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O Nordeste

Janeiro de 1923, página 9 · 29 trechos transcritos

Manchetes desta página

  • Estado sem Deus. A aborração mais incompreensível em que pode incorrer uma nação, em nome do progresso. CONDE DE CHAMBORD
  • O jogo oficializado! Já tivemos ocasião de noticiar ao público o funesto presente que lhe acharam de dar, no início do novo ano, as autoridades do Estado. Vem a ser que voltaram a funcionar de portas abertas, com a sanção oficial, todas as casas de jogo e de perdição que haviam sido fechadas há meses, graças à imposição do clamor público, elevado bem alto pela campanha do 'O Nordeste', legítimo defensor dos interesses materiais e morais da população. Infelizmente, essa campanha de moralidade, tão profícua durante certo tempo, torna-se agora inútil, porque o jogo estabelece, de novo, as suas tendas, e agora sem freios, sem repressão, antes com o amparo dos poderes do Estado. A moralidade que deve presidir aos negócios públicos (é uma triste verdade que nos envergonha), com o funcionamento franco dos centros de jogatina, fica rasa como o chão em que pisamos, enlameando-se no pantanal do vício que protege. Mas porque permitem as autoridades que se reabram as casas de jogo? Diz-se que, para tanto, se baseiam numa disposição da tabela do orçamento estadual votado para este ano. Examinando a lei orçamentária, encontramos, realmente, entre os números da tabela B, o 35, que dispõe: Casas ou clubes com jogos TOLERADOS PELA POLÍCIA: Na capital: 12.000$000 No Interior: 4.000$000 Aí está porque funcionam centros de jogo. Porque o orçamento do Estado registra um imposto sobre os mesmos. Antes de tudo, cumpre-nos deixar lançado, aqui, o nosso protesto indignado contra essa disposição orçamentária, que vem, simplesmente, legalizar o vício. Tributar o jogo, taxar o exercício dessa profissão imoral, é oficializá-lo, é dar-lhe foros de coisa lícita! E é absolutamente imoral, é perfeitamente indigna uma disposição legislativa que assim transija com o ilícito, que queira legalizar o ilegal por natureza, moralizar o imoral em essência! [...] O próprio Congresso Nacional regulamentou, certo tempo, o exercício do jogo, mas foram tão perniciosos os efeitos dessa medida, tamanhamente se alastrou o vício em todo o País, que em menos de um ano, diante do clamor crescente da opinião pública, voltou a tratar do assunto, revogando o que, anteriormente, havia votado. E, depois dessa experiência, ainda os poderes do Estado, o legislativo e o executivo, convêm em taxar o exercício da jogatina. [...] Aquelas indicadas, é absolutamente injustificável, nem encontra fundamento no n. 35 da tabela B, citada. O contrário seria torcer, em favor e proteção dos profissionais do vício, o sentido natural que dali se deve tirar, [...] porque não é lícito dar a uma lei do Estado interpretação que se afaste da moral. Afinal de contas, os responsáveis pelo alastramento do jogo são as autoridades estaduais, a começar pela assembleia e o presidente do Estado, que colaboraram no orçamento atual, para incidir, também, sobre a polícia que tão liberalmente o interpreta para o mal. Lançando o nosso protesto vibrante contra a oficialização do jogo, temos a consciência de que cumprimos, integralmente, um dever de consciência e de dignidade profissional. Mas, mesmo com a taxação orçamentária, não vemos razão para a licença escandalosa com que o jogo voltou a exercer, entre nós, a sua ação funesta, funcionando, sem limites, nas mesmas casas anteriores, como no 'City Club', no 'Cabaré' e no 'Polytheama'. O orçamento do Estado refere-se a casas de jogos tolerados pela polícia. Mas quais são esses jogos? Serão todos, inclusive o bacará, a roleta, o banco, jogo das nações e todas as formas caóticas do vício? Admita-se ainda que a polícia deixasse funcionar os pequenos jogos, como o loto e a vespra, nos clubes de futebol ou sociedades dançantes; para divertimento dos associados. Mas tolerar que se abram casas de profissionais do jogo, cujo vício, como se dá com a [...].
