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O Nordeste

Outubro de 1922, página 21 · 7 trechos transcritos

Manchetes desta página

  • O Empréstimo do Estado Está realizado o empréstimo na América do Norte do Ceará na América do Norte Fazendo-nos eco fiel da voz pública, impressionada com os rumores de efetivação de vultuoso empréstimo estadual na América do Norte, estranhamos que o governo não desse nenhum esclarecimento ao público, de modo a que este pudesse exercer, eficientemente, o seu irrecusável direito de crítica. Afinal, depois de duas vezes solicitada, a administração estadual veio à fala pela edição de anteontem do «Diário do Ceará», não para dar informações sobre a operação referida, mas para afirmar que o governo não as devia, no caso, à imprensa, nem podia sujeitar assunto tão delicado à crítica pública. Entendem os confrades do «Diário» que somente depois de realizado o empréstimo é que cabe esse direito de crítica da opinião pública sobre transação que é a mais pertinente ao futuro do Estado. Antes, não. Deve deixar-se o livre arbítrio ao governo, que nem sequer admite a análise do poder legislativo, para as negociações dos empréstimos, sobretudo porque o contrário será comprometer-lhe os créditos». Na realidade, a lógica é curiosa. Depois de realizada a operação, quando, se houver males, não se poderá mais do que lamentá-los, que mais vai discutir a imprensa? Ao contrário, o único momento oportuno para discutir o assunto apresenta-se agora, se é que, realmente, não está ultimada a transação, como publicou a imprensa do Rio e nos transmitiu, já por duas vezes, nosso correspondente ali. Essa discussão das bases da operação, naturalmente já apresentadas é a que a opinião pública quer fazer, e sobre esse ponto é que devem ser dados os esclarecimentos do governo à imprensa, que sempre, em toda a parte, levou razoavelmente a esses assuntos o concurso da sua análise. Demais, se, na verdade, o Estado é que tem recebido constantes propostas de empréstimo, para exame, e não é que as tem ido solicitar dos banqueiros americanos, não vemos os inconvenientes para o seu crédito na discussão pública do assunto, mesmo porque assim, consultando a opinião imparcial da imprensa, melhor se orientaria o governo na aceitação ou recusa das condições oferecidas. Em outro editorial da mesma edição, o «Diário», ocupando-se ainda das justas ponderações desta folha, concorda conosco em que, «em tese», os empréstimos são condenáveis, para afirmar que há hipóteses de Estados que têm restaurado suas forças econômicas pelo auxílio de alheios capitais. Deixando, porém, de lado a generalidade dessas transações, estejamos mesmo à análise da operação que o governo pretende realizar, para o que enviou um emissário especial à América e tem confabulado com os representantes de banqueiros ianques. Esse empréstimo, na importância de 2 ou 3 milhões de dólares, 16 ou 24 mil contos ao câmbio atual, parece destinar-se ao pagamento da dívida externa de 1910, à construção da rede de esgotos, ao abastecimento de água à cidade e a outros melhoramentos. O resgate do empréstimo francês, cuja amortização e pagamento de juros é um grave peso no orçamento do Estado, representaria, talvez, excelente operação financeira, além do mais pela possibilidade que se antevê, de que, contraído o empréstimo na América ao câmbio de 8$000, poderíamos talvez vir a pagá-lo ao de 2$000. É uma possibilidade que nos sorri e que, portanto, até certo ponto dá aparências de vantagens à transação que se deseja. Mas essa vantagem não basta para justificar a operação, tanto mais quanto esta se eleva a mais do