Hemeroteca

O Nordeste

Janeiro de 1923, página 67 · 25 trechos transcritos

Manchetes desta página

  • democrata e a presidência do Ceará Continua em foco a já célebre carta do chefe democrata, tornando conhecidas as últimas combinações dos próceres da alta politicagem cearense. Muito descrédito para o nosso Estado e ridículo para os políticos da Terra das Secas, tem sido até agora o resultado da divulgação desse desabusado documento, extravagante e inepto, sob qualquer ponto de vista. O que, porém, mais é de estranhar no caso, não pode ser a publicação em si, que talvez faça parte de algum plano preconcebido do seu autor, o que tem causado espanto, é a cumplicidade do presidente Serpa, na partilha de cargos de eleição a que ele terá de presidir, como chefe do executivo. Afirma o deputado Moreira da Rocha em famosa carta, ter ficado desde logo assentada a candidatura do Dr. João Thomé para a presidência do Estado. E querendo tornar patente essa, como outras combinações, acrescenta: «Convém saber que todas essas combinações, mereceram do egrégio chefe do Estado seu inteiro assentimento, sem o qual nada se faria». Os cearenses permitiriam indiferentes que de tudo dispusessem, porque deputados e senadores, não lhes interessam tão diretamente, e tanto poderia ir ao Senado Moreira para ficar na cadeira, como José para guardá-la. Mas para dispor da presidência do Estado, como se o Ceará não passe de uma senzala de negros, em que os senhores designam à vontade os feitores que têm de dirigi-los, é audácia que toca às raias do desrespeito e do desaforo. E nesse caso de lesa-democracia, em que as eleições ficaram reduzidas a farsas ignóbeis e o voto do cidadão não valerá mais que zero, encontra-se a figura egrégia do presidente Serpa, «sem a qual nada se faria», combinando, com todo seu desprendimento, com toda sua tolerância, a sua própria colocação no Senado, e a nomeação do seu antecessor para a presidência do Estado.
  • presidente dito, que trata com tanto desprezo a república e sua terra... Mas a insensatez dessa gente não consiste somente na sem cerimônia com que fazem um presidente: o seu crime é sugerir para governo da sua terra, o nome de um estadista que pode ser dos mais honestos da república, porém mau administrador, como será fácil de provar com a história de seus quatro anos na presidência, onde mais dificuldades que benefícios, deixou aos seus conterrâneos, sem lhes prestar, como se diz, a menor satisfação... E ninguém conhece isto tão bem, como o atual presidente, que encontrou o Estado cheio de dívidas e os cofres emborcados. Se não deu demonstrações públicas do horror causado pela situação dificílima que se lhe deparou no início de seu governo, é porque lhe não consentiram as tais injunções políticas com que se sacrifica a honra, mas se salvam as posições. É tão somente, a salvação das posições alcançadas, quase sempre à custa de conchavos, fraudes e transações indecorosas, o que constitui o ideal da maior parte dos estadistas da República. A falta de sinceridade dos homens públicos do Brasil, principalmente do Norte, já não é mais um fenômeno a ser estudado, senão uma doença cujo contágio vai se tornando perigoso. É para tranquilidade da família cearense, dizem os de cá, que se apressam nessas acomodações a fim de evitar brigas que seriam muito prejudiciais à vida do Estado. Ora, nada mais caro e prejudicial aos povos, que os maus governos; porque deles promana toda a sorte de calamidades das quais, não são para desprezar, os esbanjamentos e roubos dos dinheiros públicos que empobrecem o Estado, e enriquecem os espertalhões. E que governo já houve no Ceará, que deixasse em sua passagem tantos novos ricos? J. M.
  • Os vapores d'água que se erguem do Atlântico e das águas continentais, devido à grande evaporação provocada pelo calor solar nas zonas equatoriais, são arrastados por essas correntes aéreas numa altura considerável e, não encontrando altas montanhas que possam deter a sua marcha, nem correntes frias opostas que ocasionem a sua condensação, continuam a avançar até esbarrarem-se com a Cordilheira do Sul ou Andina, onde vão cair em forma de neves que se transformam em gigantescas geleiras, provocando, na época do degelo, as enormes cheias do rio das Amazonas e de seus inúmeros tributários. A ação mecânica dos ventos, ora benéfica, ora desfavorável ao nosso Estado, quando conduz para as frígidas e montanhosas
