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O Nordeste
Julho de 1922, página 76 · 7 trechos transcritos
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- A sedição militar do dia 5 entrevista um participante do movimento Isto não é uma entrevista, mas uma conversa. Um ex-cadete da Escola estava numa roda atenta, solícita, a relatar, simplesmente, os acontecimentos em que participara, na sedição do dia 5. Sem nos denunciarmos, colhemos dele as informações que ouvimos, algumas até exageradas, como, por exemplo, que o número de mortos é talvez de 800. Sobre os principais fatos deu-nos, ele, sem intenção, informes curiosos, quando menos pelo tom pessoal que lhes imprime. É por isso, transmitimo-los ao público. Despreocupadamente, falou o nosso entrevistado ou, melhor: O LEVANTE NA ESCOLA MILITAR “Desde muito tempo que o levante estava planejado. Em princípio de junho, quando me pus em contato com os alunos da Escola, já se falava decisivamente num movimento sedicioso contra o governo. Na Escola Militar, todos ou quase todos dele tinham conhecimento. — Mas estava fixada a data do movimento? — Creio que não. Pelo menos, se o estava, nunca pude saber. Não lhe posso dizer se só rebentaria por ocasião da posse do presidente Bernardo, como era a expectativa geral do público. Se havia essa combinação, foi alterada com os fatos do princípio de julho: censura e prisão do Marechal Hermes e fechamento do Clube Militar. Tudo isso produziu, na Escola, funda sensação e exaltação de ânimos. Na noite do dia 4 tivemos notícia de que o movimento rebentaria na manhã seguinte. — É verdade que os oficiais incitavam os alunos ao levante? — Não. Todos agiram espontaneamente, talvez mesmo por um impulso inconsciente, mas por si, e com o entusiasmo escaldante de moços. Até os filhos de próceres bernardistas participaram do levante. E, até — note você — os oficiais procuravam, na manhã do movimento, levar-nos à reflexão e à calma. Mas, como ia dizendo, soubemos na noite de 4, que o levante se daria na manhã do dia seguinte, mas um levante geral das forças da guarnição, acompanhadas pelos fortes da barra. O plano era este: A Escola Militar, situada no Realengo, marcharia pela madrugada, para a Vila Militar. Ali se juntaria aos 1º e 2º regimentos. Esse conjunto de forças, por sua vez, se iria aliar às unidades aquarteladas em Deodoro e Marechal Hermes. E, feita, como nós supúnhamos, um total de cerca de 10 mil homens, marcharíamos sobre a Capital Federal, nela penetrando pela linha da Central. Não queríamos derramar sangue. Ocuparíamos, pacificamente, os pontos estratégicos da cidade, as repartições e ministérios. E, quando tudo estivesse feito, enviaríamos ao sr. Epitácio um ultimato, exigindo-lhe a entrega do governo, sob a ameaça de o tomarmos à força. Por seu turno, as fortalezas da barra adeririam ao movimento. A Copacabana iniciaria o fogo, seguida logo do forte de Vigia, do Imbuí, da Santa Cruz, da Laje, da S. João e da Villegaignon. Por outro lado sabíamos que a guarnição de São Paulo marcharia também sobre o Rio e, para levantá-la, seguira para ali, na véspera, o general Cardoso de Aguiar. As forças de Mato Grosso estavam, também, na combinação, como você pode depreender do desastrado movimento do general Godofredo da Fonseca. — E, feita a deposição do governo, de que tratariam as forças vitoriosas? — O marechal Hermes seria proclamado ditador. O Exército controlaria o governo. O Exército, apesar de tudo, não morre de amores pelo sr. Nilo. Na verdade, ninguém queria o Bernardo, mas poucos o seu adversário. Assim, mandar-se-ia proceder a nova eleição. — Mas tudo falhou... Continuemos. Combinado tudo na manhã do dia 5, todas as forças da Escola Militar, quase 800 alunos, iniciaram a marcha para a Vila Militar, ao encontro das demais. E, quando chegávamos próximo àquele ponto fomos recebidos, com dolorosa surpresa, à bala. O governo soubera de tudo e a tudo prevenira. Aliás, tem-se a impressão perfeita de que o Presidente acompanhara todo o movimento e só o deixara rebentar, para melhor e definitivamente esmagá-lo. Recuamos para a Escola, e ali nos entrincheiramos. Durante onze horas, o 1º regimento atacou-nos cerradamente, até que nos rendemos. Desarmados, ficamos presos na própria escola, guardados pelo 1º batalhão de Infantaria. Toda a oficialidade foi logo mudada, inclusive o comandante, coronel Xavier de Brito. Este não tomara parte na sedição