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O Nordeste

Dezembro de 1922, página 53 · 14 trechos transcritos

Manchetes desta página

  • A conferência do senhor Arno Pearse na Associação Comercial O importante problema da valorização do algodão. Realizou-se, ontem, no salão de honra da Associação Comercial, uma reunião de pessoas de relevo do nosso meio, a fim de ouvir o senhor Arno Pearse, representante dos centros consumidores de Manchester, que fez excelente conferência acerca da excursão que levou a efeito no interior do Estado. A sessão foi presidida pelo excelentíssimo senhor Dr. Justiniano de Serpa, que ficou ladeado do Dr. Leiria de Andrade, Secretário da Justiça, e Dr. Carvalho Lima, Secretário da Presidência, notando-se ainda à mesa o senhor Coronel Adolfo G. Siqueira, Prefeito Municipal, e senhor Alfredo Salgado, vice-presidente da Associação Comercial. O senhor Arno Pearse fez, durante cerca de quarenta minutos, uma exposição magnífica do assunto, que tão de perto interessa ao progresso econômico do Ceará, qual seja os meios a empregar para valorização do algodão. Disse o ilustre excursionista que, ao pisar a terra cearense, foi seu primeiro cuidado visitar as casas exportadoras desta capital, verificar os métodos de classificação adotados, o acondicionamento do produto e as condições do algodão em depósito. Depois, efetuou uma excursão no interior, visitando os campos de cultura, dos municípios, bem assim as fábricas de beneficiamento. Em todas as localidades promoveu reuniões, de acordo com os senhores Prefeitos, a fim de aconselhar os meios práticos pelos quais se podem corrigir os defeitos do plantio e da apanha, da embalagem e do transporte do algodão. Falou aos sertanejos sobre a segurança das vantagens a obter no cultivo de tão grande fonte de riqueza, que vai alcançando alta cotação nos mercados consumidores. Em seguida, o senhor Dr. José Maria Fernandes, representante do Departamento Algodoeiro, realizava palestras práticas sobre a importância do desenvolvimento da produção do ouro branco e destruía preconceitos, mostrando, intuitivamente, quais as necessidades principais a atender nos plantios feitos. As reuniões eram encerradas pelo Dr. Carvalho Lima, Secretário da Presidência do Estado, que assegurava a boa vontade do governo e o seu propósito de cooperar em prol da solução do problema da valorização do produto. Foram verdadeiras lições de que, bem certamente, hão de decorrer os mais proveitosos resultados. Está perfeitamente convicto de que esses ensinamentos não foram sementes atiradas em terreno safaro. A missão que chefia considerou um dever de honra demorar um mês no Ceará, por isso que é esta uma das regiões mais apropriadas à cultura algodoeira. Durante a sua permanência em terras deste Estado teve oportunidade de visitar todas as principais zonas agrícolas, de onde trouxe a melhor e mais satisfatória impressão. Esteve em Acarape, Baturité, Quixadá, Morada Nova, Russas, União, Limoeiro, Aracati, Quixeramobim, Senador Pompeu, Atalaia, Humaitá, Lavras, Juazeiro, Crato, Barbalha, Itapipoca, Sobral, Ipú e vários outros pontos. De sua excursão, pretende publicar minucioso relatório. A conferência que realiza, no momento, contém, simplesmente, uma resenha muito rápida das suas impressões. No município de União encontrou uma cultura adiantada, precisando do auxílio de máquinas modernas. Em Limoeiro, verificou certo cuidado posto em prática na apanha. Em Lavras, já há alguma previdência, quanto à seleção das sementes. Em Juazeiro e Iguatu, as condições de limpeza do produto são péssimas. Na Companhia de Beneficiamento de Sobral e na fábrica de descaroçar, de Junco, o algodão é bem tratado e bastante limpo. O certo é que os defeitos encontrados são corrigíveis e o Ceará apresenta todas as condições exigidas para ocupar um lugar de eminência no comércio algodoeiro. Desde que o trabalho agrário seja melhor orientado, a produção será muito maior e muito mais compensadora. Basta dizer que um hectare de terra, aqui, produz mais do dobro que na América do