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O Nordeste

Outubro de 1922, página 69 · 12 trechos transcritos

Manchetes desta página

  • Acumulação de funções O governo do Estado está em vias de praticar um ato, que consideramos arbitrário e que, sob qualquer aspecto, é absolutamente injustificável. Trata-se da intimação, que mandou fazer, aos professores estaduais que o são também do Colégio Militar deste Estado, para que optem pelo exercício das funções de um ou outro dos estabelecimentos, em que lecionam. O professor catedrático de inglês no Liceu do Estado e adjunto da seção de línguas do Colégio Militar, Dr. Guilherme Moreira, recebeu, por três vezes já, um ofício de intimação do diretor daquele estabelecimento, que o fez de ordem do secretário do interior e por mandado do presidente do Estado. Idênticas intimações, por igualdade de situação, estão ameaçados de receber os professores: Beni Carvalho, catedrático de direito criminal na Faculdade de Direito, Henrique Autran, catedrático de Aritmética no Liceu; e Júlio Ibiapina, catedrático de francês, na Escola Normal. Essa intimação importa, evidentemente, na demissão dos referidos funcionários. O que pretende o governo é que os professores em questão não acumulem as funções dos cargos que exercem, porque, quanto à remuneração dos mesmos, já de há muito a fazenda federal os obrigou a optar, o que todos fizeram, preferindo os vencimentos de professores do Colégio Militar. Optando, porém, pelos vencimentos federais, os citados professores continuaram a dar as suas aulas nos estabelecimentos estaduais, sem perceberem remuneração alguma, com regular economia para os cofres do Estado. Esse ato do governo estadual, jurídica, econômica e moralmente, está fora de qualquer justificativa. Nem a Constituição federal nem a do Estado o apoiam. Aquela, em seu art. 73, declara apenas que são vedadas as acumulações remuneradas, e esta, no art. 109, proibindo expressamente as acumulações, põe clara, ainda, a restrição: remuneradas. Onde, pois, o fundamento jurídico em que se firme o governo para obrigar os funcionários à opção por funções? Não há exegese, por mais sofística, que leve a tirar essa conclusão absurda dos textos constitucionais. Muito menos se defende, sob o ponto de vista econômico, o ato do governo, em expectativa. Que orientação financeira é esta, num Estado de recursos parcos, necessitado de restringir as suas despesas, que faz o governo impor a demissão de funcionários que o servem gratuitamente, para os substituir por outros aos quais terá de pagar? Por fim, mesmo que o ato não estivesse primariamente condenado pela carência de fundamento legal a sua consumação seria grave falta de equidade, que as administrações têm o dever moral de evitar. Não se admite que alguns membros do magistério estadual, como os há vários, possam acumular funções e mesmo vencimentos, ao passo que a outros, por absurda exceção, nem sequer se permite a acumulação de funções. Parece-nos, assim, que o governo deve refletir melhor, antes de executar, nas consequências, para o seu prestígio moral, do ato injustificável que começou a praticar, que vem repercutindo muito mal na opinião pública, e contra o qual os prejudicados têm recurso legítimo para os tribunais, onde a justiça caberá sua plena vitória.
