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O Nordeste

Dezembro de 1922, página 75 · 25 trechos transcritos

Manchetes desta página

  • A questão da carne verde
  • Sonetos de Julio Maciel Dragão do Mar Ó Terra Mártir, onde, eterno, a luz fulgura E aos ribeiros devora, ardendo que nem lava! Hedionda, em tuas mãos, hedionda, a escravatura, Ó Terra Mártir! Glória e esplendor te empanava! Dragão do Mar chamado, o jangadeiro bravo, Bradou junto à jangada, alçando o braço forte: — Não! Neste porto, não se embarca mais escravo! Em ti, gleba que o sol fertiliza e tortura, Das praias aos sertões o senhor dominava; E esse domínio sobre o homem de pele escura Ainda era mais feroz que o domínio da clava. Mas, um dia, mudou-se ao negro a torva sorte, Sorriu-se a Liberdade ao negro humilde e ignavo: Foi quando Nascimento, o filho audaz do Norte,—
  • Nulidade insanável no contrato de locação das pedras Estão ainda de pé os principais argumentos levantados contra o ato do sr. prefeito de Fortaleza, atendendo à petição de João Regis da Silveira, para prorrogar o contrato de locação de 36 pedras de talho do mercado público. Antes de tudo, dessa discussão em torno do assunto, o que ficou plenamente evidenciado é que o ato do executivo municipal, quando mesmo não fosse juridicamente defeituoso, seria condenável por aberrar das normas da moralidade administrativa. Não há como arredar a opinião pública da convicção de que em tudo isso andou uma acomodação de interesses particulares, amparados por chefetes políticos. Deixando de parte essas considerações que envolvem a moral administrativa, voltemos a debater, sob o aspecto jurídico ainda, o prorrogamento tão açodadamente concedido. O contrato de locação sujeito — já ficou visto — quando mesmo se enquadrasse nos casos regidos pela lei do inquilinato, estaria viciado, porque a concorrência foi feita para pedras de talho, conforme o edital n. 40 no "Diário do Ceará" (23 de Dezembro de 1921), e o termo lavrado no livro oficial da prefeitura registra a locação de compartimentos e pedras, como o próprio "Diário" o confessa. Ora, se a prefeitura fez concorrência para pedras, e locou compartimentos e pedras, praticou um ato viciado, porque fez mais do que podia fazer e do que anunciar. Basta notar, para salientar o valor dessa irregularidade, que a concorrência simplesmente para pedras, sem os compartimentos, poderá ser alegada como possível causa do afastamento dos candidatos à locação, que a pretendessem de uma e outra coisa. O "Diário" de hoje alega que houve, no edital, ao falar em pedras, a intenção de incluir compartimentos. Mas isso não é argumento que se alegue como prova, num ponto jurídico. Não tem nenhum valor, apenas confirma a irregularidade apontada. Mas não é só isso o que invalida o ato da locação referida. A lei n. 33, de 31 de dezembro de 1920, que fixa a despesa e orça a receita para o exercício de 1921, estatui, em seu art. 15: "Os contratos celebrados com a prefeitura [ilegível] efeitos depois da aprovação da Câmara, e esta não se deu; e nulidade como consequência de ato nulo, é a prorrogação indevida, concedida pela prefeitura municipal." E assim, `tollitur quaestio`... E, neste pé a questão, apelamos para a Câmara Municipal, no sentido de que a mesma não consinta que se consuma esse ato ilegal da prefeitura, tomado sem a menor consulta ao legislativo municipal, quando este estava funcionando e devia ter ciência do fato, pelo estatuído na disposição citada. Estamos certos de que a Câmara, constituída de homens dignos e independentes, há de agir como o estão exigindo os altos interesses da municipalidade, não se deixando levar por conveniências e inspirações da politicalha.