e creio mesmo que a ignorava. Tanto assim que contam que, dias antes, tendo o presidente denunciado a Escola, o chamara à sua presença, e ao coronel Xavier lhe afirmara que aquilo era “um rebanho manso”. — Quantos alunos da Escola ficaram fiéis à legalidade? — Isso de fiéis à legalidade, creio que não houve. Fora da sedição ficaram talvez 15: 9 porque estavam recolhidos à enfermaria, e 6 licenciados, fora da Escola. — Morreram muitos? — Não um só, parece. Feridos, houve mais. Não lhe posso precisar nada, porque, você sabe, derrotados, ninguém nos comunicava tais informes. Nem jornalistas. O que lhe posso assegurar é que não morreu nem um cearense. Todos estão salvos, e todos entraram na dança. — Qual será o destino dos alunos? — Não sei de certo. Parece, porém, que a atitude do governo é distribuí-los por diversos corpos, nos Estados. O pior é que cortaram a carreira, apesar de que há fundadas esperanças na concessão de anistia. EM COPACABANA E OUTROS PONTOS — Fale-nos sobre os demais pontos revoltados. O único em que houve levante foi Copacabana. Pelas 7 1/2, mais ou menos, a fortaleza rompeu fogo. Secundou-a logo a Vigia. Esperava-se que, pouco depois, o mesmo fizessem os outros. Quando, porém, romperam o bombardeio, já foi contra os fortes rebeldes. A Copacabana sustentou uma luta heroica e longa, desde a manhã do dia 5 até a tarde do dia 7. Seus artilheiros são habilíssimos. Como haviam prometido, a primeira granada que lançaram, foi cair no palco central do ministério da guerra, com uma precisão matemática. Seu bombardeio causou estragos enormes, e penso que não terá sido pequeno o número de mortos e feridos em consequência dele. O governo, senhor da situação, fez cortar logo todas as comunicações com o forte, cortando a ligação elétrica e de água. Numerosa força do Exército isolou a fortaleza, e rompeu sobre ela um inútil fogo de fuzilaria. Atacaram-na, simultaneamente, a artilharia pesada de terra, as fortalezas e os navios de guerra. Nenhum destes foi atingido pelos projéteis da fortaleza, devido à habilidade de suas manobras. Do contrário, dada a eficácia do forte, teriam sofrido estragos irreparáveis. — Que sabe você do capitão Euclides? — Na opinião generalizada, traiu seus companheiros. Na manhã do dia 7, declarando estranhar que as forças da Vila Militar não fossem em seu auxílio, saiu, disse, para falar com os amigos. E tomando um automóvel, partiu em velocidade para a residência de um amigo particular. Alguém seguiu-o em auto e, denunciado ao governo, ali mesmo foi preso. Do heroísmo da resistência da guarnição de Copacabana, você já sabe, até o final, em que, saindo do forte, foram dominados por uma carga de baioneta. A ATITUDE DO PRESIDENTE EPITÁCIO — Sobre o presidente, que me diz? — Creia que tenho, por ele, hoje, a mais exaltada admiração. Vale por um exército. E, sobretudo, o que pasma é a precisão, a energia, a calma e decisão com que agiu. Dizem que nem um instante se alterou. Contam até que, em dado momento, o ministro da guerra, entrando no Catete, exclamou: — “Sr. presidente, está tudo perdido”. Mas nem essa alarmada atitude de seu ministro lhe tirou a serenidade. Quando começou o bombardeio, S. Excia. esteve nas janelas do Catete, com absoluta calma. Terminada a luta, o sr. Epitácio fez eloquente saudação ao Batalhão Naval e forças que rodeavam o Palácio, sendo delirantemente aclamado. Meia hora, se tanto, após a rendição do forte, já o presidente ali comparecia de automóvel. É um forte, na mais nobre acepção da palavra. VESTIDO DE PADRE OU DE MULHER? — E o marechal Hermes? — Homem, o que contam, a respeito, é até interessante. Na tarde do dia 4, já solto, o marechal estava no Mace Hotel. Ali recebia um sem-número de visitas de políticos e militares. A vigilância da polícia era tremenda. E o marechal precisava sair. Então lançou mão deste expediente: vestiu-se de padre ou de mulher, e deu às de Vila. Até de Vila mesmo, porque, segundo dizem, foi para a Vila Militar o padre Hermes, em cujas proximidades, aliás, foi preso. Se ao marechal faltou a coragem para dirigir o movimento, ou a solidariedade dos colegas, é o que não se sabe. Na verdade, em tudo isso houve muita falta de decisão de chefia e de coragem. No momento crucial, os chefes foram os primeiros a fugir, pelo menos os responsáveis morais, que eram os cabos da dissidência. Mas, meus amigos, já falei demais. E, com estas palavras, despediu-se do grupo.