duplo da importância necessária para o resgate. Restam as obras acima aludidas, que, realmente, uma vez construídas, trarão lucros compensadores. Mas permanecemos na convicção de que o melhor meio prático de as realizar é por contrato com empresas idôneas, como se tem feito em muitas capitais e até aqui mesmo com serviços de natureza semelhante. Administrativamente é que as achamos condenáveis, pelo mau resultado que as iniciativas do governo, neste particular, têm tido em nosso Estado. Neste ponto, ao que parece, concordam conosco os deputados Hugo Carneiro e H. Firmeza, que, segundo telegramas para o «Diário», declararam ao jornal «O Brasil» que «o Ceará não está tratando de empréstimo; o que há das demais dívidas e à construção. Ao contrário do «Diário», pensamos que, para melhorar as condições de vida e de salubridade dos governados, os governos, embora inspirados em princípios de humanismo, devem ter o fito nos lucros materiais, para só despender utilmente. Para o cumprimento das obrigações de pagamento ao funcionalismo, dívidas por sentenças contra o Estado e outras despesas internas, a administração não deve ir buscar os meios extraordinários dos empréstimos, mas esforçar-se por solucioná-las com os recursos ordinários do orçamento. Vivamente preso a tudo o que toque ao bem da coletividade, «O Nordeste» sente-se fortemente apoiado pela opinião pública para analisar, com imparcialidade, todos os atos administrativos que lhe afetem os mais sagrados interesses. Os governantes bem intencionados nunca fogem a essa análise desapaixonada e serena, nem com ela se magoam, mesmo porque o governo não é a personalidade do presidente ou dos seus auxiliares, mas uma entidade complexa, em que se abstrai das pessoas, para somente visar, na crítica, as faces boas e as más de seus atos. O nosso critério tem sido, e será sempre, justamente este de não atender às considerações de ordem pessoal dos governantes, para somente criticar-lhes as ações públicas.
  • A empresa construtora das obras de esgoto e abastecimento de água (Do nosso serviço telegráfico) NOVA YORK, 6 — O contrato para a execução das obras de melhoramento e embelezamento de Fortaleza, capital desse Estado, foi obtido da Firma Bayley Construction Company, tendo sido, para essas obras, negociado um empréstimo de dois milhões de dólares. O contrato foi feito com a condição de a companhia receber o dinheiro suficiente para cobrir as despesas e mais 15 por cento. Os materiais empregados na construção devem ser dos Estados Unidos, ou do Brasil, e todos os transportes serão feitos em navios americanos ou brasileiros. Os jornais publicam o retrato do Sr. Ildefonso Albano, prefeito de Fortaleza e negociador do empréstimo, dizendo que essa operação vem desenvolver as relações econômicas americanas com as cidades brasileiras. É que, de há muito, Fortaleza reclama um melhoramento indispensável para uma grande cidade: água e esgotos. Se as condições do empréstimo são, por exemplo, com relação às obras, que a própria firma prestamista se encarregue da sua construção, não temos dúvida em apoiá-lo, porque reconhecemos a necessidade urgente do abastecimento de água e da rede de esgotos, como da construção de um matadouro e da remodelação radical do mercado público. Só julgamos, pois, acertado o empréstimo externo de que se cogita, se, feito em condições razoáveis, a juro baixo e tipo favorável, se destinar unicamente ao resgate da dívida Dreyfus e à construção daquelas obras pela própria empresa contratante, porque assim só será aplicado reprodutivamente e, em vez de ônus, poderá até mesmo trazer fartos proventos ao Estado.