  • A defesa do “Diário” ao redator d’“A Luta” O nosso confrade «Diário do Ceará», depois de fazer longo e mortal silêncio em torno dos insultos irrogados pelo diretor d' «A Luta», de Sobral, à Religião dos cearenses, ao exmo. sr. Bispo daquela diocese e ao seu digno clero, veio anteontem subscrever, tristemente, as invectivas do jornalista blasfemo. Está-se vendo que houve um constrangimento nessa atitude muito infeliz e tardia, imposta simplesmente pelas contingências da política. Isso, porém, em nada diminui a responsabilidade da defesa aludida. A saída que encontrou o órgão oficial para exculpar o seu «inamovível» correligionário foi alegar que o correspondente d'«O Nordeste», em Sobral, é, ou deve ser, segundo está informado, o padre Leopoldo Fernandes, chefe do niilismo naquela cidade e «inimigo figadal» do blasfemador... Para se avaliar o grau de exaltação partidária do padre Leopoldo Fernandes basta dizer-se que, sendo diretor do «Correio da Semana», jornal de orientação católica, jamais favoreceu em toda a campanha presidencial, o candidato da reação. Se se tratasse, consequentemente, de um extremado político, teria, por certo, afeçoado o seu jornal aos interesses da sua paixão partidária ou se julgaria incompatibilizado com o posto que exerce na imprensa. Ao contrário, o aludido órgão, se bem que alheio à política de partidos, mostrou-se sempre favorável ao candidato nacional, Dr. Arthur Bernardes. Quanto à outra acusação de ser o padre Leopoldo inimigo figadal do jornalista blasfemador, não passa de uma afirmação gratuita, pois toda gente de senso há de bem ver que um sacerdote católico, esclarecido e educado na escola evangélica do amor ao próximo, anatematiza erros, rebate indignidades mas não odeia pessoas... Não, foi porém, o padre Leopoldo Fernandes quem, no «Correio da Semana», tratou do caso das blasfêmias do redator d' «A Luta», mas o venerando e respeitabilíssimo sacerdote, padre Joaquim Severiano, vulto dos mais circunspectos e acatados do clero cearense. Ademais, D. José Tupinambá da Frota, preclaro Bispo de Sobral, não iria protestar, ao lado da unanimidade dos sacerdotes de sua diocese, contra o atrevimento do redator d'«A Luta», se para tanto não tivesse razões sobejas. O príncipe da Igreja Sobralense, prelado dos que mais honraram o episcopado nacional pela sua cultura e pelas suas virtudes, continua a ser vilmente insultado pelo homem a quem o jornal do Governo não se peja de defender. O «Diário» prefere, porém, em sua vesga lógica partidária, endossar as ignomínias e ultrages atirados pelo redator d' «A Luta» à Religião dos cearenses, ao exmo. sr. Bispo de Sobral e ao seu ilustrado clero, a ficar ao lado do povo, profundamente ferido nos melindres sagrados de suas crenças. O redator d’«A Luta», na linguagem sarcástica do órgão oficial, tem sido «sentinela avançada da defesa dos ministros da Religião», que jamais atacou... Isso não passa de caracterizado ultrage, atirado à consciência dos católicos cearenses pelo órgão do governo. O redator d’«A Luta» tem defendido os ministros da Igreja, toda vez que com isso pode ofender adversárias políticas, se tema que o «Diário» bem conhece, por ser muito velho e chapa, entre alguns políticos de nossa terra. O respeito que o guarda avançada da religião em Sobral consagra ao clero cearense foi por nós verificado na série de baixas insolências com que ofendeu o Prelado sobralense e vultos mais distintos do ministério sagrado daquela diocese. O «Diário» talvez pense tirar bom proveito político da iniciativa que tomou, desairosa e ridícula, de encampar blasfêmias a Jesus Cristo e insultos aos ministros de Deus, quando somente há de atrair com essa sua atitude as prevenções e antipatias dos católicos de nossa terra.
