Hemeroteca
O Nordeste
Agosto de 1922, página 43 · 8 trechos transcritos
Manchetes desta página
- AS FESTAS DO CENTENÁRIO Conforme ontem noticiamos, estão empenhados todos os elementos de responsabilidade social da nossa terra, em comemorar dignamente a passagem da grande data da Independência do Brasil. Nada mais justo, nada mais consentâneo com os nossos sentimentos de patriotismo, com os nossos deveres de cidadãos conscientes do papel que nos compete desempenhar no concerto da comunidade nacional. Temos obrigação de alegrar-nos com a Pátria e de trabalhar com empenho para testemunhar o nosso imenso gáudio, em manifestações eloquentes que traduzam o nosso verdadeiro e grande amor à liberdade. Devemos dar máximo brilho às festas em comemoração ao primeiro século da nossa Independência. O que se não pode fazer, porém, sem desdouro, é desvirtuar o caráter eminentemente cívico desses festejos, transformando-os em ridículas folias carnavalescas. Não vamos abrir o segundo estádio da nossa civilização com provas públicas de que não estamos à altura de compreender a seriedade da nossa missão no concerto das demais nações. Celebrar o Centenário com pagodeiras seria bem impróprio da magnitude da data comemorada. O dia não comporta frivolidades, nem permite desregramentos. 1 de Setembro requer sessões cívicas, cânticos patrióticos, préstitos de colegiais, desfiles militares, hinos entusiásticos, festas em tudo dignas da solenidade augusta de tão grande evento histórico! É um erro entender-se que só pode haver festas com pagodes e moxinifadas. Há alegrias sãs, as que confortam a alma, as que retemperam o espírito! Mal dos homens sérios se não houvesse contentamentos sadios, para aliviar as mágoas e asperezas da vida, pois todo o coração reclama um pouco de júbilo com que desabafe as tristezas inevitáveis. Faz-se de todo preciso, porém, que os divertimentos sejam lícitos e contribuam para melhoramento espiritual dos indivíduos, sem ofender jamais a pureza das consciências e dos costumes. Não condenamos a alegria, a vivacidade, o entusiasmo; mas pleiteamos o ideal de elevar essas expansões do coração, do campo raso e chão da matéria às esferas onde brilham as irradiações superiores do espírito. Façamos das festas do Centenário homenagens essencialmente dignas da nossa querida Pátria, para que, pela elevação das ideias e dos sentimentos, nos possamos mostrar sempre aptos a zelar o patrimônio sagrado da liberdade gloriosa que os nossos maiores dignamente nos legaram.
- As encantadoras festas escolares de ontem Assentamento da pedra fundamental da Escola Normal Instalação do Grupo Escolar Modelo Conforme noticiamos previamente, realizou-se, ontem, pela manhã, o assentamento da pedra fundamental da Escola Normal, à Praça Filgueiras de Melo, e a instalação oficial do Grupo Modelo, na Praça Marquês do Herval. Assentamento da pedra fundamental Às 8 horas, realizou-se a primeira das aludidas cerimônias. Àquela hora, presentes o presidente do Estado e secretários do governo, deputados federais e estaduais, o diretor da Instrução Pública, dr. Lourenço Filho e o dr. João Hipólito, diretor da Escola Normal, major Siqueira Campos, dr. Sílvio Gentil, as diretoras dos grupos escolares, representantes da Faculdade de Direito, do Liceu do Estado e da imprensa, o chefe do governo deu a palavra ao ilustre e competente diretor da Escola Normal, para se externar a respeito da solenidade, o que s.s. fez em excelente discurso, que temos a satisfação de publicar a seguir: Exmo. Sr. Presidente do Estado. Senhores. Vimos aqui para o lançamento simbólico da primeira pedra sobre que há de erguer-se o monumento da Escola Normal. É praxe que alguém diga da significação destes atos e eu, cumprindo a sorte de ter sido o indicado pela investidura do cargo, cujas funções exerço, lamento que não fosse outro professor na Congregação da Escola Normal, que melhor se poderia desempenhar desta empreitada pelo verbo imaginoso ou pelo estilo altiloquente. Tolerai, portanto, senhores, o acaso de me estardes ouvindo nesse heroísmo a que me subjugou o hábito da cátedra e de cujos acentos do professorado