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O Nordeste

Julho de 1922, página 37 · 15 trechos transcritos

Manchetes desta página

  • A loucura do luxo Eis mais uma moléstia que todos os dias faz milhares de vítimas no seio das sociedades modernas. É uma verdadeira paixão que domina não só indivíduos, como famílias inteiras. O homem que não possui muitas vezes o necessário, procurando, loucamente, o supérfluo! Deixa-se empolgar pelas festas, pelos prazeres e orgias, abandonando o trabalho. Daí as incessantes desavenças nos lares, as debandadas desastrosas das famílias e mil outras consequências, cada qual mais funesta. A mulher, deixando-se arrastar pelas modas românticas, por diversões cotidianas, vai perdendo o gosto pelo labor doméstico, não tem amor à casa e não fiscaliza a despensa, tem horror à cozinha e não se entusiasma pelos filhos. As filhas seguem os exemplos das mães e escravizam-se aos prejuízos que enchem a sociedade moderna. Não vemos proscrito, em certos meios, o pudor pela ostensiva indecência das vestes exageradamente curtas e decotadas?! Os filhos revoltados e desamorosos trocam facilmente os lares pelas ruas; desobedientes e ingratos, são verdadeiros usurários na assistência às necessidades dos seus pais. Raros são os filhos atuais que auxiliam, com os frutos dos seus trabalhos, a casa paterna. O luxo tresloucado dos presentes tempos é um dos grandes fatores das desuniões domésticas. Quantas esposas exigem dos seus maridos despesas acima dos seus recursos? Quantas filhas não sacrificam os seus pais? Tudo é um fato desolador, lutar com o sacrifício do crédito, com a quebra da dignidade? Aflorar de mais vergonhoso, iludir a boa fé do comerciante, usar da confiança alheia para seda e usar chapéus da moda. Os roubos se multiplicam, abrem-se inquéritos nas repartições públicas, apuram-se responsabilidades, descobrem-se desfalques, algumas vezes avultados, nos tesouros e nas alfândegas, nos armazéns e nas lojas, e encontram-se sempre as causas de tamanhos desastres nas orgias do marido ou no luxo exagerado da família. Esta paixão pavorosa causa também prejuízos físicos, gera anemias e faz tuberculosos. Há famílias que se alimentam pessimamente, para vestir com ostentação. Clama aos Céus hábito tão esquisito, discordante de todos os princípios da lei natural, oposto à caridade evangélica. Parece-me que as famílias que procedem assim cometem o crime de suicídio lento, se vão matando aos poucos, vão morrendo por inanição. Pecam contra Deus e ofendem os interesses da pátria. A pátria precisa de soldados valentes e de operários fortes e robustos, como a Religião necessita de bons cristãos e de grandes Santos. Inúmeras famílias, que ontem viviam com abastança, foram precipitadas na pobreza pelos gastos excessivos. Quantas ruínas e destroços feitos na sociedade moderna por este desatino?! Não se contam as honras sacrificadas, já vai bem alta a cifra dos crimes perpetrados pelo luxo. E a Igreja Católica pelos seus ensinamentos puros e pela norma seguríssima da sua conduta, não cessa de clamar dos púlpitos e pela imprensa contra as exigências cruéis da sociedade, contra as loucuras estúpidas do luxo e dos prazeres mundanos.
  • O aniversário da administração do Dr. J. de Serpa Realizaram-se, hoje, segundo aniversário da administração do excelentíssimo senhor Dr. Justiniano de Serpa, altas manifestações de apreço ao ilustre Chefe do Estado, a que se associaram as autoridades federais, estaduais e municipais, magistrados, deputados e grande número de políticos e representantes da imprensa. Às 7 horas foi celebrada uma missa em ação de graças na Igreja do Rosário, por iniciativa da Assembleia Legislativa. Foi celebrante o reverendíssimo Monsenhor Salazar da Cunha, deputado estadual. O ato religioso teve grande concorrência, tocando em frente à Igreja as bandas de música do 23º de Caçadores e do Regimento Militar do Estado. Após a cerimônia, sua excelência o senhor Presidente do Estado recebeu cumprimentos de todos os presentes. O Nordeste, que se representa no aludido ato religioso, faz a Deus sinceros votos para que a administração do eminente Chefe do Executivo cearense seja altamente fecunda ao progresso da nossa caríssima terra, que tanto precisa contar com o patriotismo e a dedicação dos seus filhos, na obra eminentemente social da defesa dos interesses coletivos. Às 13 horas, sua excelência o Dr. Justiniano de Serpa, acompanhado de sua casa civil e militar e de alguns amigos, visitou o Quartel do Regimento Militar, recebendo expressiva manifestação da parte da oficialidade policial do Estado. Às 14 horas, em comemoração à data da promulgação da Constituição Estadual, houve no Palácio do Governo, brilhante recepção, a que compareceu o mundo oficial e político, além de representantes de diferentes classes sociais e da imprensa. Às 21 horas, haverá na residência presidencial, na Aldeota, uma audição de violino, que será oferecida à excelentíssima família do chefe do Estado, pela exímia violinista, senhorinha Carmem Sainíco Castello Branco. Para esta reunião de arte, que muito brilho dará às festas comemorativas do segundo aniversário da administração do Dr. Justiniano de Serpa, recebemos delicado convite, fineza a que nos confessamos gratos.