  • O Rio ansioso por conhecer o ministério Bernardes Fervilham os palpites (Do nosso serviço telegráfico) RIO, 20 — A cidade preocupa-se com saber qual o ministério Bernardes. Embora o «Correio Paulistano», órgão oficial de S. Paulo, tenha declarado serem prematuras quaisquer suposições, a impressão geral é que o futuro presidente já escolheu o ministério. O «Rio-Jornal» pensa que ficará assim constituído o futuro governo: Exterior: Miguel Calmon; Justiça: Felix Pacheco; Fazenda - Sampaio Vidal; Guerra — Setembrino de Carvalho ou Carneiro da Fontoura; Marinha — Gomes Pereira ou Alexandrino de Alencar, Viação — Francisco Sá ou Sampaio Correia, estando este último muito cotado também para a Prefeitura; Agricultura — Assis Brasil, chefe de Polícia — Melo Viana. Consta, à última hora, que o Dr. Venceslau Brás irá para a pasta da Agricultura. Dizem que o senador Rui, quando rejeitou o convite para a pasta do Exterior, indicou ao sr. Bernardes, como representante do seu pensamento, o nome do Dr. Miguel Calmon, para substituí-lo. O «Correio da Manhã» publica os seguintes palpites: Viação — Francisco Sá; Guerra — Setembrino de Carvalho; Fazenda — Sampaio Vidal. Informa também o ex-ardente órgão niilista que o almirante Alexandrino foi convidado para a pasta da Marinha, não tendo respondido até agora. Acrescenta que os Drs. José Augusto, Justiniano de Seixas e João Luís Alves estão muito cotados para a pasta da Justiça; e os srs. Antônio Carlos e Alaor Prata são candidatos prováveis à Prefeitura. O sr. Miguel Calmon é provável que inaugure a pasta do Comércio. Está constando que o general Tasso Fragoso será o chefe da Casa Militar da presidência, e o Cel. Potiguara o comandante da Brigada Policial. Assegura-se que a Bahia dará um ministro que sairá da oposição: talvez o deputado Otávio Mangabeira. Dizem ainda que o general Silva Pessoa continuará no comando da polícia militar. O secretário particular do presidente será o Dr. Abelardo Rocas. Parece certo que o Dr. Francisco Sá foi convidado para a pasta da Viação. Para a chefia do Estado Maior do Exército, está muito cotado o general Ribeiro Costa.
  • Quem organizará o novo gabinete inglês (Do nosso serviço telegráfico) LONDRES, 19 — Lloyd George pediu demissão, acompanhado de todo o gabinete, tendo indicado para organizar o novo governo ao sr. Bonar Law. Esse fato vem trazer modificação total na política inglesa, tendo causado funda impressão no espírito público.
  • Uma bela entrevista sobre o Nordeste O surto de vida nova com as obras em execução. A cultura algodoeira na zona das secas (Do nosso serviço telegráfico) S. PAULO, 20 — O conceituado médico Dr. Cícero de Alencar, o qual regressou de longa excursão ao interior do Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte, concedeu a seguinte entrevista aos jornais. «O Nordeste, com os grandes melhoramentos porque estão passando, acha-se numa fase de transição e breve entrará em franca prosperidade. Alastra-se por todo o sertão um surto novo de confiança no trabalho e eficácia nos empreendimentos, em vias de ampla realização. Os criadores acham-se mais animados com o bom resultado que vão tirando da facilidade de transportes para as suas colheitas, pelas novas estradas de rodagem orçadas; e o povo em geral, contente com a remuneração do trabalho efetivo, que lhe garante, esta fase de carestia, o sustento necessário. Os últimos invernos têm deixado certa abastança; e a população, com a certeza de que os trabalhos continuarão no próximo quatríenio, desperta para novos empreendimentos de natureza particular. Tive oportunidade de percorrer toda a zona algodoeira daqueles Estados. Pude apreciar a animação de que se acham possuídos os grandes plantadores de algodão, estimulados pela missão Varso, que lhes levou a convicção de que o algodão do Nordeste é o de melhor fibra. Já no Rio, assisti a algumas sessões da conferência algodoeira, que ali se reuniu; e tive também o ensejo de ver que essa convicção subiu às mais altas esferas da administração pública. Mais ainda: vi que o algodão nacional entrou, definitivamente, na política econômica do mundo, despertando para ele o interesse inglês, neste particular em franco conflito com a América do Norte, que domina o mercado desse produto. Discutiu-se, na conferência algodoeira, a impressão de que os Estados do Norte bem podiam entrar nessa política, decididamente, drenando os capitais ingleses para o alargamento e aperfeiçoamento dessa cultura, garantida pela excelência do clima, das terras e da fibra e pelas vantagens da irrigação, que se aproxima, com as barragens em vias de realização. Esta política afigura-se-me de necessidade premente, sobretudo porque os processos de beneficiamento do algodão, naquela parte do País, estão concorrendo para depreciar o produto, nesta fase em que ele mais precisa acreditar-se. Os maquinismos são péssimos, pois lhes tiram talvez a melhor qualidade: o alongamento da fibra. O plantio é o mesmo de há 50 anos. Não estou com os que consideram a lagarta rosada o maior mal dos algodões do Nordeste. Essa lagarta sempre existiu ali, e ataca também outros produtos. O que se sabe de certo, sobre seus estragos, é que eles são muito variáveis e coincidem com os grandes invernos, o que quer dizer que, com o sistema de irrigação em perspectiva, suprindo a falta de chuvas, a produção do algodão, no Nordeste, terá contínua, podendo-se obter, em um só ano, duas ou mais colheitas. Será então a época do ouro branco, que não estará talvez longe.»
