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O Nordeste

Outubro de 1922, página 33 · 17 trechos transcritos

Manchetes desta página

  • O empréstimo externo O «Diário do Ceará», voltando a tratar do empréstimo do Estado na América do Norte, convém, afinal, em que a opinião esclarecida de todas as classes se deve manifestar sobre essa operação, para orientar o governo, não na discussão das bases e condições da mesma, mas quando se tiverem de «concretizar, de firmar em definitivo, as cláusulas do empréstimo». E promete o órgão oficial que «o governo, com a franqueza que o caracteriza, tornará públicos os fins a que destina o dinheiro solicitado aos banqueiros americanos». Defendendo-nos pelo direito de discussão das condições do empréstimo, estávamos com o bom senso e a opinião pública, que não se poderia conformar em que operação financeira de tamanho vulto fosse ultimada sem sequer se lhe conhecerem as bases. Implicitamente, porém, no seu editorial de anteontem, o «Diário» confirma os nossos telegramas sobre a realização do empréstimo e, na verdade, consumado esse ato, nada nos resta senão aguardar a opinião governamental para nos manifestarmos sobre a devida aplicação desse dinheiro, que o governo foi buscar longe, não se sabe ainda em que condições de vantagem ou desvantagem para o Estado. Nós não negamos, pertinazmente, num conceito precipitado e injusto, aos funcionários do Estado, o necessário critério administrativo. Temos até prazer em o reconhecer quando o merece, porque o nosso critério é inflexível e fazer justiça aos homens do governo. Apenas, por uma questão de princípio, entendíamos que, mesmo para as obras de abastecimento de água e esgotos, o empréstimo oferecia menos vantagens que o contrato direto com firmas construtoras idôneas, e, quanto às demais dificuldades internas das finanças do Estado, persistimos em julgar que se solucionarão com uma política criteriosa de arrecadação dos impostos e de economia produtiva nos departamentos públicos, tal como se tem feito com a Colônia Cristina e a Cadeia Pública, que não pesam no orçamento do Estado. Mas, se as negociações do empréstimo estão mesmo ultimadas, não temos — repetimos — senão que esperar a palavra oficial, para nos manifestarmos, não sobre suas condições, o que seria tardio, mas sobre a sua reta aplicação às necessidades públicas. E, por último, não podemos deixar de estranhar que o «Diário» falseie, maliciosamente, o nosso pensamento, quando nos atribui a afirmação, pouco humana e pouco cristã, de que os governos se devem preocupar, com mais veras, dos lucros materiais do que da salvação do povo, da saúde pública. O que afirmamos e confirmamos, é que os bons administradores, embora inspirados em princípios de humanismo, não deviam perder de vista as lições de economia que impõem aos indivíduos como aos Estados, e ainda mais a estes, o dever de só gastarem utilmente. Aliás, ninguém desconhece que, quando um estadista cuida da higiene e da educação do seu povo, ainda que aparentemente não o seja, está, na verdade, gastando utilmente, porque gasta reprodutivamente. Em boa fé, portanto, ninguém nos poderia atribuir outro pensamento que o que acima expusemos.
  • O “Jornal do Comércio”, do Recife, entrevista o presidente Bernardes
  • “Entrevista”, com o Dr. Álvaro Fernandes sobre o gado indiano IV PRIMEIRA PARTE
  • A ação administrativa do futuro governo com respeito às Obras do Nordeste (Do nosso serviço telegráfico) RECIFE, 10 — O Dr. Arthur Bernardes, presidente da República no próximo quadriênio, concedeu uma entrevista ao «Jornal do Comércio», do Recife, sobre a ação que desenvolverá no governo da República. Tratando da questão do Nordeste, Sua Excelência disse que nenhuma dúvida pode haver de que as obras contra os efeitos das secas prosseguirão, conforme reiteradamente tem manifestado a resolução de fazer. «Evidentemente — continuou — a intensidade dos trabalhos fica na dependência dos recursos que o Congresso Nacional conceder e que empregarei, com a justa noção da minha responsabilidade e pleno conhecimento da situação financeira do País, quando assumir o governo. Pelo que tenho ouvido, em conversa com pessoas que conhecem o largo programa de realizações do atual governo, nos Estados do Nordeste, posso adiantar-lhe que insistirei com o maior devotamento pela conclusão da estrada de ferro que liga a rede cearense a Pernambuco, pela linha que atravessa todo o Estado da Paraíba, e pela continuação das grandes barragens iniciadas no presente quadriênio, para as quais as avultadas despesas da primeira instalação já foram feitas. Estou convencido de que — como, aliás, ilustre deputado paulista, por admirável intuição dos fatos, já referiu em relatório parlamentar — a construção das estradas de ferro do Nordeste representa parte de importância capital na solução do temeroso problema das secas. Ao meu espírito de patriota, impressiona fundamente o que se poderia considerar a mais premente preocupação sentimental da política brasileira, isto é, o dever de solidariedade, nas horas de amargura, com os nossos patrícios do Nordeste, a quem deve a Nação, além dos sacrifícios de sangue, na defesa da Pátria, o inestimável concurso da conquista econômica da Amazônia, sem falarmos na contribuição considerável para o progresso do País, representada pelo trabalho de quatro milhões de brasileiros, nas regiões sujeitas às secas periódicas. Para o homem do sul, que recebeu da gente do Nordeste, na agitada campanha presidencial, as mais inequívocas provas de apoio político e estima social, nada mais grato poderia haver que declarar que as obras do Nordeste, sobre as quais tão bem disse o atual presidente da República, em seu inolvidável discurso proferido em São Paulo, constituirão uma das maiores preocupações do futuro governo, infimamente ligado ao atual pelos laços do mais elevado civismo e da mais perfeita consciência da responsabilidade de ambos perante a Nação.