Anúncios, notas e expediente
- Expediente 2 O NORDESTE. Sábado. 22 de Julho de 1922
- Telegrama RELIGIÃO DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES Epístola (S. Paulo aos Romanos, cap. 6, v. 19) Irmãos, humanamente falo, atendendo à fraqueza da vossa carne que, assim como para a maldade oferecestes os vossos membros para que servissem à imundície e à iniquidade, assim para a santificação oferecei agora os vossos membros para que sirvam à justiça. Porque, quando éreis escravos do pecado, éreis livres da justiça. Que fruto, pois, tínheis então naquelas coisas de que agora vos envergonhais? Pois o fim delas é a morte. Mas, agora que estais livres do pecado, e que haveis sido feitos servos de Deus, tendei o vosso fruto na santificação e por fim a vida eterna. Porque o estipêndio do pecado é a morte; mas a graça de Deus é a vida perdurável em nosso Senhor Jesus Cristo. Evangelho (S. Mateus, cap. 7, v. 15) Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Guardai-vos dos falsos profetas que vêm a vós com vestidos de ovelhas, e por dentro são lobos roubadores; e pelos seus frutos os conhecereis. Porventura os homens colhem uvas dos espinhos ou figos dos abrolhos? Assim toda a árvore boa dá bons frutos, e a má árvore dá maus frutos. Não pode a árvore boa ter maus frutos, nem a árvore má dar bons frutos. Toda a árvore, que não dá bom fruto, será cortada, e metida no fogo. Assim, pois, pelos frutos os conhecereis. Nem todo o que me diz “Senhor, Senhor,” entrará no reino dos Céus; mas sim o que faz a vontade de meu Pai, que está nos Céus, esse entrará no Reino dos Céus.
- Telegrama HORÁRIO DAS MISSAS Na Catedral: 7, 8, 9 e 10 horas. Capela S. Luís (Cemitério): 6 1/2 Capela do Rosário: 7 1/2 Igreja da Prainha: 6, 7 1/2 Conceição da Prainha: 7 1/2 Matriz de Patrocínio: 7 1/2 e 9 Igreja da S. Casa: 7 1/4 Igreja de S. Benedito: 6 1/4 Igreja da Candelária: 6 1/2 Igreja dos Navegantes: 7 1/2 Igreja Matriz de S. José (P. Vieira): 6 1/2 e 7 1/2 Igreja de S. Francisco (Alagadiço): 7 1/2 Matriz do Carmo: 6 1/2 e 8 1/2 horas Capela de S. Pedro: 6 1/2 Capela das Dores: 7 e 8 Igreja dos Militares: 7 1/2 Igreja do Sagrado Coração de Jesus: 6 1/2, 7 1/2 e 8 1/2 Capela do Bom Jesus: 6 1/2 Capela do S. Sebastião (Messejana): 7 1/2 Capela de S. Tomás (Catacumba): 7 1/2 Capela dos Remédios: 7 Capela da S. Conceição do Carmo: 7 1/2
- Expediente “O NORDESTE” participante de [...] [...] a i
- Telegrama TELEGRAMAS O sr. Estácio aceita a indicação do seu nome RIO, 21 — O dr. Estácio Coimbra telegrafou aos convencionais, aceitando a indicação de seu nome para a vice-presidência e mostrando-se honrado com a prova de confiança e apreço que lhe tributam as forças políticas da Nação, na hora decisiva que o Brasil transpõe, triunfante, em demanda de seus gloriosos destinos. O sr. Estácio embarcará para esta capital no dia 25 do corrente. O chefe da missão pontifical interessa a imprensa carioca RIO, 21 — Todos os jornais trazem a biografia do monsenhor Cherubini, atual núncio apostólico de Belgrado, chefe da missão pontifical que vem ao Brasil assistir às festas comemorativas do Centenário da Independência. A missão se compõe de doze prelados, um sacerdote e dois guardas nobres. As festas de recepção do novo arcebispo de Recife e Olinda RECIFE, 21 — O novo arcebispo Dom Valverde será recebido festivamente aqui. Sua chegada será aguardada fora da barra, pelos clubes náuticos e jangadas de pescadores. O Círculo Católico oferecer-lhe-á um banquete de cem talheres em sua sede.