  • Agita-se a campanha presidencial no Rio Grande do Sul RIO, 20 — Telegramas do Rio Grande do Sul informam que está impressionando a opinião pública o movimento político em prol da candidatura uma Drault. Grande número de que atuam para o Antenor [...] além de fazer a propaganda. A campanha inicia-se gradualmente a cada dia, tendo o Dr. Assis Brasil realizado ontem uma conferência política em Uruguaiana, ante enorme agitação.

Anúncios, notas e expediente

  • Expediente O Nordeste Redação: Dra. Andrade Furtado • José Martins Rodrigues Administração: A. Ildefonso de Araújo ANO I Fortaleza - Sábado, 21 de Outubro de 1922 Nº 96
  • Telegrama Não permitas jamais que tua língua corra adiante do teu pensamento. CHILON.
  • Anúncio VENDEM-SE nesta redação, cautelas da grande Tombola do Centenário, em benefício do Patrimônio do Dispensário dos Pobres e do Patronato das Operárias, mantidos pela Liga das Senhoras Católicas Brasileiras.
  • Telegrama Carro de bois Uhm, tantas, gemendo, as rodas arrastando Os pesados pranchões de pau d'arco. Angustiado, Ora altivo e roufenho, ora amoroso e brando, Tudo o carro de bois é um soluço abafado... À hora triste e glacial do crepúsculo, quando O sol desce, o seu canto é tão novo e magoado, Que ora nos prende à terra, ora nos voa levando À asa de ouro de um sonho a um longínquo passo... Choram, lentos, à frente, os bois mortos de som no... Há uma vaga tristeza, uma ansiedade em tudo: A paisagem dir-se-ia um pôr do sol de outono. Oh! Natureza-Mãe! Sei quanto sofre, pois, Veio, ansioso rolar todo o teu pranto mudo Pelos bons olhos melancólicos dos bois... Octacílio AZEVEDO
  • Telegrama Telegramas Os primeiros atos do novo governo do Pernambuco RECIFE, 20 — O governador mandou o tesouro suspender o pagamento aos funcionários ultimamente aposentados, até terminar a revisão a que mandou proceder nas referidas aposentadorias. Essa revisão obedecerá a absoluto critério de justiça. O ato do governo Loreto causou sensação ao público, merecendo aplausos gerais. Os pescadores cearenses RIO, — O «Rio Jornal» elogia a iniciativa das homenagens que serão prestadas, aqui, aos pescadores, que regressaram desta capital, publicando um telegrama do presidente Serpa ao comandante Armando Pinna. Pela Câmara RIO, 20 — Na Câmara, o presidente anunciou que se iniciariam no dia 24 os trabalhos do reconhecimento do Dr. Estado Coimbra, para a vice-presidência da República. O sr. Tavares Cavalcanti defendeu a política financeira do atual governo, voltando o Otávio Rocha a atacá-la. Rua D. Silvério RIO, 20 — Rendendo tributo à memória do arcebispo de Mariana, o prefeito deu o nome de D. Silvério a uma nova rua do bairro de Campo Grande.
  • Telegrama Ecos No anúncio «Expressão da Verdade», da Casa Figueira, em nosso número passado, leia-se 500$000 por um grupo de mobília de 9 peças e não 900$000 por um grupo de 5 peças. Acaba de ser aberta nesta capital, sob a competente gerência do hábil cortador, Francisco Oliveira Chagas, a Alfaiataria Moderna, sita à rua D. Pedro Borges, nº 29. É de esperar que, devido à grande prática de seu proprietário, seja o moderno estabelecimento de elegância um dos mais frequentados pelo público.
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