  • O «Estado de Minas» e o presidente Serpa BELO HORIZONTE, 12 — Hoje, aniversário do governo cearense, o órgão oficioso «Estado de Minas» publica o seguinte, na primeira página, sob a epígrafe — Governo do Ceará: «Transcorre, hoje, sob os aplausos unânimes do povo, o 2º aniversário do atual governo cearense, que, sob a inteligente direção do Dr. Justiniano de Serpa, tem beneficiado a seus coestadanos com uma administração fecunda e progressista. Deputado pelo Pará, durante quase 20 anos, jurista de alto renome, o atual chefe do Executivo Cearense, por feliz inspiração do ilustre presidente Epitácio Pessoa, foi, há dois anos, o candidato de conciliação que naturalmente surgiu para a presidência do Ceará, por gozar de gerais simpatias, e ser um padrão de glórias da terra que o envaidece. O Ceará, envaidecida, por ver em seu ilustre filho um dos mais eminentes estadistas de todo o norte, onde goza de real prestígio. No governo, a sua atuação de cultor do direito foi naturalmente inspiradora da nova constituição do Estado, documento esse que sintetiza as mais nobres concepções democráticas, moldadas nas justas formas do nosso direito constitucional. Reorganizou, em bases amplas e modernas, a instrução pública, colocando aquele tradicional Estado do Nordeste à altura do justo renome, de que goza, de terra da luz. O nome do presidente Serpa, por esse brilhante perfil de estadista, vive ultimamente cercado da simpatia e respeito dos seus concidadãos. Prestando justa homenagem ao jurisconsulto ilustre, que preside os destinos do glorioso Ceará, enviamos ao heroico povo cearense, nossos parabéns mui sinceros, pela passagem da feliz data, que lhe é tão cara.»
  • Instrução Pública Trecho da Mensagem Presidencial, lida por ocasião da instalação da Assembleia Legislativa do Estado Considerações preliminares — Tenho dado a maior atenção ao problema do ensino, convencido como estou, de que, entre as atribuições do Estado, nenhuma é maior, nenhuma mais necessária, como nenhuma mais urgente no Brasil. O país vai comemorar o Centenário de sua emancipação política com a sombra da vergonhosa cifra de mais de 80% de analfabetos, o que é tanto mais de lamentar-se, quanto é fácil de verificar que o progresso nacional está dependendo da transformação mental do povo, que virá abrir-lhe o caminho das descobertas científicas, facilitando-lhe iniciativas para produzir mais e melhor, dando-lhe outros meios de pensar e de viver. O valor econômico da instrução é provado com a eloquência dos números de todas as estatísticas. Se há, com efeito, verdade econômica bem estabelecida hoje, dizia já Gréard, no seu célebre Relatório à Exposição Universal de 1878; está em que o país mais ilustrado é, ou há de ser, se ainda o não é, o mais rico. Os dados censitários publicados, há alguns anos, pelos conselhos escolares dos Estados Unidos, punham frente a frente os Estados onde a instrução primária se achava atrasada e onde havia progresso; e esse quadro correspondia com precisão matemática ao quadro do movimento do comércio e da indústria. A mesma concordância tem sido demonstrada em relação às várias regiões de outros países, e pode ser verificada com o poder econômico dos nossos Estados irmãos. Instruir e educar é a melhor economia, a mais inteligente política, a mais fecunda administração. A civilização caminha somente à custa da riqueza e a riqueza sólida só deriva da cultura do povo, a qual nasce e cresce com a eficácia da escola pública, ou seja, da disseminação do alfabeto. Exemplos da atualidade aí os temos, no da Rússia, o imenso império de quase 200 milhões de habitantes, que se fragmentou num momento, arruinou-se, e sofre os horrores da fome porque nunca cuidou da educação popular, ao passo que o minúsculo Japão, considerado há cinquenta anos atrás como um povo bárbaro, hoje se apresenta uma das mais ricas, mais prósperas e mais fortes nações do mundo, porque intensifica desde esse tempo, por todos os meios, a sua educação. Essas observações aplicáveis a todos os países e regiões do mundo, mais que a um outro qualquer, impõe-se ao Brasil, detentor da maior e mais rica arca inaproveitada e inexplorada da existente no globo. Sobre a qual, sobre a terra fértil e o solo cheio de riquezas, sucumbe à fome, ou vegeta inutilmente grande parte da população, que não tem quem a oriente no trato e aproveitamento da terra, na defesa sanitária e na organização da produção. E do Brasil, mais que qualquer outra região, o Nordeste reclama a obra da escola. Aqui, mais que alhures, um papel de maior proeminência e de indiscutível necessidade cabe à educação popular, realizada por um protetorado capaz, pleno de energias morais e imbuído e prestigiado pelo patriotismo dos governos. A boa e heroica terra exige de seus filhos o máximo de esforço, que não devora a convicção climatérica, mas, ao mesmo tempo, com a riqueza do solo e da botânica, uma campanha de luta. Exige por parte de quem a governa, o mais inteligente afã na compreensão dos fenômenos meteorológicos, exige a providência severa dos que sabem acumular nas horas de fartura para as faltas dos dias em que a miséria ronda a porta de todos, exige a capacidade técnica e a educação econômica. Reclama, enfim, as qualidades primeiras da educação primária e profissional, o método e a disciplina do trabalho. O dia sagrado que nos virá com a calamidade das secas afastada pelas obras de engenharia moderna, não poderá ser ainda contado como o da completa e definitiva emancipação econômica do Ceará. Estaremos redimidos da feição de horror do flagelo efemérico, mas faltar-nos-á ainda a remissão da inteligência, que nos habilite a tirar o melhor proveito possível dessas próprias obras de defesa e das grandes riquezas da terra que elas vão proteger. Resolver-se-á o problema humanitário, Deus louvado, a caminhar para uma rápida solução, mas continuará pendente o problema social.
  • O NORDESTE Pelo horário de hoje, segue para o sul do Estado o distinto jovem senhor Walter Fernandes, que fará propaganda desta folha em sua excursão comercial no interior. Recomendamos este nosso dedicado representante aos nossos amigos do sertão e esperamos que esses bons cearenses, interessados pelo progresso moral de nossa terra, lhe concedam inteiro apoio.