Norte. São magníficas as condições do solo. Resta simplesmente fazer-se a intensificação da cultura. Passou a falar sobre a situação deplorável de secura, em que encontrou os sertões do Ceará. As matas pareciam mortas, a natureza inteira, calcinada. Caíram as primeiras chuvas. Dentro de oito dias tudo era verdura, era tudo vida! Parecia um conto de fadas, tamanha e tão rápida a mutação fantástica das coisas. É uma terra, realmente, prodigiosa. Onde existe um pequeno açude particular, há como que um oásis, cheio de perene frescura e de abundância. Teve ensejo de ver os grandes reservatórios em construção; e pode afirmar que eles vão nos assegurar um futuro invejável. Os açudes de Acarape, Quixeramobim, Palu, Poço dos Paus e Orós vão oferecer ao Ceará extraordinárias possibilidades quanto à produção algodoeira. As avultadas somas gastas nesse grande empreendimento serão indenizadas à nação de maneira altamente compensadora. Os grandes açudes farão os rios perenes e hão de desafiar as secas. Somente o Jaguaribe e os seus confluentes justificam plenamente, sob o ponto de vista econômico, o emprego dos capitais do governo. Feitos os canais de irrigação, as nossas terras assumirão o aspecto de verdadeiro paraíso algodoeiro. A produção há de dobrar de capacidade. Toda a celeuma em torno das obras do Nordeste é, pois, injustificável. Os largos dispêndios feitos são necessários. Não haverá a anunciada falta de braços, porque o trabalho atrairá operários. O solo é de uma fertilidade excepcional e as irrigações, facílimas, dada a natureza apropriada. Em seguida, procurou esclarecer as responsabilidades das atuais condições desvantajosas do algodão entre nós. Afirmou que às casas exportadoras cabe a culpa de não se animar a cultura. A classificação dada ao produto não satisfaz, não estimula. O algodão sujo e o limpo têm a mesma classificação mediana. Falou, depois, sobre a necessidade de os apanhadores separarem em duas sacolas o produto inferior, do bom produto. A mistura traz a depreciação, inevitável. As serras das máquinas ficam, muitas vezes, em mau estado, o que contribui para desvalorização do algodão. É uma tristeza que nos centros consumidores da Europa goze má fama a produção de algodão do Ceará. Os compradores devem estimular os plantadores, classificando regularmente o produto. Está nas mãos do alto comércio dar ao Ceará o lugar a que tem direito entre os principais mercados fornecedores. Os interesses são recíprocos e visam o bem coletivo. A embalagem está sendo mal feita, o que redunda em danificar o produto. Na estação de Ingazeiras, teve ensejo de ver cerca de 500 fardos expostos ao tempo, porque não havia espaço para armazenar as cargas. É preciso alcançar, sobretudo, a uniformidade no tamanho da fibra, na resistência e na limpeza do produto. Aconselha a preferência do algodão "Riqueza", porque a fibra é sedosa e mais uniforme, bem como a Associação Comercial, para conjuntamente agir no sentido da solução do problema de tanto interesse para o Estado. Foi, em seguida, suspensa a sessão, ao som de vibrante salva de palmas. Será de elevado alcance que o governo do Estado faça editar em fascículos, para distribuição gratuita entre os agricultores cearenses, essa esplêndida conferência, cheia de ensinamentos práticos e de observações sábias. Pedimos para essa nossa sugestão a atenção do excelentíssimo senhor Presidente do Ceará.
  • Partida do avião "Sampaio Correia" de São Luís do Maranhão. Da Western Telegraph recebemos comunicação de que os aviadores Martins e Hinton, que fazem o raid Nova York-Rio de Janeiro, no avião "Sampaio Correia", partiram, hoje, de São Luís do Maranhão às 8 horas e 10 minutos. Os aviadores tocarão em Camocim e Aracati, deixando de fazer escala nesta capital, devido às condições desfavoráveis do porto.
  • “Diário do Ceará” Comunica-nos a redação do Diário do Ceará que esse brilhante confrade da imprensa local deixa de circular, hoje, para o fazer, a começar de amanhã, às primeiras horas do dia. Será o Diário, atualmente, o único jornal matutino de Fortaleza.
