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O Nordeste

Outubro de 1922, página 41 · 16 trechos transcritos

Manchetes desta página

  • AS obras do Nordeste no futuro governo A realização do vasto programa de obras contra as secas, no Nordeste, de que o atual presidente fez o ponto culminante de sua administração, a ninguém de bom senso poderia parecer que fosse suspensa no futuro governo da República. Chegaram a tal ponto de adiantamento as obras projetadas em muitas das quais, dos serviços de instalação já se passou, decididamente, aos trabalhos de execução, são já tão elevadas as despesas com os materiais, pessoal de administração e operários que a suspensão desses serviços deixaria de avultar pela desumanidade que representaria, para ser absolutamente condenável como desastrado ato de uma política econômica inteiramente desorientada. Entretanto, muita gente, por um natural espírito de pessimismo, ou por prevenção com a administração Bernardes, assim vaticinava. O futuro presidente da República, porém, que, já na sua plataforma de governo, incluía as obras do Nordeste no plano geral da sua administração, acaba de reafirmar, categoricamente, que esses serviços constituirão uma das maiores preocupações de seu governo, mesmo porque ele está intimamente ligado ao atual pelos laços do mais elevado civismo e da mais perfeita consciência da responsabilidade de ambos, perante a Nação. E funda-se o ilustre estadista mineiro, para a continuação das obras, nos mesmos princípios de ordem moral e econômica, que influíram no presidente Epitácio, isto é, no dever de solidariedade nacional nas amarguras dos habitantes do Nordeste, e nos fartos proventos que hão de resultar das barragens, irrigação e estradas de ferro para a economia da Nação e seu maior progresso agrícola e industrial. Compreende bem o esclarecido administrador, a quem Minas deve um quatriênio fecundo de iniciativas de prosperidades, penhor da boa orientação dos negócios nacionais, que, ainda com algum sacrifício para a Nação, as obras do Nordeste devem ser concluídas, porque são despesas reprodutivas, que mais tarde hão de ser facilmente ressarcidas, e ainda porque a sua suspensão não seria uma economia, mas um desperdício ruinoso do muito que se tem feito. E, deve-se considerar mesmo que, se as obras têm sido mal encaminhadas, se o largo crédito para as mesmas tem sido desviado desonestamente ou despendido sem regra nem medida, se enfim a sua administração se ressente de tantas outras falhas que apontam, o remédio heroico não será a suspensão dos serviços, mas uma fiscalização mais criteriosa e mais severa dos poderes públicos, para que os trabalhos realizados correspondam aos sacrifícios da Nação e os possam compensar. Diante da entrevista categórica do presidente Bernardes, descanse o Ceará na certeza confortadora de que serão levados por diante os serviços contra as secas, que, sobre já lhe estarem trazendo tanto estímulo ao comércio e ao desenvolvimento agrícola, são a garantia precípua do seu futuro econômico.
  • OS TRABALHISTAS YANKEES NOVA YORK. 9 — A Federação do Trabalho resolveu instituir um consultório jurídico, a fim de solidificar a situação dos trabalhistas.