Anúncios, notas e expediente

  • Expediente O Nordeste É o jogo, no dizer de notável moralista, um abismo sem fundo nem margens. Desgraçado de quem se atira às ondas deste pélago devorador! ARAÚJO & CIA. Redação: Drs. Andrade Furtado e José Martins Rodrigues Administração: A. Ildefonso de Araújo ANO I Fortaleza, 12 de Julho de 1922 Nº 12
  • Anúncio Livros de moral, mística e de louváveis autores. Terços, quadros em piedade.
  • Nota social ANTONIO FURTADO Esteve em nossa redação o Dr. Antônio Furtado, ilustre professor da Faculdade de Direito, que nos deu parabéns pelo aparecimento deste jornal. O Dr. Antônio Furtado regressou de Quixeramobim, onde esteve no gozo de férias, acompanhado de sua excelentíssima família. Agradecemos a fineza da visita.
  • Nota social DESEMBARGADOR LUÍS GONZAGA Fez-nos delicada visita o nosso distinto amigo, Desembargador Luís Gonzaga Góes da Silva, que acaba de regressar do sertão de Quixeramobim, onde fora a passeio. O digno magistrado trouxe-nos seus cumprimentos pela circulação desta folha, desejando-nos prosperidades. Muito gratos estamos à sua gentileza.
  • Nota social COMANDANTE MAJOR CASTELLO BRANCO Deu-nos, hoje, o prazer de sua visita o ilustre militar cearense, Major Dr. Castello Branco, há alguns meses ausente da terra de seu pai, e que acompanha sua senhorita Carmen Castello Branco, a esta cidade, onde veio realizando um recital de violino.
  • Anúncio AGULHA BORDA-DE ROUPAS PREPARA-SE,
  • Telegrama TELEGRAMAS SERVIÇO DO BRASIL DO PAÍS Rio, 11 — Foram presos em Itaquiduz, dois civis, cúmplices da revolta. Os nove alunos legalistas Rio, 11 — O ministro da Guerra mandou encostar ao 1º Regimento de Artilharia Pesada os nove alunos da Escola Militar, fiéis ao governo, os quais deverão gozar de inteira liberdade. Para auxiliar do referido regimento, foi designado o tenente Rabi Pinto Seidl. Demittido Rio, 11 — O cel. Xavier de Brito foi demitido do comando da fábrica de cartuchos. Excluídos do inquérito Rio, 11 — O ministro da Guerra declarou estarem excluídos do inquérito militar os oficiais e praças da Escola Militar e do forte de Copacabana. As eleições no Rio A oposição venceu? Rio, 11 — O resultado das eleições no Estado do Rio, até agora conhecido, é o seguinte: Raul Fernando, 8.224 votos; Feliciano Sodré, 9.343 votos.
  • Nota social Recital de violino Por motivo de o espaço ocupado no Teatro José de Alencar, com a exposição de produtos cearenses, foi transferido para sábado próximo o recital de violino da senhorinha Carmen Sainíco Castello Branco.
  • Nota social Aniversários — Passa, hoje, a data natalícia do nosso prestimoso amigo Tertuliano Gonçalves, que com muito zelo e competência exerce, nesta capital, o cargo de administrador da Empresa de Navegação. Enviamos-lhe os parabéns.
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