dificilmente me posso afastar. Eu bem sei que as multidões só vibram aos arroubos da oratória, quando esta se repassa aos fluidos arcos da palavra cheia de encantos e de suave poesia; mas, não sendo possível esquivar-me ao império das usanças consagradas, desculpai o inevitável da escolha do orador, que aliás será, por compensação, brevíssimo. Há nove anos fui chamado à direção da Escola Normal, que era muito diferente da atualidade... mas... isso é o passado e não é a ocasião oportuna para dizer do meu pensamento... Falemos do presente... Os que de perto conhecem as privações do ensino sabem de sobra o quanto mudamos dia a dia daquela época para cá; — havia, porém, uma falha no [...] do ensino no estabelecimento, aquela que motivava a sua [...], que parecia incolor, de pretensões calcadas, as presunções e os múltiplos interesses em perspectiva se antepunham a quem ousasse proferir a dureza desta verdade, que envolvia, como de fato envolveu, uma solução radical no ensino da Psicologia experimental e Pedagogia, decaídas da tradição dos seus áureos tempos, quando as forças do velho mestre foram enfraquecendo com os estragos da idade. O Exmo. Sr. Presidente do Estado pediu então a S. Paulo um dos mais docentes, exatamente um professor de Psicologia e Pedagogia, e a Escola Normal, logo às suas primeiras lições, como que se sentiu em novo ambiente. A cadeira passava dos domínios simplesmente pseudoteóricos a que se reduzira e acanhara, para as demonstrações da prática escolar, nos novos moldes, nos novos métodos... O ensino do mestre paulistano atraiu desde o primeiro momento uma grande nomeada, e as aulas da Escola Modelo encheram-se das professoras que exercem o magistério nesta capital, ansiosas por aprender e seguir a prática pedagógica do estrênuo educador. E de pronto, quantas transformações já se notam no afã de tudo melhorar; e se assim é o presente, quanto nos promete o futuro, das que lhe ouviram as lições e seguiram, dia a dia, a prática cuidada, esmerada e entusiasta, para exprimir com justiça a valia do seu esforço magistral! Foi uma grande vitória a mais na história do ensino normal e não se ficou aí, foi além — a nova orientação como que exigiu um prédio para a Escola Normal. Diante das remodelações inevitáveis no campo da doutrina, se fez indeclinável necessidade abrigar dignamente o estabelecimento que há de ser o viveiro onde desenvolver um ensino cada vez mais eficiente, até conseguirmos chegar aonde nos leva a ambição do aperfeiçoamento e de onde sairão as educadoras de nossa sociedade — o mestre-escola, que, no dizer de um dos maiores filhos da Alemanha, fez o alicerce da sua desmedida grandeza e que, entre nós, há de transmitir a todos os recantos do Ceará o espírito vivificante de uma outra cultura, realçando também para esta terra a certeza de seu maior valor no Brasil. A este empreendimento ficará ligado com toda a justiça o nome do presidente dr. Justiniano de Serpa, cuja fibra de lutador ainda se não enfraqueceu, antes mais se revigorou na têmpera que os sucessos da política comunicam aos seus encorajados lidadores. V. Exa., Sr. Presidente, pode ter a certeza que o ensino público no Ceará, no novo rumo que se lhe traçou, há de afirmar-se na confiança de todos os cearenses, como uma realidade que trará para o Estado a segurança de dias mais prósperos e felizes, pelas consequências que decorrerão da sua ação eficaz, instrutiva, econômica e patriótica; e o nome de V. Exa., entre tantos outros títulos, será sempre lembrado por este assinalado empreendimento que se vai registrar na história do nosso ensino. A Escola Normal há de inscrevê-lo brilhantemente, por gratidão e justiça. O dr. Carvalho Lima, secretário do presidente do Estado, fez, depois, a leitura da ata da sessão, a qual foi assinada por todas as autoridades e pessoas presentes. Seguiu-se a colocação, pelo presidente do Estado, da pedra fundamental de mármore, em que se via insculpido: 'Pedra fundamental da Escola Normal do Ceará, lançada em 11 de agosto de 1922, sendo presidente do Estado o dr. Justiniano de Serpa.' Sob a pedra, foi colocada uma urna de metal, contendo: a ata