  • Penso que você já percebeu onde pretendem chegar os meus autores, guiados pelo nosso interrogatório. Até aqui lhe demonstraram as origens remotas dos armentios lusitanos, dentro do período histórico, filiados, por vário modo, na fonte asiática. Vão agora patentear os vestígios característicos dessas origens nas manadas brasileiras, vestígios que representam uma dupla importação, isto é, dos casais primitivos — descendentes do gado indiano e do tronco ibérico, filiado no Bos taurus asiaticus —, trazidos pelos portugueses de seu continente e das ilhas, e dos casais enviados, porventura diretamente, das Índias pelos donatários das capitanias do Brasil, os quais estiveram ou ainda estavam combatendo na conquista da Ásia. Descritas essas origens, para mostrar que a importação atual do gado indiano encontra, no Ceará, uma longínqua representação genealógica, mas inequívoca, a mesma fonte, e, consequentemente, que a progênie do zebu, já deu prova exuberantíssima de sua adaptação ao nosso território, simílimo por todos os seus caracteres fisiográficos ao seu solo original, os escritores de boa nota, que assistem a este diálogo ou prática, passarão a ocupar-se da questão zoológica e zootécnica referente ao boi de bossa e à sua taxonomia natural, bem como a do gênero Bos, na concepção de Rütimeyer, sem omitir as ideias de Bojanus, de Nilson, de Wilteans etc. — não obstante a confusão reinante —, apreciadas ao critério da paleontologia, por naturalistas como Darwin e Wallace, zoologistas como Chus (de Viena), zootecnistas como Sanson, Cornevin, Baron (d'Alfort), Settegast (de Postdam), etc., e paleontólogos como Richard Owen. Descerão depois às questões relativas à adaptação do gado indiano, e à sua extraordinária capacidade econômica, debaixo de todos os pontos de vista, industriais e comerciais; apresentarão os inquéritos e os resultados de exposições e concursos, em várias regiões do Brasil, favoráveis ao zebu (Inquérito sobre o Gado Zebu, da Sociedade Nacional de Agricultura, 1907 — Annuario, órgão da Sociedade Nacional de Agricultura, Ano XXI, 1917, ns. V, VI, VII), mostrarão o incremento da criação alemã, francesa e inglesa do boi indiano, na Ásia, África, Europa e América, discutirão o assunto da imunidade sanitária do Bos indicus, em face da parasitologia moderna com entomologistas (Theobald), zootécnicos (Robert Wallace) e tropicalistas (Laveran et Mesnil), evidenciando que os hematófagos, em geral, repelem os animais de pele preta (não confundir pele com pelame — conjunto dos pelos), isto é, de abundante pigmento, que a surra é a única tripanossomíase conhecida entre os equídeos, bovídeos e camelídeos da Índia, sendo apenas endêmica ao Norte, decrescendo na sua intensidade para o sul, poupando quase a planície do Decan, registrando-se apenas focos esporádicos ou epizootias passageiras, em Bombaim, observando-se a distribuição geográfica de seus focos endêmicos somente acima do paralelo de 20 graus; que, segundo os Drs. Douvan e Gouzian, a surra é desconhecida nas vizinhanças da Presidência de Madras — donde procede a raça Nellore — e das planícies transpeninsulares do sudoeste da península indiana; que Lingard observou ser a regra a cura da surra nos bois da Índia, tendo Vrijburg confirmado esta observação nos zebus de Sumatra, e encontrado sempre benigna a moléstia nos bois de bossa; que, em Alfort, de muitos bovídeos inoculados por Nocard, apenas um sucumbiu; que em geral os reprodutores e os animais bem nutridos não são atacados; que as moscas picantes, Tabanus tropica e Lincola, são os propagadores da infecção; que, enfim, a surra não é transmissível ao homem. Analisarão o seu acidente degenerativo, comparando com o das raças artificiais ou finas, sempre que se não proceder ao resfriamento do sangue, e ao aperfeiçoamento dos métodos alimentares; examinarão o gêbo ou bossa, essa particularidade