  • O álcool nos sertões Estudado no litoral cearense e explanado com maestria, o alcoolismo tem os seus prosélitos no âmbito destes sertões cearenses, algo pervertidos pela evolução civilizadora deste século. Na imprensa regional do Cariri, mormente na 'Gazeta do Cariri', um dos principais órgãos da imprensa indígena, em vários artigos de colaboração de propaganda contra o álcool tenho profligado o uso e abuso do mesmo, servindo-me de vários estudos particulares feitos a este respeito. O alcoolismo invade desabaladamente os sertões de nossa terra três vezes infeliz. Digno, sem dúvida, de enérgico combate da imprensa e moralizadora. O alcoolismo, e na propaganda sistemática contra o álcool vai um grande serviço à Nação. O álcool é o maior fator de degeneração humana. Os males atingem, como ficou proficientemente ponderado, a descendência da raça, sob qualquer hemisfério, em todos os climas e regiões habitáveis. Entremos nas observações diretas: observando 101 filhas de bebedores habituais, Legrain encontrou 322 degenerados, 155 alienados e 131 epilépticos. As bebidas alcoólicas produzem geralmente o delirium tremens, havendo quem suponha ser ele a causa comum da arterioesclerose dos obesos. As moléstias comuns do fígado, produzidas pelos 'líquidos fermentados', são hoje objeto de estudos e essa usança alcoólica é causa de grande número de homens. O célebre dr. Bounllor, nas suas estatísticas contra o álcool, deixou exarada esta verdade inconteste: 'Em 192 filhos de alcoólicos, 23 nascem mortos, 197 morrem entre convulsões, são epilépticos, 10 histéricos, 41 idiotas ou loucos, sendo apenas 90 normais'. Onde não se consome álcool reina a felicidade. O grande Lamennais ditou em letras de ouro este aforismo: 'Sabeis o que bebe este homem que vacila com o copo na mão? Bebe as lágrimas, o sangue, a vida de sua esposa e a de seus filhos!' O alcoolismo foi mais estragador que os três flagelos históricos: a peste, a fome e a guerra. Mais que a peste e a fome que dizima, mais que a guerra que mata, ele faz mais que matar: desonra! Palavras estas de Gladstone, dignas de séria análise, de refletida ponderação pelos adeptos do alcoolismo. A campanha contra o alcoolismo nas grandes capitais do velho mundo vai, lentamente, vencendo em [...] linha.
  • O governo anunciando, conforme nota estampada em outra parte desta edição, o pagamento dos vencimentos do funcionalismo público, correspondentes ao mês de outubro do ano findo. O pagamento iniciar-se-á no dia 8 do corrente, devendo estar concluído até o dia 23. Anuncia ainda a secretaria que serão, logo após, pagos os vencimentos dos meses de novembro e dezembro. Alvíssaras aos funcionários! Graças a Deus, parece que, desta feita, com mais uns 20 dias, terão eles o que há tanto tempo e tão ardentemente almejam; o recebimento em dia do salário dos serviços à administração pública. Não é sem tempo que o governo empreende regularizar os seus compromissos com os seus servidores. Os que queriam suprir as necessidades próprias, ou da família, tinham, até agora, que vender, com desconto de 20 ou 30%, os seus parcos ordenados. Do contrário, que esperassem que se abrisse o Tesouro, para satisfazê-las. Com o funcionalismo público, também nos regozijamos por sua melhoria, louvando as providências do governo para pôr em dia os seus pagamentos.
  • O 'Rio Jornal' entrevista o sr. Ildefonso Albano. O que diz S. Exa. sobre a política cearense RIO, 2 — O 'Rio Jornal' publica uma entrevista do sr. Ildefonso Albano, explicando a aplicação do empréstimo externo do Ceará. Sobre a política do Estado, diz o seguinte: 'O nosso ilustre presidente, dr. Serpa, pela largueza de vistas e tolerância, conseguiu congregar, em torno de si, os mais fortes elementos políticos do Estado, que nele reconhecem o bom administrador, o liberal reformador da Constituição e, sobretudo, o organizador da nossa instrução pública. Para se avaliar do prestígio do presidente Serpa, basta compararem-se os votos que ele obteve como candidato à presidência do Estado com a votação conseguida por ele para o eminente Dr. Artur Bernardes — votação esta que conquistou para o Ceará o 3.º lugar entre os Estados que sufragaram o nome dos altos, desistindo, entretanto, de exigir penhores do atual presidente da República'.