  • Sem lançado "suelto" do "Paiz" sobre a encíclica de Pio XI RIO, 26 — O "Paiz" publica o seguinte tópico, sobre a encíclica do Santo Padre: Trazem os telegramas um resumo da encíclica, em que o Santo Padre, na antevéspera do Natal, passou revista às causas e indicou os remédios dos males que afligem, hoje como nunca, a vida social da humanidade. O abuso da força gerando a violência e estimulando a mistificação dos povos; o espírito de exacerbação e de vingança; a fúria dos apetites materiais; a luta entre as classes dirigentes e dirigidas provocando a inquietação geral; o exagero das reivindicações feministas; a praga dos novos ricos, em que se converteram os aproveitadores da guerra, os afrontadores da pobreza; as modas da mulher, as danças modernas, a licença dos costumes sociais: tudo isso o Papa considera, com justeza e elevação, nesse documento, que bem revela a alta inteligência, a larga visão, a imensa piedade de Pio XI. Falando para o orbe católico, nem por isso a sua palavra deixará de ser ouvida pelos crentes dos outros cultos, porque os males que ele aponta e os remédios que sugere, não conhecidos, a todos aproveitam, de modo a tornar-se o conselho do Sumo Pontífice extensivo à humanidade inteira. Que, pela sua alta e piedosa interferência, não sejam curadas as chagas sociais do nosso tempo, ficará, contudo, o cautério moral, implícito na mansuetude apostólica do seu apelo de concórdia, de paz e de virtude, na antevéspera do grande dia da Cristandade. A exortação do Papa foi como um refrigério e um bálsamo, entre a incandescência das paixões e a violência das dores, que dividem e angustiam o mundo desorientado. A encíclica fez um grande bem ao rebanho humano. A "Gazeta de Notícias" publica, também, um "suelto", enaltecendo a encíclica.
  • Ação da caridade no Ceará É uma coisa desoladora, mas é este o conceito materialista da nossa passagem pela terra, onde a escuridão do ateísmo não permite outra visão além dos gozos materiais. Outro, porém, é o descortino espiritualista, para o qual a vida é luta, sacrifício, sofrimento, onde, à luz da fé, se alcançam triunfos imortais e glória eterna. E que seria do mundo se não fossem esses que, aos olhos dos alheios, não passam de pobres ingênuos, tanto quanto os [ilegível] orgulhosos não passam de livres pensadores aos olhos dos crentes? "Gozar, gozar o mais que puder, enquanto não chega a morte, porque com ela tudo se acaba" — é a divisa do livre pensamento. "Fazer o bem, sempre o bem, seja a quem for, enquanto não são chamados a outra vida", é o pensamento dos servos de Deus. Na divergência profunda dessas escolas filosóficas, facilmente se descobrirá a diferença entre os que vivem sob o doce jugo e proteção divina, e os que obstinadamente tudo negam, até o Autor da Criação. Entre os extremos do ateísmo e da crença, encontram-se ainda os meio crentes que, ora nas trevas, ora na luz, não podem crer — "se com a morte tudo se acaba ou tudo começa". É a esses, cuja educação religiosa, em criança, foi por demais falha ou escassa, que de preferência nos dirigimos, confiados nessa expectativa simpática em que costumam permanecer para com as coisas santas. Não praticam a religião, mas não a hostilizam, respeitam-na; não desconhecem os grandes benefícios da Igreja, aplaudem e auxiliam. São criaturas de pouca fé, porém de grandes corações, pelas quais devem orar os verdadeiros cristãos, se orações não faltam nem mesmo pelos maiores inimigos de Cristo. É aos católicos não praticantes, mas fiéis coadjuvantes das boas obras, que precisamos apresentar, tornar patente o resultado prodigioso do esforço, da ordem da fé católica, em benefício da humanidade sofredora. Sim, eles oferecem sua coadjuvação, apoio e proteção; fazem-no, porém, com indiferença, sem amor e sem fé. São, por assim dizer, protetores constantes das Conferências de S. Vicente de Paulo, mas não sabem, e nem procuram saber, qual o valor e magnitude da obra admirável para a qual concorrem. Se soubessem, é provável que maiores auxílios lhe prestassem, e, por fim, se sentissem subitamente despertados para o gozo infinito da santa cruzada da caridade! A divulgação das boas obras não é baixo reclamo: é propaganda benéfica, e justo prêmio às pessoas religiosas que a praticam. É preciso, portanto, proclamar, bem alto, a ação da caridade no Ceará, para que seus filhos, e todos aqueles que o querem e admiram, procurem honrá-lo com o seu auxílio. Sua operosidade constante e benfeitora através de 43 anos de fecunda existência. O autor destas linhas, se o não lesse em documentos autênticos que lhe foram fornecidos a propósito destes escritos, jamais teria sentido a satisfação de