  • O MOMENTO RELIGIOSO NO BRASIL “Correio da Manhã” entrevista o arcebispo da Bahia (Do nosso serviço telegráfico) RIO, 12 — O excelentíssimo arcebispo da Bahia, concedeu uma entrevista ao «Correio da Manhã» sobre o momento religioso. O «Correio», referindo-se a Dom Jerônimo, diz ser uma das figuras mais amáveis e simpáticas do Clero Brasileiro. Dirigindo, há muitos anos, a diocese baiana, cuja importância não é preciso esclarecer, quer pelo espírito profundamente católico da população, quer pelas tradições que ficaram dos outros varões notáveis que, na cidade do Salvador, foram bispos ou arcebispos, o ilustre prelado, a cujos sentimentos liberais, tolerantes, a sociedade de seu tempo rende homenagens, conseguiu ligar a seu nome uma viva estima dos que com ele tratam pessoalmente, como dos que ouvem falar da sua simplicidade e da bondade do seu coração. [...] Dom Jerônimo, referindo-se ao Congresso Eucarístico, disse que foi um extraordinário acontecimento, excedendo a toda expectativa. Tratando do movimento católico em todo o Brasil, afirma que tal movimento é, de fato, estupendo, e termina com estas palavras: «O espírito católico, no Brasil, irradia-se de norte a sul e de leste a oeste. Bispos, os arcebispos, os párocos e o povo, todos devem atestar.» Quanto a mim, não me esqueço. Numa das minhas peregrinações a Roma, lutei com imensas dificuldades para obter uma audiência de Leão XIII, o que o meu grande amigo Cardeal Rampolla, que me havia sagrado, e era então o secretário de Estado, me fez ver não ser possível, pois que todas as horas dos dias consecutivos já estavam tomadas. Voltei, insisti. Rampolla ponderou: concedendo, eu e meus peregrinos nos incorporaremos a uma comissão croata que ia ser atendida. Protestei que não; os católicos brasileiros absolutamente não podiam ir à presença do Santo Padre à sombra de meia dúzia de croatas. Em toda a humanidade cristã, tínhamos uma situação inconfundível. E argumentei por tal forma — concluiu — direi ao Cardeal Rampolla o que éramos e o que valíamos com tão grande sinceridade que ele removeu todos os obstáculos e fomos, afinal, recebidos no outro dia. A nação aproveitou, pois, enquanto estive em Roma, não cessei de discorrer, nas palestras com outras altas autoridades eclesiásticas, sobre os progressos do catolicismo no Brasil.» Dom Jerônimo declarou que se demoraria no Rio.
  • O projeto do deputado Cincinato Braga aumentando os ministérios (Do nosso serviço telegráfico) RIO, 12 — O deputado Cincinato Braga apresentou à comissão de finanças da Câmara o seu anunciado parecer sobre a criação de mais dois ministérios. O deputado paulista leu o projeto que elaborou, distribuindo a administração federal nos seguintes departamentos, em número de nove: 1º — Negócios Interiores, Correios e Telégrafos; 2º — Exterior e Comércio; 3º — Marinha; 4º — Guerra; 5º — Viação e Obras Públicas; 6º — Justiça e Instrução; 7º — Saúde e Assistência Pública; 8º — Agricultura e Indústria; 9º — Fazenda. O ministério do Exterior terá a direção de todos os negócios referentes ao Comércio, diretoria de estatística e comércio internacional, pertencentes atualmente à Fazenda; e da junta dos corretores, junta comercial e produção comercial, atualmente afetos ao da Agricultura. O ministério do Interior, perdendo a Justiça e Instrução que formarão novo ministério, será compensado com a aquisição dos Correios e Telégrafos. Será criado o lugar de sub-ministro da Fazenda, nomeado pelo presidente da República, mediante proposta do ministro da Fazenda. O projeto propõe a criação de um conselho superior de comércio, composto de nove membros, e lembra institua-se o lugar de consultor técnico de mineralogia e geologia, subordinado ao ministério da Agricultura, com os vencimentos de 4 contos de réis. Constava, na Câmara, que o dr. Arthur Bernardes, consultado preliminarmente pelo deputado Cincinato, mostrou-se favorável ao projeto.
