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O Nordeste
Setembro de 1922, página 27 · 8 trechos transcritos
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- Interview com o Dr. Álvaro Fernandes, sobre o gado indiano A introdução do gado indiano em Portugal prova-se por vários modos. No período que vai de 1915 a 1917, dei-me ao trabalho de adquirir, ler e anotar, uma grande cópia de livros, respectivos às questões mais altas que resumem a nossa prosperidade. Entre a multidão de obras adquiridas, lidas e anotadas, então, no Rio de Janeiro, figuram os mais autorizados cronistas portugueses das Índias, os quais lhe apresento. Neles verá que os portugueses apresaram, receberam em dádivas, ou como resgate legítimo de guerra, a sementeira do gado indiano, cujas características zootécnicas os mais eminentes especialistas ainda hoje lobrigam nas manadas e granjas lusitanas. Poderei levar, assim, muito longe a demonstração. Todavia, parece-me, em vista do que já lhe mostrei, basta acrescentar alguns poucos testemunhos, aos muitos, largamente postos sob os seus olhos. A cada passo, nestas numerosas páginas, você verá que o conquistador «ensaiou a tomar vacas» (Fernão Lopes - História do Descobrimento e Conquista da Índia, Tom. II, Liv. I, Cap. LXXXVII, pág. 213); que os povos conquistados lhe mandaram, de presente «cem vacas» (João de Barros — Década, IV, Liv. VII Cap. XVII, pág. 295): que os reis da costa de Malabar, ou Ouzerale, davam a el-rei de Portugal, para sempre, «todas suas terras firmes, e mar, sua jurisdição mero, e Mero, [...]». [...] [...] bem ou mal soldadas, bem ou mal traduzidas, feitas para outros climas, para dirigir os amanhos de propriedades rústicas diversamente constituídas por diferentes circunstâncias econômicas», e o vício de se repelirem «opiniões peregrinas, sem sanção de experiência, e quem sabe se acomodadas a este solo». «Enquanto a imprensa clamou debalde aos governos a favor dos institutos agrícolas, sem os quais está provado à saciedade que não haverá progresso na indústria, um simples particular tentava, com sacrifício de avultados cabedais, uma empresa que os governos não ousavam tentar, ou que esqueciam, enlevados na edificação de teatros, de jardins, de praças, de monumentos, em manifestações luxuosas» indispensáveis para provarmos ao mundo que nadamos em ouro.» Sentenciosas palavras que se confirmam na atual situação portuguesa, e tão bem se ajustam aos processos administrativos de certas sociedades, onde exatamente se verifica a inversão na ordem natural dos fenômenos econômicos. A propósito de repetições peregrinas, digamos antes, — imitações de costumes alienígenas, que se vão tornando pandemia, permita-me uma digressão. Essas «manifestações luxuosas» ou suntuárias, como se diz hoje, têm sua razão de ser, quando se adaptam às condições do meio, modificando-o em benefício do homem. Numa cidade tropical, como a nossa, o jardim público tem, como princípio de sua fundação, o determinado objeto de abrandar os calores estivais. Compreende-se, destarte, a arborização exuberante das praças, e — deixe passar o vocábulo — a subarborização das ruas, tendo-se em vista, neste último caso, armar a cada porta da residência, o seu guarda-sol. Para este efeito, excelente é a escolha do Ficus benjamina, artisticamente decotado. Em nossas praças, porém, esta escolha converte-se em ornato esdrúxulo, inútil. Ao pé de semelhantes umbelas, ao sol ardente, poderia o transeunte parafrasear o famoso Dionísio, ante uma estátua de Júpiter, envolta em áurea capa: para o inverno és muito frio; para o verão, quente demais. (Padre Manuel Bernardes — Nova Floresta, vol. V, cap. Irrisão). Não se argumente com a novidade artística dessas figuras geométricas arranjadas na folhagem, pois que mais caprichosas o foram na antiguidade. «Os que andastes pelo mundo, vereis naquelas ruas dos jardins dois gêneros de estátuas muito diferentes, umas de mármore, outras de murta. Se deixa o jardineiro de assistir, em quatro dias, um ramo que lhe atravessa os olhos; sai outro que lhe descompõe as orelhas; saem dois, que de cinco dedos fazem sete; e o que pouco antes era homem, já é uma confusão verde de murtas» (Padre Antônio Vieira — Sermão, vol. V, pág. 371). O mais curioso é que desflorestamos as cidades quando buscamos o reflorestamento dos sertões. Reflorestar, que os glossários usuais não registram, deve entender-se florestar de novo. Quer dizer: os sertões nordestinos, isto é, o deserto interior, aquilo que não é litoral, nem serrania — já foi, entre nós, coberto de florestas. A isto, meu caro, se opõe a geologia e a tradição. do Império, organizada pelo professor Orville A. Derby, a província do Ceará apresenta as seguintes feições geológicas: formação terciária na costa, rochas referidas ao sistema laurentiano na parte central; no extremo