saber que a sociedade de S. Vicente de Paulo, no Ceará, mantém dezessete escolas noturnas, tendo algumas, como as de Baturité e Crato, mais de 20 anos; que tem seis bibliotecas e que é representada na Imprensa pela Revista do Conselho Central Metropolitano de Fortaleza e pela Revista do Conselho Central de Sobral. Não é nosso intento fazer estudo de estatística em torno da Sociedade Vicentina; mas o leitor há de permitir-nos registremos mais alguns de seus grandes feitos. Sobe a 3932 o número de famílias socorridas semanalmente. Nas calamidades de 1915 e 1919, despendeu com os famintos a quantia de 125:508$190. Fundou a Despensa dos Pobres, que tem aviado, desde sua inauguração, mais de dois milhões de vales. É uma sociedade pobre, porque tudo quanto arrecada distribui; com tal ordem e disciplina, se tem mantido que, cheios de ufania podem os Vicentinos afirmar: "Se quase dois mil contos já entraram para os cofres de nossas conferências, quase dois mil contos têm sido empregados em obras de benemerência." Diante de exemplos tão edificantes, quem se negará a concorrer com algum auxílio para o Dispensário dos Pobres e para o Patronato das Operárias? Cautelas da Tômbola do Centenário, em benefício desses institutos, são gotas d'água, com que se há de formar essa fonte, e onde hão de jorrar benefícios sem conta. Será de certo muito pequeno o número dos que têm conhecimentos dos serviços inestimáveis dos perseverantes filhos de S. Vicente da Terra das Secas, desde o aparecimento das primeiras conferências. Não é grande o número de associados, mas são enormes os benefícios prodigalizados à pobreza cearense. A Sociedade de S. Vicente, honra e glória do Ceará religioso, se ufana de apresentar o balanço de:
  • Notas escolares O Curso de Férias, que começará hoje, por iniciativa da diretoria da Instrução, continua a despertar grande entusiasmo no seio do professorado. A matrícula deve ter-se encerrado hoje, na Diretoria, elevando-se, até ontem à tarde, a 246. A Câmara do Acaraú votou a quantia de 5:000$000 para iniciar a construção do prédio destinado a um grupo escolar. Diversos particulares vão construir, em alguns pontos do município, vários prédios que serão entregues ao Estado para o funcionamento de escolas isoladas.
  • Vão reformar-se RIO, 26 — Pediram reforma os coronéis Alfredo Vidal e Adolfo Araújo Familiar.
  • Sessenta trabalhadores para a firma Leite Barbosa CAMOCIM, 27 — A bordo do "Camocim", seguem, acompanhados da comissão do "Sindicato dos Trabalhadores", 60 homens, que vão trabalhar na conceituada firma Leite Barbosa & Cia., representantes, nesse porto, da Companhia Nacional de Navegação Costeira. Os referidos trabalhadores são, todos, sócios da filial do Sindicato nesta cidade. Ao embarque dos mesmos, compareceram o correspondente desse jornal, representantes de todas as associações operárias e grande número de pessoas.
  • Os trabalhos da Câmara RIO, 27 — Na Câmara, não houve sessão diurna, devendo haver noturna.
  • Foi preso pela polícia do Ceará, e recolhido à Cadeia de Lavras, o terrível cangaceiro, de nome Ulisses Liberato, bandoleiro dos sertões paraibanos, e que, perseguido naquele Estado, fora acoitar-se junto àquela cidade. É um de [ilegível]. [ilegível] a lida do [ilegível] que.

Anúncios, notas e expediente

  • Expediente O Nordeste PAUL BOURGET VI Administração: A. Ildefonso de Araújo ANO I Fortaleza — Quinta-feira, 28 de Dezembro de 1922 NÚM. 150 Redação, Drs. Andrade Furtado e José Martins Rodrigues
  • Telegrama [ilegível] BRASILEIRO [ilegível] Santos [ilegível] reconhecida [ilegível] por J. Arthur [ilegível] depositados: [ilegível] Rio Branco, [ilegível] (3ª e sáb.)
  • Telegrama [ilegível] Capital Federal
  • Anúncio [ilegível] com apoplexias, dores [ilegível]
  • Telegrama Administração [ilegível]. Pagos adiantados [ilegível].
  • Telegrama Um cupom de bonde vale um real. Guardai-o para os pobres de S. Vicente de Paulo.
  • Telegrama Regime de temor de gente como a candidatura [ilegível] por [ilegível] lições que [ilegível] se justifica. Quais da [ilegível] porque estes [ilegível] nem [ilegível] funcionarão, remessa de versos de Santa Teresa, por eles, porque nem esmola. A [ilegível] generalizado [ilegível] na classe desconhecida essa administração tem em alguns casos é [ilegível] com uma única [ilegível] algum na [ilegível] no Senhor. Seu [ilegível] pode publicar estes [ilegível] de [ilegível] dos Santos.
  • Telegrama A vida é uma luta inglória, da qual só poderemos sair vencidos.
  • Anúncio Vermífugo purgante infalível e inofensivo. [ilegível] do Brasil. Março, 149 e 151. [ilegível], italiano, francesas, fabricações, exigimos. Coelho & Cia.