  • A edição do Centenário da “Revista Comercial” Orna a nossa banca de trabalhos a luxuosa edição ilustrada da «Revista Comercial», do Ceará, em comemoração do Centenário da Independência do Brasil. O corpo redatorial desta importante publicação acha-se reorganizado: diretor dr. Nestor Barbosa, redator-chefe Elias Lopes e redator-secretário Gregoriano Cruz. Ilustram-na muitas gravuras que dão grande realce ao texto. Pela publicação do sumário abaixo, podem os leitores bem avaliar da ótima feitura intelectual da «Revista», cuja parte gráfica nada deixa a desejar, muito recomendando as oficinas do sr. A. G. Mendes onde foi impressa. Eis o sumário aludido: «Oração à Pátria» (Elias Lopes), «O Comércio e a Independência» (Redação), «O Comércio do Ceará nos últimos cem anos» (dr. Thomaz Pompeu), «As grandes obras do Nordeste e a reconstrução econômica do Ceará» (Redação), «As secas do Ceará» (Rodolfo Theóphilo), «O Presidente eleito da República» (Redação), «O crédito agrícola e a instrução técnica e profissional no Ceará» (dr. Thomaz Pompeu Sobrinho), «Congresso de Prefeitos» (Redação), «Associação Comercial do Ceará — Sua valiosa atuação no meio econômico social do Estado» (Redação), «Emancipação econômica» (Redação), «A evolução comercial do Ceará» (A «Revista Comercial» (Redação), «Condições naturais e históricas do progresso econômico» (dr. Joaquim Pimenta), «Junta Comercial do Ceará e o Centenário da Independência» (Redação), «Pecuária Cearense» (Dionísio Torres), «Exportação Brasileira» (Pimenta Lira), «A população do Brasil - A produção agrícola do Brasil em 1920-1921 - Exportação de farinha — Rede de Viação Cearense (extensão quilométrica), Associação Comercial - Ecos e Notas - Notas econômicas e financeiras — Informações úteis, etc. Agradecemos a gentileza da visita e desejamos muitas prosperidades a esta publicação que honra o nosso Estado.
  • VISITA A CATULLO RIO, 12 — Os pescadores cearenses visitaram o cultor da modinha, Catullo da Paixão Cearense.
  • BAIXA DO MARCO NOVA YORK, 9 — O marco sofreu nova baixa.
  • Os candidatos mais cotados ao ministério Bernardes (Do nosso serviço telegráfico) RIO, 12 — Corre, insistentemente, que o dr. Arthur Bernardes convidou o senador Rui Barbosa para a pasta do Exterior, mas ele não aceitará devido ao seu estado de saúde. Também dizem, à última hora, que foi convidado para a pasta da Instrução o deputado paulista Manuel Vilaboim. Os palpites correntes dizem que o senador Francisco Sá é candidato certo à pasta da Fazenda, o deputado Ascendino Cunha, à do Interior; o deputado Manuel Vilaboim, Instrução, caso triunfe o projeto Cincinato; Gonzaga Campos, diretor do serviço geológico do ministério da Agricultura.
  • O presidente Almeida chega a Lisboa (Do nosso serviço telegráfico) RIO, 12 — Informam de Lisboa que chegou ali, sendo recebido com festas extraordinárias, o presidente Antônio José de Almeida.
  • Regressaram a esta capital os pescadores cearenses A bordo do «Bahia», regressaram, hoje, a esta capital os pescadores cearenses que tomaram parte nas evoluções náuticas do centenário, no Rio de Janeiro. Os bravos homens do mar do nosso Estado conquistaram na capital do país a admiração geral, pela sua desenvoltura, disciplina e garbo varonil. Saudamo-los cheios de ufania, associando-nos às justas manifestações que lhes foram feitas por ocasião de seu desembarque.

Anúncios, notas e expediente

  • Expediente Nordeste Redação: dr. Andrade Furtado e João Martins Rodrigues Administração: A. Ildefonso de Araújo
  • Telegrama Os sacerdotes que tomaram parte na Inconfidência, o padre Roma, Frei Caneca, o padre Miguelinho e o padre Feijó demonstraram que, no Brasil como em toda a parte, a fé de Cristo e o Patriotismo, longe de colidir, mutuamente se completam e corroboram, ligando as gerações entre si. AFFONSO CELSO.