da sessão, os jornais locais da véspera, várias das moedas em circulação, um exemplar do regulamento da Escola, outro do programa de ensino, e o original do discurso do dr. João Hipólito. Vimos, durante a sessão, a planta do edifício a construir-se, excelentemente delineada pelo sr. José Gonçalves da Justa, funcionário das obras públicas. O edifício, de que já fizemos em edição anterior a descrição sucinta, abrangerá uma área de aproximadamente 2.000m², incluindo o espaço dos jardins circundantes. Cada sala de aula, em número de 18, terá 70m², sendo determinado, matematicamente, o espaço que ocupará cada aluna. A banda de música do Regimento Militar tocou durante a solenidade, realizada em pavilhão improvisado para tal fim, no centro da praça. As festas na escola-modelo Terminada a cerimônia do assentamento, o presidente do Estado e pessoas presentes dirigiram-se ao edifício da Escola-Modelo, e da Diretoria da Instrução, à Praça Marquês do Herval. Ali, no vestíbulo, estavam formadas, em alas, galantemente uniformizadas, todas as alunas da Escola Normal, que os receberam sob salvas de palmas. Acompanhado do diretor da Instrução Pública, diretor da Escola e demais presentes, o chefe do Executivo Estadual fez uma visita demorada às quatro classes da Escola-Modelo; verificando a orientação moderna do ensino, que ali se ministra, e os progressos, já tão notáveis, que dela decorrem, apesar do pouco tempo de exercício. Após a visita às classes, o presidente Serpa esteve na sala dos trabalhos administrativos da diretoria de Instrução, verificando as modificações introduzidas no sentido de um serviço mais bem organizado, mais prático e mais perfeito, e, principalmente, a disposição das fichas das escolas, dos municípios e das professoras, com todas as informações estatísticas atinentes às mesmas. O trabalho de organização, já realizado, encanta e entusiasma, dando bem uma ideia da realidade que estão atingindo, no Ceará, os serviços da instrução primária. Nas paredes da diretoria viam-se dois interessantes mapas. Um, da distribuição atual das escolas por todo o Estado, de que se evidencia, num exame rápido, o quanto de mal anda nisso, porque, para citar mais um exemplo afora os que temos exposto destas colunas, Aquiraz (em dez escolas, tantas quanto Crato, cidade muito mais populosa, como maior e mais progressista. O outro, expondo a divisão do Estado em 6 zonas, para os próximos trabalhos do levantamento do cadastro escolar. Na sala da diretoria, o funcionário da mesma, Newton Craveiro, pronunciou eloquente discurso, inaugurando o retrato do presidente, ali aposto. Tratou o orador do que tinha sido a instrução até o atual governo, que, em feliz hora, a desajojara do jugo pernicioso e insofrível da politicagem, que até o presente asfixiara todas as iniciativas para soerguer-lhe o nível. O presidente respondeu num vibrante discurso. Lembrou que, quando foi escolhido para o governo do Estado, prometera à sua consciência, ao Ceará e à Pátria que duas coisas lhe mereceriam o máximo desvelo — a instrução e a justiça — porque reconhece que elas devem ficar além, à parte de toda ingerência política. Durante dois anos, porém, de seu governo, confessa que nada, ou quase nada, fez, senão estudar os homens e as coisas do Ceará. Mas afinal não quis deixar o poder, sem que, ao menos, iniciasse a obra de renovação radical do ensino primário, obra precetual que há de salvar o Estado; quis fazê-la com ânimo, com vigor, libertando a instrução de todos os entraves que a pudessem empecer e sobrepondo aos seus os interesses dos políticos. Estes convirão em que assim deve ser, o político cearense facilmente se acomoda, porque é culto e patriota. S. Exa. estendeu-se longamente ainda sobre o assunto, acentuando a sua feliz inspiração de mandar vir de S. Paulo um técnico da instrução. A escolha não podia ser mais feliz, nem mais inspirada, porque todos viam o nobre esforço, a dedicação e o amor com que o professor Lourenço Filho pusera aos ombros a obra de remodelação radical do ensino público. As palavras do presidente, verdadeiras e patrióticas, calaram entusiasticamente no ânimo de