  • Telegrama [ilegível] Carvalho é capaz de [ilegível] verdade não se torna os [ilegível] recebidas de presente à publicação de digno Juiz de Direito [ilegível] por todos. [ilegível] portador, seis pessoas que me pede, [ilegível] seu medicamento me mostra ter, para o gosto de ver-me.
  • Telegrama Quando sentimos que nos falta, é que Ele mais próximo de nós... Deus está [ilegível].
  • Nota social Jornal dos jornais Correio do Ceará — Ocupa-se detalhadamente, no serviço telegráfico, do raid Nova Iorque-Rio, dando pormenores da estadia de Martins no Recife. Publica um belo trabalho do Dr. Antônio Furtado, lido na Academia Polimática, no dia do Natal. Estampa, ainda, vasto serviço telegráfico. Diário do Ceará — Publicou hoje: "Pasteur", artigo sobre esse [ilegível] cientista, do sr. Rodolfo Teófilo; resumo de uma entrevista do sr. Ildefonso Albano, à "A Noite", do Rio, sobre as possibilidades algodoeiras do Ceará; "suelto" a respeito da questão da carne verde; telegramas de última hora, noticiário local e notas oficiais. A Tribuna — Sai com o editorial "Semeando ventos...", violento artigo contra o governo Bernardes, a propósito da mensagem do atual presidente, sobre o caso do Estado do Rio. Concluem os confrades com estes conceitos: "Para desencadear as grandes convulsões políticas, são precisos grandes erros; e por isso até nos regozijamos com as loucuras atuais, prenúncio infalível de uma nova era, em que a nação ressurgirá altiva e redimida da praga maldita de sicofantas e parasitas, que a exploram e degradam." Faz, em telegrama, um resumo de um discurso do sr. Nilo Peçanha, no Senado, apreciando o processo do deputado Macedo Soares e a questão da sucessão fluminense.
  • Nota social O "Dispensário dos Pobres" distribui brindes de Festas com as famílias socorridas Anteontem, às 14 horas, na sede do "Dispensário dos Pobres", tivemos ocasião de assistir à distribuição de brindes de festas às famílias socorridas por essa conhecida instituição de caridade, que relevantes benefícios vem prestando à pobreza desamparada. Antes dessa distribuição, foi levado a cabo um interessante Drama Pastoril. Estiveram presentes a essa comovente festa das [ilegível], os reverendos monsenhor Taboca [ilegível], vigário geral, padres Guilherme Piazzon e João Vaessen, o representante do "O NORDESTE" e inúmeras senhoras da primeira sociedade de Fortaleza. As gentis meninas que trabalharam no encantador drama, saíram-se a contento, representando com muita desenvoltura os diversos personagens. Uma afinada orquestra acompanhou, agradavelmente, os bem ensaiados bailados. Ao drama seguiu-se a distribuição dos presentes de natal aos pobres. Cada família, mediante a apresentação do seu cartão, recebia uma peça de roupa de brim e [ilegível] em dinheiro. Durou quase uma hora a distribuição, em meio da maior ordem. Tivemos também ocasião de ver, num dos compartimentos do "Dispensário", a bem organizada exposição de trabalhos de agulha, máquina e [ilegível], meias e `point-à-jour`, [ilegível], [ilegível], [ilegíveis] e pratos de [ilegível]. De sua organização, tendo de apreciar-se a boa feitura dos inúmeros trabalhos. Saímos do "Dispensário" trazendo as melhores impressões. Aproveitamos a ocasião para parabenizar os diretores pelo êxito de tão edificante festa das [ilegível].
  • Nota social Os novos agentes do Lloyd Nacional em Fortaleza Acabam de ser nomeados agentes do Lloyd Nacional em Fortaleza, conforme despachos do Sul, os nossos dignos amigos T. de Castro & Cia., que constituem uma firma largamente conceituada em nosso meio e com desenvolvidas relações comerciais em todas as praças do País, de inúmeras firmas nacionais e estrangeiras, gozando do melhor conceito.
  • Anúncio [ilegível] (12) [ilegível] Alberto [ilegível] [ilegível] os [ilegível] Notas escolares: 38.000 [ilegível] Na exposição, nota-se o bom [ilegível] de [ilegível] a 71. Filho [ilegível]. Refere-se a Ferraz. Conceito no alto comércio em todo o País. [ilegível] [ilegível] [ilegível] [ilegível] com os do [ilegível] Filho [ilegível]. [ilegível] [ilegível] [ilegível] & Cia. [ilegível]
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