  • Expediente ANO I NÚM. 89
  • Nota social Consequências do ensino fiado Não nos afastaremos jamais, querendo Deus, do ideal de amor e justiça que nos tem trazido às colunas d'« O Nordeste », em defesa dos direitos do funcionalismo público e principalmente do professorado primário. Não conhecemos maior descrédito para um Estado, do que deixar de pagar pontualmente ao magistério, cuja missão nobilíssima, no combate sem tréguas que devemos manter contra o analfabetismo, é merecedora de todo amparo e dedicação dos governos. É de pasmar ouvir-se dizer que o Brasil, depois de cem anos de independência, ainda tem Estados onde os que ensinam a ler, além de mal remunerados, não recebem regularmente os vencimentos. Ora, não é concorrendo desse modo para o desprestígio da escola, que se reduzirá a porcentagem de analfabetismo no Brasil? Sem aumentar o número de professoras, sem garantir-lhes o conforto e prestígio necessários, sem reconhecer-lhes o mérito de sua elevada profissão de educadoras, jamais conseguiremos elevar a instrução pública, da qual depende o futuro da Pátria. A maior parte de nossas professoras, pode-se dizer, vivem quase do favor alheio; porquanto, sendo seus ordenados muito reduzidos, mal chegam para sua manutenção. Aquelas que não têm pais, irmãos ou parentes que de alguma forma as auxiliam, passam mal, e outras que, além de faltar qualquer auxílio, são, ao contrário, o único arrimo da família, passam desgraçadamente mal... Contudo, essa triste condição seria muito minorada, se não houvesse dificuldade no recebimento desses mesquinhos ordenados. Não inventamos, não caluniamos e, para provar isto, cedemos a palavra a uma distinta professora do interior, a quem pedimos permissão para transcrever um trecho, apenas, de carta sua, com que muito nos honrou: «De tudo isso se vê que é um escárnio exigir-se que a professora deve apresentar-se com decência, quando a exiguidade do seu mesquinho ordenado não chega para se manter sem sofrer inúmeras privações, do que resulta, consequentemente, o prejuízo da saúde, já agravada pelo constante labor de seu mister exaustivo.» Não precisamos mais; pois este tópico é de uma eloquência frisante e esmagadora, capaz de confundir os algozes do professorado. Confirmando as palavras acima, inspiradas pela mais justa indignação, tomamos a liberdade de passar para estas colunas palavras de outra carta, cuja autora, apesar de estar sofrendo as consequências de um atraso de quase um ano, com uma resignação evangélica, apela para melhores tempos. Diz ela assim: «Não sou do número dos favorecidos; só me resta, portanto, aguardar melhores dias e enviar-vos entusiásticos pró-faças», etc. Se a primeira dessas cartas é, de princípio ao fim, um como justo protesto contra a desídia dos nossos governos, a segunda é, por assim dizer, uma súplica a Deus para que nos dê melhores dias. E é esta a situação angustiosa e aviltante a que está reduzida a maioria do professorado cearense. Indignadas ou resignadas, manifesta cada uma, a seu modo, a sua reprovação e descontentamento, revelando grande nobreza d'alma. Mas a falta do governo não está somente em não atender. E entre essas felizardas não deixariam de estar as professoras parasitas, que, tendo proteção para serem chamadas à capital, a fim de ficarem a serviço do governo, necessariamente deveriam ser bem recompensadas, embora ninguém até hoje atinasse que espécie de serviço seria esse... Tudo isto é muito triste e lamentável; e o que não deixa de ser cômico, para não dizer ridículo, é que num Estado onde os que ensinam são tão mal retribuídas, e as escolas tão desmanteladas, aparece o ensino obrigatório como providência indispensável contra o analfabetismo! Obrigatório, se possível fosse, deveria ser um tratamento mais digno e humano ao magistério, que não merece esse descaso. A.
  • Nota social OS POETAS CEARENSES NO CENTENÁRIO Juazeiro É no Sertão do Norte. Até as águas de janeiro O verde o prado arreia e ao monte veste a toalha. Entre as árvores, mais vitorioso, o juazeiro No azul amplo do céu a ramada desfralda... Sem ponto de água, agora, a amplidão é um braseiro; A terra, nem que fora uma fornalha, cernida; — Só, na planície nua, o vegetal soalheiro Levanta em pompa aos céus a copa de esmeralda! E assim faustoso o vivo, em meio à morte e ao luto. Acenando de longe, é promessa e carinho Aos olhos de quem foge a este Sertão bruto. Perto, porém, te ostenta o juazeiro, escarninho: No alto — maciça e verde, a copa ainda tem fruto! Em baixo — a sombra fresca em rude chão de espinho! Júlio MACIEL
  • Telegrama RIO, 12 — [...].
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