  • Nossas escolas Empenhado, justiceiramente, anda o Ceará em corrigir a escola primária, em expurgá-la de defeitos e preconceitos e estabelecê-la à altura de sua nobilíssima missão. A escola primária é o ninho da inteligência infantil, o berço das mais fagueiras esperanças do Brasil nesta fase histórica: — a entrada do país no segundo Centenário da Independência. A escola primária em todos os países constitui o objetivo de sérios estudos, de contínuas apreensões dos governantes, seja qual for a forma governamental da nação. Precisamos remodelar o ensino — é a frase que sai de cada lábio: a imprensa tem clamado pelos métodos de ensino, e o brasileiro que alguém já acoimou de minucioso, senão macaquitos, como queriam nossos irmãos argentinos d'outrora, o brasileiro é sempre ávido da novidade em toda e qualquer esfera. O quid novi impera em todas as inteligências, da cidade à aldeia, do litoral ao mais interior do sertão. Os métodos, sejam eles quais forem, serão inócuos e desprestigiados se não contarem, para êxito, com o auxílio dos senhores pais de família. A missão de professora primária no Ceará, complexa como ela é, exige uma forte dose de vocação para o magistério e de gosto pela desanalfabetização dos pequenos escolares. O prurido de aprendizagem do ABC desdobra-se belamente pelos sertões da pátria, como um manto de esperanças irradiado de voz brilhante: não é somente a criança; adultos e velhos lançam mão da cartilha para a aprendizagem primária. Bela reação! Possuindo o Ceará exíguo número de professoras, cumpre louvar o povo que assim começa a compreender o altíssimo ideal da cultura da inteligência. No entanto, como ficou alvitrado, todos os métodos serão improfícuos se as professoras não contarem com o apoio paterno. Ainda não está de todo extinto no âmbito da família, no santuário do lar, o princípio de autoridade paterna. Ainda não, afirmamos sem rebuços. A família será, pois, querendo, um dos maiores, senão o maior auxiliar da professora primária no Ceará. Nas camadas sociais é fácil observar que sempre os adultos que não sabem ler, queixam-se, instintivamente, do descaso dos pais. Tomemos acaso um jovem analfabeto e ele dir-nos-á, sem delongas, que as trevas que o envolvem foram propiciadas pela incúria da casa paterna. Existe, ainda, fruto talvez das licenciosidades deste século, um outro hábito, merecedor de forte repulsa e de ser extinto, da sociedade atual: o hábito das mudanças sucessivas e intempestivas de escola para escola, de colégio para colégio. Destarte, hodiernamente, os escolares, pimpolhos de dois palmos de altura, são uns verdadeiros senhores de baraço e cutelo — mui senhores do seu respeitável narizinho... Os senhores pais de família, nesta compreensão lídima dos deveres importantíssimos da educação primária, seria para desejar que não fossem tão acessíveis, tão prontos para, por qualquer pretexto, transferir o pequeno que se zangou com a professora e chegou em casa com uma história deste tamanho!... Existem exceções, é claro. Velho, ranzinza, aldeão de quatro costados, não sei bem se o meu instrumento de observação funciona bem, mas estou a crer que serão de acordo com o teor destes dizeres que algo contêm de verdade os benévolos senhores leitores de "O Nordeste". A não ser que tudo vá chegar ao tédio da vida resultante da observação dos desatinos de coisas e fatos deste século.

Anúncios, notas e expediente

  • Nota social HORA DA TARDE
  • Anúncio Catedrático de francês. Ótimo piano "Dor-itt" de metal, 2 camas ornadas em veludo para casal, 1 cômoda, 1 biombo para quarto, mármore, 1 guarda-roupa, 1 mesa, idem, 1 estante, 1 velocípede, 1 gaiola própria para gangorra, 1 porta-bengala com instalação.
  • Anúncio Santa Brasileira [...]. Desde 1919. Pelo obséquio que [recebi] de Santa Teresa, as Senhoras de Caridade [têm] preparado [este] vermífugo para todos e venho [testemunhar] o excelente [resultado] obtido e [a eficácia] desse [produto], aceito pelos [médicos]. Vermífugo, não só [pela] inocuidade em [todos os casos], mas também na [cura de muitos] doentes. Conheço sua [eficácia]. [...]. Vermífugo purgativo, infalível e inofensivo. [Disponível nas farmácias] do Brasil. Março, 149 e 151. [Não aceite] falsificações, exija [o original].