  • O Asilo da Velhice Desamparada RIO, 2 — O embaixador francês visitou, ontem, o Asilo de São Luís, para a velhice desamparada, o qual abriga, presentemente, 254 velhos, de ambos os sexos. Acompanharam o embaixador a condessa de Noailles e vários membros da colônia francesa. A banda do patronato dos menores executou, à chegada, a 'Marselhesa'. Após a visita, o diretor pronunciou eloquente discurso, historiando a vida da instituição e mostrando quanto o Asilo deve às religiosas francesas, especialmente a madre Felicidade. O embaixador respondeu, fazendo elogios à irmã Felicidade, cujo retrato foi inaugurado. Seguiu-se um almoço, durante o qual falou uma asilada francesa, saudando o embaixador, que respondeu comovido.
  • O dr. Raul Fernandes hipoteca o seu apoio ao presidente Bernardes RIO, 3 — O dr. Raul Fernandes, ao tomar posse do cargo de presidente do Estado, proferiu notável alocução, de que se destaca o seguinte trecho: 'Na medida em que isto esteja na minha alçada, até onde a minha função de presidente do Estado, como poder executivo, possa ir, procurarei corresponder ao leal procedimento do sr. presidente da República, facilitando, na minha modesta esfera de ação, no seu governo, todos os meios e oportunidades de levar a bom termo a tremenda tarefa que o afronte'.
  • Jogos proibidos na Exposição RIO, 3 — A imprensa salienta o desenvolvimento dos jogos proibidos, na Exposição.
  • NOVO LIVRO RIO, 3 — Acaba de aparecer o livro 'Canaviais', obra de Alberto Deodato, premiada pela aludida Academia de Letras.
  • FUNCIONÁRIOS DEMITIDOS VIENA, 1 — Eleva-se a 25 o número de funcionários demitidos, em consequência do plano financeiro do governo.
  • Ecos Foram-nos gentilmente oferecidas algumas fotografias do monumento do Centenário. [...].

Anúncios, notas e expediente

  • Expediente Redação: André Andrade Furtado e José Martins Rodrigues Administração: A. Ildefonso de Araújo ANO I
  • Expediente Fortaleza-Quinta-feira, 4 de Janeiro de 1923 NÚM. 155
  • Telegrama Os problemas que agitam o mundo europeu A QUESTÃO DAS REPARAÇÕES golpe, caso a Inglaterra e os Estados Unidos não impeçam a França de ocupar a bacia do Ruhr. OS TRABALHOS DA CONFERÊNCIA DE LAUSANNE A orientação da política inglesa LONDRES, 29 — O gabinete está reunido para tratar da questão das reparações, afirmando-se que dará à sua política externa a seguinte orientação: as reparações serão reduzidas a 40 milhões de marcos, ouro; serão tomadas medidas rigorosas, no caso da falha de cumprimento das obrigações, pela Alemanha; concessão de uma moratória de três ou quatro anos; estabelecimento de garantias financeiras como a fiscalização da Inglaterra sobre as rendas aduaneiras; a Inglaterra aceitará os bônus alemães em pagamento das dívidas. Pensa-se que o gabinete procurará exercer rigorosa fiscalização.
  • Nota social Drama Pastoril Nos dias 6 e 7 será representado, pelas alunas do 'Patronato das Operárias Maria Auxiliadora', interessante e aplaudido drama pastoril, no 'Círculo dos Operários e Trabalhadores Católicos S. José'. Os bilhetes serão vendidos durante o dia na sede do Patronato e, à noite, na bilheteria do Círculo S. José. É de esperar animada concorrência a essa ótima representação.