característica de seu «exterior zootécnico», definida numa variedade, ou «coleção de indivíduos da mesma raça, tendo um ou muitos caracteres secundários comuns» (Sanson — Traité de Zootechnie, Tomo II, pág. 134), como o boi nato, do Prata, que apresenta «com os bois comuns quase as mesmas relações existentes entre os bulldogs e os outros cães (Darwin — Viagem ao redor do mundo, tomo I, pág. 148), como o carneiro da Armênia, que não deixa de ser ovídeo por ter uma «cauda tão desenvolvida que a custo pode carregá-la». (Diffloth — Zootechnie: moutons, chèvres, porcs, pág. 285), como o galo inglês de combate, variedade Leeds ou Shakbay, que, por suas proporções e forma particular, não deixa de ser um galináceo, isto é, pertencente ao gênero Gallus (Cornevin — Traité de Zootechnie Spéciale, les oiseaux de basse-cour, págs. 110-130), como a monstruosa esteatopigia dos bosquímanos (em holandês — homens dos bosques), que não os exclui do gênero humano (Topinard — [...], págs. 507-508. J. L. De Lanessan — Histoire Naturelle, Tomo III, pág. 744. Oliveira Martins — Antropologia, pág. 242; As Raças Humanas, Tomo I, pág. 165: O Brasil e As Colônias, págs. 217-218). Houve tempo em que, pondo termo a discussões bizantinas, foi necessário a Paulo III declarar pela bula Universibus Christifidelibus que os selvagens da América fazem parte integrante da família adâmica (João Francisco Lisboa — Obras, volume I, pág. 372). Semelhantemente, não será extravagância afirmar-se que anda por breves dias um decreto da ciência, capaz de reabilitar o boi indiano, tão pouco estudado ainda hoje, consoante nos diz André Sanson (Traité de Zootechnie, Tomo IV, pág. 225). Não esquecerá o nosso tribunal consultivo de manifestar-se imparcialmente sobre o pitoresco romance do gado seleto, importado pelos franceses, do Limousin ou do Garonês para o Maranhão, donde teria passado à costa ao Acaraú, que lhe daria o nome. Noções comezinhas da história colonial do Brasil, compendiadas nas Obras do João Francisco Lisboa, nos dois volumes dos Anais Históricos, de Berredo, nos livros dos dois missionários capuchinhos, cronistas da expedição Ravardière, Padres Claude e Abbeville e Yves d'Évreux (Viagem ao Norte do Brasil, anotada por Ferdinand Denis), livros que se continuam e completam — e, por outro lado, a história Industrial da França, com a remodelagem dos processos agrícolas, com a fundação do Instituto Agronômico de Versailles, sob a inspiração do Conde de Copprin, com o ensino da zootécnica por Baudement, apoiando no experimentalismo a nova doutrina da produção animal, com a falência da teoria que explicava a pecuária, nas propriedades agrícolas, como um mal necessário, — e a recente cultura científica dos terrenos, a qual ia transformar o aspecto ainda selvagem de certas regiões da França, onde os rebanhos não apresentavam o melhoramento atual, onde as charnecas e montados, em muita parte vegetando sobre terrenos primitivos, incultos, de face a emboscadas e torvos guerrilheiros da «restauração» de 1793, Victor Hugo nos descreveu como o foram os nossos «Canudos» — tudo isto dois séculos depois de aportarem os franceses ao Maranhão — estas duas ordens de indicações históricas e datas comparadas lhe darão o verdadeiro valor daquele romance. Com efeito: por um lado, com os aludidos autores de nossa história colonial se prova que os franceses não trouxeram gado nenhum, que suas embarcações, abaladas dos temporais, desgarraram, abrigando-se em portos ingleses, onde se recompuseram, tomaram rumo a Fernando de Noronha, à nossa enseada das Tartarugas (Jericoaquara), refrescando-se a caçar e pescar, e chegaram ao Maranhão, onde encontraram uma ilha das vascas, e vacas bravas, que Ferdinand Denis, apoiado na autoridade de Montoya, diz serem tapires, mas não duvida que fossem bovídeos, já existentes no país, como afirma o Padre Claude de