Anúncios, notas e expediente

  • Expediente Redação: Drs. Andrade Furtado e José Martins Rodrigues Administração: A. Ildefonso de Araújo ANO I Fortaleza — Sábado, 7 de Outubro de 1922
  • Nota social O réu de amanhã (Às Filhas de Maria) O dia inteiro pelas ruas anda enxovalhado, roto, indiferente, mãos nos bolsos, olhar impertinente, um machucado chapeuzinho à banda, Cigarro à boca, modos de quem manda, um dândi da miséria, alegremente, a procurar ocasiões somente em que as tendências bélicas expanda. E tem doze anos só... Flor do monturo, quem lhe arranca o veneno ao hálito impuro e os tentáculos do mal que em torno avança. Quem vai fazer-lhe a peregrina esmola de atirá-lo à oficina, ao templo, à escola, mudando esta ameaça em esperança? Amália Rodrigues Quem? Mas vemos que não há calouros que, em todas as direções, apregoam sua mercadoria, a maior parte das vezes envenenada. Encontramos garotos discutindo, jogando cartas a um canto da calçada. Se a rua é de pouco movimento, às vezes mesmo nos pontos mais centrais... Crianças sujas, esfarrapadas... Encontramo-las, e vamos passando, rindo, satisfeitas... E não suspeitamos que atrás dessa miséria física se esconde ainda mais negra a miséria da alma. A falta de um carinho, de um exemplo, de um conselho... E o vício a procurá-los em cada esquina, em cada companhia, em cada uma de suas casas, muitas vezes! Horroriza-nos a notícia de um massacre, de um suicídio... (Talvez até não horrorize mais porque isso hoje é tão frequente!) Vamos-nos para uma festa, déssemos dar-lhes, dar-lhes-íamos um sorriso de compaixão e de ternura. Como impedir que o mal se aninhe nessas almas em botão? Como impedir a tua murcha vertiginosa sobre esses pequenos corações? «Continuaremos a ser do número dos piores cegos», daqueles que não querem ver? Continuaremos a deixar a escola do vício funcionar livremente? Não lhe oporemos a da virtude? Continuaremos a viver como egoístas? Continuaremos a perder horas e horas na leitura de romances? Em passeios? A enfiarmo-nos? — Mas, o que havemos de fazer? — perguntei. — É justamente para isso que quero chamar vossa atenção. Reservai o vosso carinho, levai-o e dai-vos toda, por alguns momentos — 1/2 hora que seja, a estes pequeninos. Ide ao vigário de vossa Paróquia, e ele vos dirá como três ou quatro moças de boa vontade preparam todos os anos grupos de 40 ou 50 crianças pobres para a 1ª Comunhão, e ensinam a 70 ou 60 as primeiras orações. Como o fazem certamente! Cantinho modesto, na grande escada do Senhor, próprio justamente para nós — mocinhas, e horas solteiras e toda e qualquer pessoa que saiba o que querem arranjar algum tempo para dedicar a isso. Evitemos que continuem a perder tantas alminhas! Talvez não saibais todo o resultado dos vossos Talvez vejais na ovelhinha É que «a seara é grande e muito poucos são os obreiros». Quantos suicídios, quantos assassinatos, quantos roubos, quantas desgraças de família já terão elas evitado! Por que não havemos de utilizá-las? Vinte, trinta catequistas que existam numa paróquia, não serão demais. Já ouvi mais de uma moça dizer que não se meto nessas coisas porque não tenho tempo de Caridade. Mas, é justamente as irmãs têm muito dó para. Alguns de vós o elogiam nem. Não desanimeis! Continuai a semear o bem. Algum dia. Fora de cada um, os achareis uma para a vossa dedicação, menos felizes. Não adiemos mais a resolução! Avante embora com algum sacrifício fazer o catecismo paroquial... o que todo o tempo por isso: todo o mal que pode ser evitado e que não [seja] hospitais, ocupar com seus orfanatos e colégios. O Catecismo Paroquial dá.
  • Telegrama Todos os dias, ao atravessar uma rua, vemos pequenos jornais. Faz a aliança do Brasil com a República, somente faltando a bênção oficial da declaração solene: Que o governo do Brasil reconhece, nos termos de sua Constituição Política, a Religião Católica, Apostólica, Romana, Religião nacional. Religião do Brasil e dos Brasileiros. LACERDA DE ALMEIDA NUM. M
  • Nota social OS POETAS CEARENSES NO CENTENÁRIO Flor de tomilho Roído A tua flor, porém, a despeito do injusto Destino que, sem trégua, às expansões lhe amarga, Vale por um tesouro, um bem de raro custo, Um primor vegetal de fama justa e larga. É que, guardado nela, áureo mel se condensa: Um mel que a abelha extrai, para que se não perca, Do mais puro e melhor de toda a flora imensa. Também, tens em conto, o alvo mel da Virtude Se esconde na alma em flor de quem, chorando, vive — Pobre, humilde, infeliz, como o tomilho rude —. Epifânio LEITE
  • Telegrama Telegramas Lisboa RIO, 5 — Embarcaram para Lisboa os aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral, que receberam uma manifestação popular. O aniversário da República Portuguesa RIO, 5 — Realizam-se hoje aqui várias festas comemorativas da implantação do regime republicano em Portugal. O Dr. Assis Brasil é candidato ao governo do Rio Grande RIO, 5 — O Dr. Assis Brasil consentiu na indicação do seu nome para candidato do partido oposicionista ao governo do Rio Grande do Sul. O que dizem de Londres sobre a questão greco-turca RIO, 5 — Informam de Londres: O Ministério do Exterior anuncia que a evacuação de Smyrna pelos gregos terminou ontem. Os gregos recusaram a condição de evacuarem a Trácia. — O comandante das forças que mal islâmicas, Ismael Pachá, publicou uma ordem do dia, recomendando às tropas que evitem conflitos com os aliados. Quando regressaria o presidente Epitácio RIO, 5 — O presidente da República regressará, 2ª feira, de sua excursão a Minas Gerais. SEM IMPORTÂNCIA RIO, 5 — A sessão da Câmara careceu de importância. Foi adiada ainda a votação do projeto que autoriza a prefeitura a contrair um empréstimo. Vem ao Brasil o representante de grandes empresas americanas RIO, 5 — Comunicam de Nova York que partiu, hoje, dali, para esta capital, o banqueiro Bolland, representante das câmaras comerciais de Boston e Philadelphia e do Departamento da Agricultura dos Estados Unidos, junto à Exposição do Centenário. É lida como importantíssima a viagem desse grande capitalista, comissionado por grandes empresas americanas. Ballard visitará os Estados brasileiros. DR. SÉRGIO LORETO RIO, 5 — O Dr. Sérgio Loreto seguirá, a bordo do «Avon», para Pernambuco, onde vai tomar posse do governo do Estado. Os telegramas continuam na segunda página.
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