- Nota social OS COMETAS DO DIABO (Mensagem da Boa Imprensa, do Padre) Até voltar à rua Bayard, eu encontrei com o diabo em pessoa. [...] pregado à qual, eu [...] sentindo [...] e [...] a [...] impecável, mas a [...] boquiaberto [...] no rigor da muda. — O que fazes aqui? — perguntei. (Nós nos tratamos por tu.) — Vinga a teu lado, Pedro. — Ah! sou eu! Excomungado, tu és um [...] — Hum! — dissimulou ele, rindo da [...] de tartaruga, surpreendendo-lhe o olhar. Deitou-se a meu lado e seguimos. — Agora vês, quando quiseres, caro amigo: eu vos tenho. Aquele está vendado por mim. É católico, entendes, Pedro? E nota bem, é assinante de um dos meus diários da manhã. À tarde lê uma folha protestante. Lê-a na mesa, e dali por ela o giro da casa toda até a cozinha vai pregando suas ideias a toda a família. Não é boa minha folha vendada? Poucos passos adiante, encontramos uma jovem. — Aquela vai à missa, e é uma das minhas fidelíssimas contribuintes. Todo santo dia dá-me o seu óbolo. “Uma gota d'água naquele tormentozinho”, dirá um dos teus cegos católicos. Mas, sabes tu o que é uma gota? O tremendo oceano é feito de gotas. Seguimos pela gruta. Divertem-me os vossos preconceitos, os vossos vultos dilatam-me o baço, mas andais um pouco “cecos”. Vês este? E mostrou-me os dedos quando longos, e continuou: — Naquele dia eu ouvi dos católicos uma voada, há quase cem anos. Sei dar-lhe o nome. Eram as trombetas indizíveis de um novo levante na rua. — Mas aquele é robusto, tão [...] — Na nossa rua das [...] está a sede da Boa Imprensa. — Ora, agora conta os meus. E, apontando com a bengala, nervosamente, aqui, acolá, as folhas expostas, dizia: — Este é minha pelo título de [...] este é minha pelo [...]. E, com o torpor moderno, continuo dos leitores que constroem os meus palácios dotados de linotipo e rotativas, ligados com fios especiais a todas as capitais do mundo. Aquela chatinhazinha, como estás vendo, vai pacificamente andando vendada por mim e comprando o jornal. Chegávamos diante de um quiosque de venda de jornais. Os olhos de Satanás flamejavam. — Conta os teus jornais, vai, Pedro, conta-os, Pedro. Contei um, dois, três, quatro, cinco, seis... e mais nada. Este é rota pelos militares; este é pelos amadores; este é pelos clérigos; este é pelas freiras; e este... de este... trinta, quarenta. E tinha razão. Por isto ou por aquilo todos aqueles jornais trabalhavam para o diabo. Soou um padre. Satanás olhou-o dos pés à cabeça: — Também este leva a minha venda nos olhos. Observa, Pedro. Está suando pelo corpo todo. Acabou de pregar, oh! um belo sermão, e não me poupou. Um texto... concluiu o seu discurso com uma peroração magnífica. Mas o seu auditório era de umas quatrocentas pessoas; um bom número, não achas? mas todas já convencidíssimas das verdades que ele pregava: é chover no molhado. Bem, volta-te para o quiosque. Não calculas quanto me rende ele. Eram 8 horas: densa a multidão na rua e nos passeios da redação. Empregados de repartições, de cem laboratórios e oficinas passavam ante o belíssimo expositor. Os vendedores de jornais eram numerosos, e não tinham tempo de dobrar as folhas. De cinco em cinco minutos, apressados ciclistas chegavam com prontos pacotes de jornais, ainda frescos, úmidos da imprensa, e voavam para as mãos dos compradores. — Eis ali a minha cátedra, os meus pergaminhos. Não sabe aquele padre, não avalia que entre a minha