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O Nordeste

Outubro de 1922, página 45 · 17 trechos transcritos

Manchetes desta página

  • AS OBRAS DO NORDESTE NO FUTURO GOVERNO O sonho de Colombo As ondas vão cortando, em busca de outra esfera, A frota de Colombo, aos ímpetos do vento. De pé na popa um vulto, o Mundo, ao longe, espera... Que lhe importa o furor do líquido elemento? A marinhagem toda em breve se desespera. Ele que leva um sonho a arder no pensamento. Assumirá o timoneiro uma atitude austera: "Avante!" Ânimo, nautas, e mar e firmamento. Colombo fita o céu num murmúrio de prece. Sonha um trecho de terra já... e como por encanto, A plaga americana, ao longe, eis que aparece, Ao bárbaro rigor da selva adormecida... Os olhos dos hebreus não deslumbraram tanto Todo aquele esplendor da Terra Prometida! Ramos NETTO
  • As primeiras Igrejas em honra ao Coração de Jesus foram erigidas no Brasil Pela leitura do número do Centenário, do excelente panfleto nacionalista «O Brasil», que se edita no Rio de Janeiro, viemos a conhecer o Hino ao Sacratíssimo Coração de Jesus, escrito pelo sr. Conde Carlos de Laet, presidente da Academia Brasileira de Letras e insigne jornalista católico, para ser cantado no município de Laranjeiras, no Estado de Sergipe. Possivelmente, haverá em nossos Estados outras igrejas, como a matriz de Laranjeiras e do Convento das Ursulinas da Soledade, na Bahia, igualmente erigidas em honra ao Coração de Jesus, à mesma época. Seria de real importância histórica apurarem-se a verdade a respeito. Da devoção dos brasileiros ao Sacratíssimo Coração de Jesus — fonte de todo Bem e de Misericórdia — em carta de distinto amigo nosso, dr. José Geraldo Bezerra, como é que procede a imensa maioria dos católicos brasileiros, tivemos ciência do movimento religioso que se intensifica em Sergipe, no sentido de tornar conhecido o fato, altamente consolador para os católicos brasileiros, de que naquele Estado e no da Bahia, foram erigidos os primeiros templos em honra ao Coração de Jesus. Foram os ascendentes maternos do dr. José Geraldo Bezerra de Menezes, com os primitivos Jesuítas, que levantaram em Sergipe a atual matriz do Santíssimo Coração de Jesus, de Laranjeiras. Também na Bahia, no convento das Ursulinas da Soledade, foi erguida uma igreja sob a mesma invocação, no princípio do século XVIII, quando nenhum templo havia, em todo o mundo, nem na própria França, consagrado ao Coração de Jesus. É isso motivo de grande glória, realmente, para o Brasil. Na festa do Centenário houve notável romaria de habitantes de Sergipe à matriz de Laranjeiras, que vai ser elevada a Basílica. Em Guarapari, no Estado do Espírito Santo, José de Anchieta construiu um século antes de Santa Margarida Maria Alacoque, uma igreja ao Coração de Jesus. É de bom que se faça cuidadosa pesquisa a fim de se apurarem quais os templos erigidos no Brasil logo após as revelações de Paray-le-Monial, no fim do século XVII e começo do século XVIII. A proteção de Deus à nossa afortunada e caríssima Pátria. Como um documento precioso, vamos publicar aqui o Hino, escrito pelo Conde Carlos de Laet, para ser cantado em Laranjeiras, quando das grandes festas religiosas do Centenário, naquele glorioso município sergipano: Hino ao Santíssimo Coração de Jesus Ó Coração Sacratíssimo Do nosso amado Jesus! Bendito esse amor boníssimo Que foi do presépio à Cruz! Junto ao seio de Maria, Quando Infante repousavas, Pelo mal que te oprimia, Brandamente palpitavas. Quando a morrer te quedaste, Santa Vítima do Amor, A redenção consumaste Do perdido pecador. Eia, pois! Nossos pecados Escusa, apaga, perdoa; Chama a Ti os desvairados, Conforta a quem te magoa. Do sangue esparso em milagre No Jardim das Oliveiras, Tira uma gota que sagre A terra das Laranjeiras! Do lado em que toleraste A judaica lança hostil, Deixa correr quanto baste Para salvar o Brasil!