todos, sendo vibrantemente aplaudidas. A sessão cívica Numa das salas inferiores do edifício, realizou-se, logo após, reunidas todas as alunas da Escola, uma encantadora sessão cívica. Ao penetrar, no recinto, o presidente, todas as alunas, em coro, entoaram o Hino do Ceará, erguendo calorosos vivas. Falou, primeiramente, o professor Lourenço Filho, salientando os serviços da organização do ensino, na escola modelo, o interesse do presidente, o entusiasmo das professoras e o encantamento das alunas. Em seguida, as alunas cantaram o hino da Escola Modelo. Seguiram-se recitativos. As alunas Beatriz Veloso e Virgínia Jatobá recitaram, respectivamente, as interessantes poesias 'Meu patriotismo' e 'Meu coração'. A professora Edith Dinoá da Costa produziu, a seguir, burilado discurso sobre a instrução de ontem e de hoje, exalçando os trabalhos iniciados e pedindo ao Presidente que, continuando na remodelação começada, faça prover, pelo menos todos os grupos da capital, do necessário material moderno, adaptado às melhores práticas pedagógicas. Ainda recitaram: Maria do Carmo Justa, 'A Escola'; e Maria Rita Thomé da Silva, 'A Bandeira'. Depois, encerrando a sessão, falou, longamente, ainda, o presidente do Estado, que dirigiu calorosas palavras de incitamento às crianças, para que trabalhem e se esforcem por amor à Pátria comum e por que o Ceará — terra distinta pela inteligência e pela energia d'alma de seus filhos — venha a ser, amanhã, dos mais nobres, dos mais progressistas, dos mais engrandecidos dos Estados da Federação. Abundou o presidente em considerações outras sobre o momento, mostrando o destaque de S. Paulo, pelo esforço e civismo de seus filhos, um dos quais, sem interesses nem ambições, estava devotado, ardentemente, à grandeza intelectual do Ceará. A professora Evangelina Ramos fez, depois, a leitura da ata da sessão, escrita pelo dr. João Hipólito de Azevedo, e assinada por todos os presentes. Deixamos registrado, nesta notícia, o nosso caloroso entusiasmo por tudo a quanto assistimos das festas escolares de ontem, e que nos vem revigorar a convicção de que vai surgindo um Ceará novo, pujante de energia e força aproveitadas, mais nobre e mais digno de si mesmo e da Pátria. Aos drs. Lourenço Filho e João Hipólito, a todas as professoras e auxiliares, renovamos os parabéns que, tão de gosto pessoalmente, lhes significamos.
- D. Quintino volta à sua diocese. A entrevista de S. Exa. BAHIA, 11 - Regressou ao Crato o exmo. sr. D. Quintino, que conseguiu das freiras Ursulinas a fundação de um colégio ali. S. Exa. partiu no trem das 6 horas, com destino a Joaçaba. Causou ótima impressão a [...].
Anúncios, notas e expediente
- Nota social Não devia ter nascido quem vive só para si. Matastasio
- Expediente Redação: drs. Andrade Furtado e José Martins Rodrigues Administração: A. Ildefonso de Araújo ANO I Fortaleza, Sábado, 12 de Agosto de 1922 NÚM. 39
- Nota social À memória de meu pai Dez anos hoje faz, meu pai, que te passaste das trevas deste mundo à luz da eternidade. Dez anos hoje faz que os teus filhos deixaste nas tormentas da vida e no horror da orfandade. Dez anos hoje faz que ao sepulcro baixaste e do sepulcro foste entregue à soledade. E, como se hoje fosse o dia em que acabaste, tanto ou mais punge ainda esta eterna saudade! Lágrimas e orações muitas vezes tens tido do filho agradecido ao bem que lhe fizeste, e em quem depois de morto, ó meu pai, tens vivido. Não te esqueças de mim: da morada celeste, atende à minha prece, escuta o meu gemido, pede a Deus que proteja a vida que me deste. Fortaleza, 6 de Maio de 1921 Othoniel Bell Aza
- Nota social LIGA DAS SENHORAS CATÓLICAS BRASILEIRAS A diretoria da 'Liga das Senhoras Católicas Brasileiras' avisa às suas associadas que a festa das alunas do 'Patronato', em homenagem à Irmã [...], realizar-se-á no dia 14 do corrente, às 15h30min, no edifício social. Haverá no dia seguinte, às 7 horas, uma missa em ação de graças na Capela da Santa Casa. A diretoria da 'Liga' encarece o comparecimento de todas as associadas.
- Anúncio Um 'cupom' de [...] um real. Guarda-roupa para os [...] da Sociedade [...].