sul, terreno cretáceo. O terreno predominante é constituído por várias rochas cristalinas em decomposição, principalmente gnaisse, que pouco varia na sua composição (feldspato, mica em palhetas e um pouco de quartzo) e forma um vasto lençol em toda a superfície da província, ora a descoberto, ora envolvido em uma camada de terra, que em muitos pontos mede apenas 22 centímetros de espessura» (Pompeu Cavalcante — Corografia do Ceará, págs. 33-34). Estudos recentes confirmam a pequena espessura da camada sedimentar na região, propriamente sertaneja, do nosso interior (Roderic Crandall — Oceanografia, Geologia, Suprimento de água, Transportes e Açudagem nos Estados Orientais do Norte do Brasil — Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, págs. 21-22-34). Por isto referiam os antigos que foram cobertos por gramíneas os terrenos onde mais tarde vieram a desenvolver-se arbustos e subarbustos. «Do terreno arenoso do litoral se passa à zona do sertão, caracterizada especialmente pela intermitência da vegetação. A forma peculiar é a de catinga, denominação que abrange os extensos bosques mistos, cheios de arbustos, espinheiros e moitas trançadas» [...] (Misericórdia suprema nas estreitas faixas de terreno sedimentar, que marginam as ravinas. Nas catingas e descampados, [...] esparsamente, como espetadas no subsolo, sugando aqui e além a exígua umidade, veem-se grandes árvores solitárias. «O importante para o crescimento das árvores é a presença permanente de provisão de água ao alcance das extremidades das raízes, e, portanto, em grande profundidade». Esta noção comum verifica-se aqui na mesma monografia de Loefgren, quando o autor cita o Dr. Schimper. Pergunto-lhe: como podem haver profundas coleções líquidas sobre a rocha impermeável à flor da terra. As nossas secas, tenho-o dito frequentemente, realizam, nas plantas, o mesmo efeito dos invernos das regiões frias: reduzem-nas à morte aparente. A consequência primeira é o cair das folhas para baixar ao mínimo a despesa orgânica, produzindo o equilíbrio na economia vital. Ora, esse fenômeno se passa exatamente quando mais necessária, ao resfriamento atmosférico e à condensação dos vapores, seria a superfície verde constituída pela folhagem, que desapareceu. Não é em todo solo que podem viver as árvores. Conforme o tipo e a distribuição de suas raízes, as plantas requerem terreno de maior ou menor espessura. Por isto o observador sertanejo sabe distinguir os lombos onde só nasce o capim. — Mas não é certo que as matas trazem as chuvas? — Isto é uma questão controvertida, e muito mais séria do que se presume. Em tudo convém evitar as 'repetições' irrefletidas. Aqui, no Ceará, repelem-se opiniões peregrinas, inconsideradamente. Abordaremos uma das principais. Antes, porém, veja esta monografia, e leia: «A chuva não pode ser uma função da mata». (Álvaro A. da Silveira - As Florestas e as Chuvas, pág. 30). Penso que a floresta é um condensador atmosférico, principalmente quando viceja em grandes altitudes, mas não resume as causas das chuvas. Basta ver na História da Terra, o período das chuvas eternas é anterior ao do aparecimento das florestas. inferência ou indução, processo lógico de raciocínio, não há dúvida, mas, para o caso, por demais generalizador. Abrimos este Ganol à página primeira: «Os líquidos também têm um volume determinado, mas não têm forma própria; assumem a forma dos vasos que os contêm. A água é o mais comum desses corpos. O estado líquido é intermediário entre os dois outros. As partículas líquidas podem resvalar facilmente umas sobre as outras, de maneira a poder misturar-se sem esforço e a mudar de forma sem mudar de volume. Esta mobilidade das partículas é chamada fluidez (de fluere — correr). É uma propriedade comum aos líquidos e gases, e que lhes dá o nome comum de fluidos». Uma simples experiência esclarece o caso. Nivele uma qualquer mesa, de modo que a sua prancha ocupe no espaço uma posição perfeitamente horizontal. Deite-lhe um copo de água à superfície. A água escoar-se-á completamente. Já vê que não é necessário o declive para que a água se encharque ou corra. Os nossos rios secam porque não são rios. Rio é uma corrente alimentada por uma fonte, seja subterrânea, açude ou constituída pelo degelo. Os cursos de água permanentes, que temos, todos descem das serras. O Amazonas vem dos Andes, o Nilo Azul corre do planalto abissínio, com 2000 metros de alti- existência do lençol de água, afirmando: o necessário é aprofundar a perfuração; encontrar-se-á, por certo, água, assim como o sangue em um animal. Esqueceu-se: e o mestre de que aqui e nisto, é, na terra, no organismo, se aprofundarmos demais, — em vez de água ou sangue, encontramos osso. Voltemos ao nosso assunto. Os meus autores vão agora lhe demonstrar como o zebu se espalhou pela Europa, e como, de seu foco