  • Comentários do “O País” à entrevista do dr. Arthur Bernardes (Do nosso serviço telegráfico) RIO, 13 — «O País» publica brilhante artigo, intitulado «O Nordeste com relação ao futuro governo», analisando, elogiosamente, as intenções do presidente Bernardes sobre os serviços contra as secas. Termina com este trecho: «Uma feliz oportunidade permitiu ao dr. Arthur Bernardes pronunciar-se, de novo, sobre o assunto. Dizemos de novo porque, desde o aparecimento da balela, lançada como arma de combate eleitoral pelos seus desleais adversários, o eminente brasileiro manifestou-se, sinceramente, favorável à continuação das obras contra as secas, por estar de pleno acordo com o critério de que elas representam, de fato, um dever da Nação, envolvendo, como envolvem, não somente um problema adstrito aos sentimentos de solidariedade do povo brasileiro, a ser resolvido pelos seus mandatários, como um problema eminentemente econômico, entendendo com a valorização de imensas terras semiáridas e com o aproveitamento simultâneo de milhões de braços úteis às riquezas do País, fixados nas regiões onde melhor podem trabalhar, no exercício da atividade agropecuária.»
  • Os jogos de tênis RIO, 13 — A delegação brasileira de tênis, atualmente em Buenos Aires, foi derrotada pelos chilenos, do campeonato que ali se realiza.
  • Adesão à candidatura Assis Brasil RIO, 13 — Continuam as adesões à candidatura Assis Brasil ao governo do Rio Grande do Sul, em oposição ao dr. Borges de Medeiros. Aquele lançou vibrante manifesto político aos seus concidadãos.
  • GOVERNO QUER ECONÔMICO
  • Mais na Academia de Letras RIO, 13 — Monsenhor Alfredo Baudrillart, membro da Academia Francesa, chegado ontem, fará, domingo, uma conferência, no salão de honra da Academia de Letras.
  • A autoridade diocesana de Sobral condena e proscreve “A Luta“ (Do nosso serviço telegráfico) SOBRAL, 13 — Em vista da atitude, francamente ofensiva da consciência católica do povo, assumida pelo jornal «A Luta», a autoridade diocesana resolveu proscrever e condenar o referido periódico.

Anúncios, notas e expediente

  • Expediente O NORDESTE Redação: Drs. Andrade Furtado e José Martins Rodrigues Administração: A. Ildefonso de Araújo
  • Telegrama Detesto essa gente que, negando a existência de Deus e da alma, me reduz à condição de um monte de lodo! NAPOLEÃO
  • Expediente com Américo 1911 ANO I Fortaleza — Sábado, 14 de Outubro de 1922 NÚM. 90 50 RÉIS
  • Telegrama Mundana RIO, 13 — Informam de Londres que os delegados aliados, turcos e gregos assinaram, em Mudania, o acordo terminando a guerra no Oriente. De Constantinopla informam que ali se realizaram várias festas de regozijo popular pela assinatura do acordo. A navegação no Bósforo, que tinha sido paralisada, por determinação da Inglaterra, devido às incursões dos turcos na zona neutra, já foi restabelecida.