prédica e a sua vai a diferença de uma esbelta metralhadora, que distribui os tiros aos milhares, e um canhão pesado. Ele não vê isso... Repara, Pedro. Passou diante do quiosque indiferente. Também eu não faço cabedal do trabalho dele. O meu quiosque, todo o dia e a todas as horas do dia, rouba-lhe as almas, até de inocentes criaturas infantis, remidas com o sangue do OUTRO. Satanás exaltava-se. — Um dia, continuou ele, tive medo, foi quando vi certos homens que, elevados ao governo, só se aproveitam para arrancar das escolas os religiosos, para se apropriarem dos bens destinados às obras pias, dos bens da Igreja. Devagar! disse eu. Roubados, reduzidos à miséria, os católicos sentirão a necessidade de viver... A fome faz sair do mato não só os lobos mas até os outros animais. Os espoliados não deixarão de notar quão enormes lucros dá a publicidade ao “Judeu”, “Globos”, “Pretos”, “Pílulas”, “Emulsão de Scott”... e dirão: “Se aproveitássemos, nós também, a imprensa para as nossas obras? Se fizéssemos jornais nossos? Se nos apoderássemos de um terço diário?” Se pudéssemos assim gritar, da tribuna gigantesca, a nossa miséria, e os nossos direitos! Quem sabe? Não chamaríamos a nós o povo, que é sempre da opinião de quem sabe falar-lhe? A imprensa talmente se adapta a assaltorear-se das almas, que... Houve uma eu, Satanás, confesso, tive medo. “Que será de mim, disse eu aos meus botões, se os católicos com o seu atrativo ideal, com o seu fecundo apostolado, com a benção do OUTRO, saírem à imprensa contra mim?” Foi então que eu dupliquei, tripliquei a minha venda para os olhos... A tempestade passou! A imprensa ficou minha, com o seu prestígio e os seus milhões... Satanás cravou na órbita o seu monóculo com um gesto de soberba e continuou: — Eu, o anjo das trevas, eu não tenho peneira nos olhos. Eu vejo claro... e como vejo bem! Percebo os católicos ficarem indolentes... e conheço a força magnífica de minha arma. Oh! O meu jornal! Quantas vezes o tenho beijado diariamente...! Porque é ele a expressão mais eficaz do meu verbo. O meu verbo, como um gato: [...] em todos os lares, fala a toda a idade, invade as estações e os trens, todos os trens, todos os navios. Entra nas escolas, vai de cidade a cidade, de arraial a arraial, de paróquia a paróquia; não para senão quando não há mais almas a catequizar. Mobiliza os meninos, sim, porque até para eles tem o jornal uma seção. Ah! não conhecem os católicos essa conquista universal: o efeito da minha venda nos olhos deles! E, assim discorrendo, chegamos à porta de pequeno teatro-barraca, onde se reunia o Congresso. Indicou-mo o Satanás, com um gesto de supremo desprezo: — Eis aí a grande sede! Fixei firmemente o meu Golias, e disse-lhe: — Menor era o Cenáculo dos Apóstolos! Respondeu-me com uma blasfêmia. Eu continuei: — A despeito da insolente verdade do teu triunfo, creio, Satanás, na vitória d'Aquele que é o caminho, a verdade e a vida. Creio que o Espírito um dia soprará, e então finalmente verão os católicos claramente. Que dia, oh! que dia esplêndido será aquele, ó Satanás? E, fechando a porta nas ventas do diabo, entrei na pobre sala onde palpitava a recordação saudosa do padre Bailly, o dominicano das novas cruzadas, que, prisioneiro no seu convento, revirou contra Satanás a arma terrível, que os católicos ainda não sabem manejar, porque têm nos olhos a satânica venda. Pierre L'Ermite