português, em Mafra, se transportou ao Brasil colonial, uma vez que você já viu como ele entrou na velha metrópole. (A seguir) Mons. J. A. Furtado Aceite ou não a teoria de Laplace, você encontra o fundamento desta afirmação em qualquer tratado de Física do Globo. Está aqui, por exemplo, o Alphonse Bergen que lhe explica. «Pág. 40, [...] do resfriamento progressivo» e «o desprendimento de vapores no plano do equador» dos corpos celestes em formação. Bem assim, em L. De Launay — (Histoire de la Terre) em O. Eisenmenger (de Geologia e seus fenômenos) pode, aqui, examinar a questão primitiva das águas à superfície do globo. O Araripe e a Ibiapaba são cobertos de verdura, e deixam, contudo, passar livremente os vapores úmidos que sopram do mar. Victória da [...] foi o primeiro colonizador do Ceará, quando o machado impiedoso ainda não havia abatido as florestas. Vamos à outra «opinião peregrina», a que aludimos nesta digressão. Pompeu Cavalcante resume-a nestas palavras: «Do fácil e rápido escoamento das águas, da não existência de cursos de água permanentes, havendo apenas sulcos torrenciais. Infere-se a forte declividade do solo, a partir do litoral e a terminar no sopé da cordilheira que o circunda» (Corografia do Ceará). Como vê, [...] rios. Os nossos apenas são caminhos de águas pluviais, desaparecem com as chuvas, deixando somente os sulcos. Nem é verdade que o nosso território seja demasiadamente inclinado. Haja vista a medíocre altitude do Araripe. Há observação e observação, como iby-a ventre et ventre. Nem falemos sobre a existência de um vasto lençol de água a grande profundidade em todo o nosso território. Quem sabe o que é lençol de água, como ele se constitui, entre certas estratificações, quem conhece dois dedos de geologia geral, e, particularmente, do noroeste brasileiro, não pode razoavelmente dissentir dos estudos recentes, como os de Crandall, que denunciam a existência de coleções líquidas subterrâneas no litoral, no sopé das cordilheiras ou chapadões, e minguadas ou esparsas, aqui ou ali conforme a natureza do terreno, onde se deram infiltrações, e que são como cisternas espalhadas pelo subsolo. A que a forma de produção de água no interior da terra, [...] a sua síntese química, não parece razoável admiti-la na rocha impermeável não percorrida pelo ar. É verdade que distinto profissional, ao visitar-nos, comissionado pelo governo, optou pela [...]
Anúncios, notas e expediente
- Expediente O Nordeste Redação: Dr. Andrade Furtado e José Martins Rodrigues Administração: A. Ildefonso de Araújo [...] Mons. J. A. Furtado ANO I Fortaleza-Sexta-feira, 15 de Setembro de 1922 NUM. 65
- Anúncio MÓVEIS SILVA GÊNES mundial produzida a [...] Fabricação. Alimentação. Artigos. Brinquedos.
- Telegrama (INÉDITO) Judas vai enforcar-se; e porventura passa defronte do Calvário, à hora. Em que, no monte, a cruz do Mestre arvora um bando, à luz do sol radiosa e pura. Fugir à triste cena em vão procura o mísero a tremer, e o busto escora no flanco de um rochedo: sem demora, Jesus lhe avista a esquálida figura. E das mil chagas de seu corpo inerte, sangue mais vivo e mais profuso verte, um longo olhar, volvendo ao desgraçado; E nesse olhar de uma ternura infinda, parece-lhe dizer: «É tempo ainda; vem lavar no meu sangue o teu pecado». Padre ANTÔNIO TOMAZ
- Nota social O clero cearense possui em seu meio elementos de induvidoso valor intelectual, sacerdotes que, pela sua cultura não comum, talento reconhecido e superiores qualidades de espírito, são [...] do alto prestígio do Catolicismo no terreno das letras e das artes. Monsenhor João Alfredo Furtado, cura da Catedral Metropolitana, é um dos membros de [...] relevo da Igreja Cearense. Orador fluente e escritor de fina têmpera, as suas produções literárias constituem [...] de estilo, pela forma e pelos temas. A sua modéstia faz com que [...] sejam ignorados, por [...] trabalhos devotados à sua pena apurada, dúctil e vibrante. No púlpito sagrado, [...] palavras têm alcançado brilhantes triunfos, [...] de mais ampla repercussão. Ainda há pouco, Fortaleza assistiu ao seu belíssimo discurso, pronunciado por ocasião do [...] Te Deum em ação de graças pelo Centenário. Foi o que bem se pode chamar uma peça de eloquência, inflamada de paixão, [...] pelo ideal do [...]. A sua operosidade no campo paroquial a todos edifica, [...] o traço distintivo do [...] sacerdotal.
- Nota social O Nordeste que conta Monsenhor J. A. Furtado dos mais [...] amigos, [...] na data de hoje. [...] Ano, [...] espontânea homenagem, apreço e admiração.
- Nota social Entradas da Exposição A senhorita Martinha, [...] na Exposição para a Santa Casa.
- Telegrama O ENTERRO DE DOM SYLVÉRIO Em BELO HORIZONTE. O enterro de Dom Sylvério [...] recentemente realizado [...]. Esteve presente a [...] Gomes Ferreira, representando o presidente [...].