito à Assembleia Legislativa, deixou de se candidatar à reeleição.
  • Nota social O deputado Samuel Lins anuncia um discurso da Tribuna da Assembleia, para apresentar informações prestadas à Imprensa (inclusive pela coluna) segundo as quais teria participado do “inventário” oriundo do projeto n. 13. Diz o parlamentar que não “herdou nenhum cargo e que votou por não admitir a promoção”. Mesmo que não tenha herdado nada do “inventário”, o lamentar é que esses deputados Vêm de passar o tempo todo a vagar e a propor responsabilidade. Pois não é crível que um deputado vá para o Recinto de uma Assembleia, “bater papo” como se aquilo fosse um banco da Praça do Ferreira...
  • Nota social O vice-governador em exercício, dr. Wilson Gonçalves, ao que se informa nos corredores oficiais, não estaria disposto a sancionar o artigo 8o. do projeto de Lei n. 2073. S. Excia. procrastinaria a sanção, deixando-a para o governador Parsifal Barroso, que regressa esta semana dos Estados Unidos. É certo que, assim procedendo (o que é muito justo, aliás) o dr. Wilson Gonçalves vai ferir suscetibilidades, junto à Assembleia, mas é sabido que o sr. Parsifal Barroso, coerente consigo mesmo, refutará o “enorme” sem tergiversação.
  • Nota social O Legislativo do Estado continua sem realizar as suas sessões ordinárias. Depois dos “inventários” os parlamentares não compareceram às reuniões. Prova cabal de que a Assembleia só funciona para atender à sanha dos seus componentes.
  • Nota social VIRGÍLIO Távora participa do [...] de reintegração do Nordeste. O [...] ora se realiza em São Paulo. + Presidente da República assistirá ao encerramento do encontro dos governadores nordestinos com o governador eleito de São Paulo. + Surpreendeu a pregos e troianos o ministério anunciado pelo sr. João Goulart: acende uma oração a Deus e outra ao Diabo. + O general Nicácio Figueiredo [...] para presidir as solenidades do Dia da Previdência Social. + Edival de Melo Távora entende que os deputados eleitos podem ser diplomados, sem prejuízo do recurso impetrado pelos srs. Irapuan e Estio Pinheiro. + Ainda acamado o deputado Paes de Andrade, que, por esse motivo, não pôde fazer as suas despedidas da Assembleia Legislativa. + Se for anulada a eleição de Acopiara, o sr. Luciano Magalhães (um bom deputado, diga-se de passagem), será eleito. + Hermes Pereira (PSD) será o Secretário de Patrimônio do governo Murilo Borges. + O vereador Ernesto Gurgel também será convocado pelo cel. Murilo.
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