Abbeville. E muito bem poderiam ser, porquanto, nas malogradas expedições de Aires da Cunha e João de Barros — donatário daquela capitania —, assim como se salvaram homens, melhormente se teriam salvado animais. O certo é que, na opinião de autores contemporâneos, as expedições de Barros e Cunha conduziam bovídeos. Por outro lado, consultando este livro (Le Vicomte M. de Vibraye — L'Élevage En Europe Et En Amérique) nos convenceremos que, a esse tempo, as raças bovinas da França jaziam em sua primitiva rusticidade, muito longe da beleza e perfeição que hoje apresentavam. Ainda referindo-se às origens, hão de pronunciar-se as nossas fontes de informação acerca do que se deve entender pelas designações de raça asiática (Bos taurus asiaticus) e raça indiana (Bos indicus), suas relações com o Bos primigenius e descendentes deste; hão de explicar como a bossa do zebu — sua diferenciação fundamental e única dos outros bovídeos — é apenas um celeiro adiposo, criado pela adaptação ao território das secas; hão de mostrar o que são raça aquitânica e raça ibérica, das quais já definiram o cruzamento ao tempo da invasão arábica; hão de tornar patentes os sinais indeléveis do sangue indiano (garrote alto, fanon, [...] ou barbela desenvolvida, etc.) em certo gado português, principalmente na RAÇA BARROSÃ ou malhada, «variedade asiática evidentemente importada em Portugal em uma época que ignoramos» (Sanson — Traité de Zootechnie, Tomo IV, pág. 144), mas que a história portuguesa precisa com exatidão, não de provar, com o depoimento do professor Nogueira, do Instituto Agronômico de Lisboa, que, nas cercanias da capital lusitana, vive «em estado quase selvagem, nos campos dos que o Tejo banha e inunda, a raça Brava ou Alentejana», muito mais indomável que o zebu. Hão de comparar a do esqueleto no Bos indicus e no boi da Aquitânia, com capricho.

Anúncios, notas e expediente

  • Expediente O Nordeste
  • Telegrama A Fé e a Ciência somente se contradizem nas almas sofísticas. José do Patrocínio.
  • Expediente Redação: Drs. Andrade Furtado e José Martins Rodrigues Administração: A. Ildefonso de Araújo
  • Expediente ANO II
  • Nota social CÍRCULO CATÓLICO Reúnem-se amanhã, às 19 horas, no local do costume, os membros da diretoria do Círculo Católico de Fortaleza.
  • Expediente Fortaleza-Ceará, 11 de Outubro de 1922
  • Nota social Adoração Contínua Amanhã, como de costume, haverá na Matriz do Carmo, às 6h30, a missa mensal da Associação da Adoração Contínua a Jesus Sacramentado, realizando-se à tarde do mesmo dia, às 16 horas, a sessão. Domingo, às 14 horas, na mesma igreja haverá reunião dos associados masculinos. Tanto aos que comparecerem à missa como à sessão são concedidas preciosas indulgências.
  • Telegrama Foi fundada uma associação Comercial em Quixadá Recebemos o seguinte telegrama: QUIXADÁ, 9 — Tenho o grato prazer de comunicar que acaba de ser fundada nesta cidade uma Associação Comercial, sendo eleita, ontem, a sua primeira diretoria. Respeitosas saudações — Manuel Freire, presidente da Associação Comercial.
  • Telegrama Instala-se a agência postal do Curu O digno e virtuoso vigário do Curu, Padre Aureliano Mattos, dirigiu-nos o seguinte despacho: CURU, 9 — Comunico que foi instalada, hoje, a agência do correio desta povoação. Reina grande regozijo do povo por este real benefício. Saudações — Padre Aureliano Mattos.
  • Nota social Entradas da Exposição Em regozijo pelo segundo aniversário de sua prezada irmãzinha Marincida, enviou-nos a pequenina Eunice 40 entradas da Exposição do Centenário, para o Instituto de Proteção à Infância.
  • Nota social O interessante Rômulo Araújo ofereceu-nos para os pobres do Asilo de Mendicidade, 20 entradas da Exposição.
  • Anúncio Um cupom do bonde vale um real. Guarde-o para os pobres de São Vicente de Paulo.
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