  • Anúncio R. Coelho & Cia. VENDAS E a famosa [marca], antiga. 60. Este ano, o contrato [da] SCOTT, que é [para] ahiram ricos. Líbano (16/12, alta). [Preços]. Em casa. Cia. [Rua], 67-71. Dica: [Bateria] "Nway" (250 volts) para automóveis, [pilhas] para fogões, [pilhas] para cilindros. 260. [Preços]. Na [loja] às suas [ordens].
  • Expediente O Nordeste Administração: A. Ildefonso de Araújo Ano I Fortaleza, Terça-feira, 19 de Dezembro de 1922 Os homens julgam as aparências; Deus vê os corações. Nº 52
  • Nota social RETIRO DAS SENHORAS DE CARIDADE No dia 20 do corrente, às 17 horas, na igreja da Imaculada Conceição, terão início os exercícios espirituais do retiro anual das Senhoras de Caridade. Os piedosos atos religiosos terminarão no dia 24, depois da celebração da santa missa, havendo, diariamente, reunião de 6h30 às 9h e das 16h às 18h. Haverá todos os dias Bênção do Santíssimo Sacramento. Pregará o retiro das Senhoras de Caridade o reverendíssimo padre João Voessen, sacerdote da Congregação das Missões. Desejamos copiosos resultados espirituais às dignas associadas daquela benemérita instituição católica.
  • Nota social “O Nordeste” Soneto Ao Dr. José Martins Escondida no lar, na paz bendita, Ditosa filha rústica da aldeia, Tua alma casta e pura, alma contrita, Nos transportes do Amor não devaneia. Como te assenta este roupão de chita! Desconheces o luxo que pompeia Pela cidade em que o Prazer se agita E tem o Vício cantos de Sereia. Nunca, formosa, te conturbe a mente A grandeza da classe aristocrata Que se revela escandalosamente, Nesses salões de góticos lavores: — A vã serpente que envenena e mata Vezes se oculta num vergel de flores. Ramos NETTO
  • Nota social As Inscrições do pedestal da Coluna do Centenário Conforme noticiamos, o pedestal da Coluna do Centenário ao Cristo Redentor vai ser revestido de mármore, para maior realce do magnífico monumento. Várias famílias cearenses têm enviado os nomes para serem gravados no mármore. A redação de "O Nordeste" encarrega-se de receber estas inscrições, custando 1$000 cada letra. Até agora já recebemos pedidos para serem inscritos os seguintes nomes: José Gentil, Melinha Gentil, Chiquita Gentil, Carmen Gentil, José Gentil Filho, Beatriz Gentil, Aracy Gentil, Arimá Gentil, Luísa Gentil, Zenalde Gentil, Rita Gentil, Mário Hitzschky, Quininha Frota, Cândida Frota, Família José Francisco Abreu, Marcos Valente Cavalcanti, Henriqueta Vieira Cavalcanti, Emílio Cavalcanti, Dolores Cavalcanti, Lourdes Cavalcanti, José Cavalcanti, João de Deus Cavalcanti, Carmelita Cavalcanti, Francisco Cavalcanti, Jesus Cavalcanti, Helena Cavalcanti, Barão de Studart e família, Sociedade Deus e Mar, Irmandade de Bom Jesus, Homenagem Família João Tibúrcio Albano, 1822 — 1922, 7 de Setembro, Homenagem do Centro Norte-Riograndense, fundado em 1º de Janeiro de 1913, Ceará — Fortaleza.
  • Telegrama Um cupom de bonde vale um real. Guarde-o para os pobres do São Vicente de Paulo.
  • Nota social Pais de família do Ceará. E justifica que estes [esforços] que funcionam. Tanto é tão forte dos [que], realmente, se abraçam do que o sacrifício comum, esteve a caber, posse, a funcionar. Visto contribuir às classes do presidente dos conselhos. Bem lembrado, Dr. Joaquim. Abnegação. [Ele] tem o [propósito] de continuar em "O Nordeste". Administração. [Endereço/Contato].
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