  • Nota social Encantadora festa no Convento da Soledade BAHIA, 13 — Realizou-se, no Convento da Soledade, uma encantadora festa das alunas do mesmo, com interessantes representações. Destas, destacou-se o drama «Borboleta», que, excelentemente representado, teve efeito deslumbrante. Um conjunto bem organizado de japoneses dançaram com mimosos passos coreográficos, formando o nome «Brasil». As alunas fizeram ótimos exercícios de ginástica. A concorrência a esta festa foi numerosa e brilhante, notando-se entre os presentes a família do governador, o intendente, o cônsul francês e os secretários de Estado. Todos saíram levando ótima impressão do esforço e dedicação das educadoras Ursulinas. Os jornais fizeram tirar várias fotografias de festa, que terminou com belíssima apoteose ao Brasil e à Cruz, sendo entoado o Hino à Bandeira, de D. Aquino, seguido do Hino Nacional.
  • Telegrama Um cupom de bonde vale um real. Guarda-o para os pobres de São Vicente de Paulo.
  • Anúncio O. PARENTE Rua Municipal, 68. José
  • Anúncio GERAL: no do Distrito 5% ao ano até juros e taxas: ao ano associados [...] e não as % ao ano; a quantia, 12% a 18,13% [...]
  • Telegrama Também minha Mãe! (Tradução especial para O NORDESTE) Muito tempo já faz que isso aconteceu. A basílica de São Pedro, apenas acabada, ostentava-se ao pé do Vaticano, majestosamente. A cúpula de Michelangelo, radiosa de frescura e de beleza, destacava-se, muito clara, sob as irradiações do sol Ocidental. O Papa reinava como soberano pacífico, e ninguém sonhara ainda em arrebatar-lhe os seus Estados. Nessa época vivia em Roma um santo sacerdote, D. Angelo. Era um homem caridoso e modesto, descendente de família patrícia. Poderia aspirar às primeiras dignidades na corte pontifícia, mas preferira sepultar-se na obscuridade. Pensionista num convento próximo, passava a maior parte dos seus dias na pequena igreja de Santo Onofre. Ali, pouco se detinha o seu olhar nas luminosas pinturas do Domenichino; lançava-o, mais vezes, sobre a Natividade do Bassano, pois nutria pela Virgem Mãe um culto filial de confiança e de ternura. Ele se abismava num recolhimento tão profundo que nem percebia a fuga precipitada das horas. Apenas julgava ter começado a orar, quando o sino do mosteiro o chamava ao refeitório. À tardinha, D. Angelo visitava os seus pobres. Esmolas aos necessitados, remédios aos doentes, aos aflitos consolações, carícias às crianças. Conversava, longamente, com esses infelizes, ensinava-lhes um pouco de catecismo e deixava-os reconfortados pelas emanações de suas virtudes. D. Angelo vivia assim havia muitos anos, quando sentiu nascer em sua alma um ardente desejo de ver a Virgem Imaculada. Ora, um dia que ele adorava as mãos... os olhos d'alma o Santo Sacramento, entendeu, no íntimo de sua alma, ressoar claramente estas palavras: — Os olhos que contemplam minha glória, fechar-se-ão para sempre às coisas da terra. Aceitarás um tal sacrifício? Deixo-te o tempo para refletir. Se bem que D. Angelo recebesse graças especiais em tuas orações, jamais houvera entendido locuções sobrenaturais. Este novo favor encheu-o de confusão... Depois, a perspectiva do sacrifício anunciado perturbou-lhe o espírito. Saiu da igreja e para ordenar as suas ideias foi espairecer um pouco no jardim do convento, sob um carvalho célebre, em cuja sombra Tasso se aprazia outrora a meditar. Nessa tarde radiosa de inverno um panorama fecundo estendia-se diante dele. À sua direita, no azul muito pálido de um céu cristalino, o Soratte erigia seu pináculo nebuloso. À frente, os montes Albanos se coloravam de um matiz violáceo. A seus pés a Cidade Eterna ostentava seus palácios suntuosos e suas veneráveis basílicas. E