  • Telegrama Os turcos recusam as propostas de Lord Curzon LONDRES, 29 — A conferência de Lausanne chegou a um momento difícil, em vista de os turcos estarem dispostos a não aceitar as propostas de Lord Curzon, representante da Inglaterra.
  • Telegrama O governo inglês previne-se LONDRES, 29 — Confirma-se a notícia de que o governo inglês ordenou ao almirante Brook, comandante da esquadra fundeada em Malta, que seguisse imediatamente para Constantinopla, como medida de precaução.
  • Telegrama Intimação dos Aliados LAUSANNE, 29 — Reuniu-se, hoje, a comissão de capitulações, tendo os delegados da Inglaterra, França e Itália feito ver aos da Turquia as terríveis consequências que poderia trazer a inesperada intransigência de seu país. Izmet Paxá pediu um prazo para responder às advertências dos Aliados.
  • Telegrama Espera-se a resposta dos turcos LAUSANNE, 29 — Os delegados turcos ainda não responderam à nota dos Aliados, esperando-se que mudem sua atitude de intransigência diante da energia da França e da Inglaterra.
  • Telegrama As rendas da Inglaterra LONDRES, 1 — As rendas públicas da Inglaterra acusam um excesso de 18 milhões esterlinos, durante os três primeiros trimestres do ano financeiro de 1922.
  • Telegrama A execução de Gounaris ATENAS, 1 — Comunica-se de Londres que se esperam graves acontecimentos devido à execução, pelos revolucionários gregos, do ex-ministro Gounaris.
  • Telegrama O empréstimo austríaco PARIS, 1 — O Senado aprovou um projeto, autorizando o governo a garantir o empréstimo austríaco.
  • Telegrama Festa em honra do embaixador brasileiro PARIS, 1 — Os jornais noticiam que, no próximo dia 8, se realizará uma festa em honra do novo embaixador do Brasil, dr. Sousa Dantas, sob os auspícios do 'Comitê França-América' e da colônia brasileira.
  • Telegrama Projeto de redução da dívida alemã LONDRES, 29 — O 'Times' diz que Bonar Law vai submeter à apreciação do Parlamento um novo projeto de redução da dívida alemã. O projeto tratará, também, da aplicação das penalidades, caso o governo alemão não cumpra as suas obrigações. Prevê-se que o novo plano assegurará a união dos Aliados, em face das reclamações contra a Alemanha.
  • Telegrama As divergências entre os Aliados LONDRES, 29 — Os jornais salientam as divergências manifestadas no seio da comissão de reparações, ficando, de um lado, a Inglaterra e a Itália, e, do outro, a França e a Bélgica. Espera-se, todavia, que os Aliados cheguem a um acordo, a fim de conseguirem completa união.
  • Telegrama A ocupação dos territórios alemães PARIS, 1 — Os técnicos incumbidos pelo governo de formular um plano sobre a ocupação dos territórios alemães, para garantia do pagamento das reparações, terminaram o seu trabalho, apresentando um esboço, a respeito, ao conselho de ministros.
  • Telegrama A Alemanha propõe um acordo à França BERLIM, 1 — O chanceler declarou que a Alemanha propusera à França o intercâmbio de uma terceira potência (que se supõe ser os Estados Unidos), para a realização de um acordo, no sentido de não fazer guerra durante uma geração, sem que as potências interessadas no Reno o autorizassem. A França recusou.
  • Telegrama A ocupação da bacia do Ruhr BERLIM, 1 — Telegramam da Baviera, dizendo que há receio ali, do que a [...], vermelha, bávaras estejam [...] uma concentração [...].
  • Nota social A festa de caridade promovida pelo 23.º de Caçadores no Passeio Público, em benefício do Patronato das Operárias Maria Auxiliadora, arrecadou mais de um conto de réis. Os alunos da Escola Militar foram os encarregados da venda dos bilhetes à entrada do evento, tendo prestado serviço e com a melhor atenção a tão nobre iniciativa. Congratulamo-nos com aquela.
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