aqui, a torre do Capitólio; mais além, São João de Latrão, onde ele havia recebido as ordens sacras; e muito perto o campanário de Santa Maria in Cosmedin. Quantas igrejas caras à sua devoção!... E, sobre todos esses monumentos, como uma carícia suprema, o sol poente, lançando o ouro dos seus últimos raios! — Como tudo isso é belo! — murmurava o padre, juntando as mãos. Ele se abisma no êxtase; o fogo do amor arde em sua alma, inebriando-a. E D. Angelo permanecia por um momento mudo. Queria falar, mas as palavras se detêm em seus lábios. Se para a Rainha do universo fosse preciso apenas não mais contemplar estes esplendores únicos, ele consentiria de boa vontade, mas esta cegueira não o impediria de visitar os pobres. Que fazer? Que fazer! Bem perdido agora. — Como compreendeste mal o sentido de minhas palavras! O olhar daquele que contemplou minha beleza, não mais se deterá nas coisas deste mundo; elas lhe parecerão muito miseráveis. Mas não cegarei nenhum dos meus filhos, eu, a doce Estrela do Mar! O místico ruiu, absorve inteiramente o casuísta. Por uma inspiração genial, D. Angelo encontrou o meio de conciliar os desejos de sua devoção com os interesses de sua caridade. Na manhã seguinte, após haver celebrado a missa, ajoelhou-se piedosamente em um genuflexório, a cabeça apoiada sobre a mão esquerda, de modo a fechar perfeitamente um olho. — Se a Virgem Santa se dignasse a aparecer, pensava ele, conservarei ao menos a vista que a contemplou. Ela é tão boa Mãe que me perdoará este pequeno embuste. E começa sua oração... Mas eis que a voz misteriosa de novo lhe fala: — Já que consentes no sacrifício, prepara tua alma para minha visita. Um ligeiro sussurro, mavioso, como o roçagar de sedas... Perfumes dos quais a terra nem de leve pode suspeitar a fragrância. Que felicidade que lhe proporcionou tão celeste alegria! Um mês passou-se e o santo padre conservava-se ainda numa sorte de inebriamento. Em suas orações, em seus trabalhos, noites e dias, ele pensava nela. E, quanto mais nela pensa, mais ardentemente deseja tornar a vê-la, uma vez ao menos antes de morrer! Perdesse embora sua última vista! Sacrifício mínimo, inesquecível, comparado à felicidade exultante de ver a Rainha dos anjos e dos homens, fosse por um minuto sequer! Prostrado diante do tabernáculo, D. Angelo suplica a Nossa Senhora que se digne visitá-lo de novo e a Virgem Clemente atende a sua prece. Desta vez, porém, o padre foi colhido por uma nuvem de luz dulcíssima, a Imaculada, sorridente e bela, trazendo em seus braços o Menino Jesus. Sobre os lábios da Virgem passou um sorriso de luz. — Dou! Que visão! D. Angelo! — exclamou a Virgem. — Não me deixes deslumbrar, Senhora das riquezas. Nos seus olhos, perdoai diante de vós e de todos, como amamos docemente a vós, no fogo do vosso divino amor. A visão se desfaz, deixando após si um sulco de luz. A palavra da Imaculada se realizou. D. Angelo viveu de ora em diante uma vida quase angélica. Os esplendores de Roma não mais o deslumbraram; ele parecia espiritualizado no mosteiro do amor divino. Então, a Rainha celestial veio colher sua alma, transportando-a para os jardins do paraíso. Raros foram os privilegiados que tiveram a dita de ver a Senhora, ainda neste mundo, com os olhos do corpo. Mas todos nós, com os olhos d'alma, podemos contemplar as irradiações de nossa Estrela. Ah! se soubéssemos bem usá-los, esses olhos! Ela conserva sua presença de espírito. Quando a Imaculada faz menção de partir, ele procura retê-la com palavras humildes: — Não me deixes, doce Mãe, um instantezinho ainda! Já que meus olhos serão sacrificados, permiti ao menos que vos contemplem. R. V.
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