  • Profilaxia da Febre Amarela
  • Um engenheiro pernambucano ataca os serviços das secas A desorganização dos trabalhos RIO, 21 — O engenheiro pernambucano Henrique Doria, falando ao «Jornal do Brasil», declarou ser descrente das grandes barragens do Nordeste, que, a seu ver, não compensam o sacrifício que exigem. É, ao contrário, pelos açudes médios, mais econômicos. Há uma falta de sistematização nas obras, no modo técnico de construí-las. Dois defeitos as condenam ao insucesso: 1º — Há serviços inúteis que estão sendo atacados, como, por exemplo, a estrada de rodagem de Limoeiro a Umbuzeiro, e outra de Caruaru a Taquaritinga. Combate-as pelo excesso da distância. 2º — Há o mal da política, viciando o serviço, sacrificando o ponto de vista do merecimento profissional. Nenhum plano racional orienta a construção das estradas de rodagem, muitas das quais não podem ser explicadas, e muito menos defendidas. Nessa desorientação generalizadora, há obras condenáveis pelo custo das mesmas, como a estrada de Itabaiana a Campina Grande, cidades servidas pela «Great Western», (estrada de construção cara, com mais de 6 quilômetros de desenvolvimento, numa grande subida no planalto. A estrada é de construção difícil e de conservação muito dispendiosa, pela sua situação. Há outros exemplos: a estrada de Borborema a Pirpirituba, em duplicata com a estrada de ferro, sobre a serra, numa região embrejida; a de Ceará e Campina, com o desperdício de duas subidas em planalto; a de Patos a Juazeiro, acompanhando, mais ou menos, o traçado da estrada de ferro de penetração. Que utilidade essas estradas podem trazer, se há, perto, estradas de ferro, de transporte infinitamente mais barato, se a produção daquelas paragens não justifica o acúmulo de vias de comunicação? Também a estrada de ferro de Alagoa Grande é um contrassenso, quando havia a possibilidade de prolongar, com enorme economia para a Nação, a estrada de Campina Grande. Receio que o insucesso dessas obras atacadas importe no fracasso completo e irremediável do Nordeste na vida nacional. Talvez os futuros governos se estribem nesse desastre, quando recusarem continuar a política em verdade necessária e patriótica, como nenhuma outra, de salvação daquela zona. Quem viveu, como eu, dois anos no sertão, não pode achar nenhum serviço mais indispensável que o auxílio ao Nordeste infeliz, o amparo a seus filhos incomparáveis, esses sertanejos em que se acumulam, apuradas, todas as forças invencíveis do heroísmo. Eu os vi na sua existência atribulada, revelando energias acima da capacidade comum. Se a minha voz pudesse ser ouvida, eu reclamaria constantemente auxílio para esses homens formidáveis, que não sei como vencem na existência mais áspera e que lutam tranquilos e resignados contra o mal inclemente dos destinos.
  • O aniversário de D. Leme RIO, 21 — O ministro do Exterior, Dr. Félix Pacheco, mandou cumprimentar o Arcebispo coadjutor, D. Sebastião Leme, por motivo da passagem do seu aniversário, por seu oficial de gabinete, Dr. Sebastião Sampaio.
  • O banquete ao Sr. Félix Pacheco RIO, 21 — Realizou-se o grande banquete oferecido pela imprensa carioca ao ministro Félix Pacheco, nos salões do [...]. Foi numerosa a concorrência, reinando muita cordialidade. Todos os jornais de hoje apresentam essa homenagem à personalidade do ministro.
  • Em torno da política baiana BAHIA, 20 — Realizou-se no Palácio Rio Branco, uma reunião da comissão executiva do Partido Democrata, sob a presidência do senador Antônio Moniz, a qual resolveu sobre a eleição da mesa do Conselho Municipal. Ficou assentada a eleição do Sr. Octaviano Pinto, que disse não aceitar a indicação ao seu nome. Afirmou que estão enganados os que duvidam da sua lealdade política. O Conselho está dividido. Havendo nove membros governistas e seis oposicionistas. Há uma cadeira vaga. A mesma comissão do partido democrata dirigiu uma moção de apoio ao governador, protestando contra os boatos de dissídios espalhados e afirmando a unidade política. — Foi publicada a chapa de oposição para deputados estaduais. Continua a indiferença do povo com relação à política. — O Conselho Municipal reelegeu a mesa, tendo o governo vencido. A oposição fez apenas um candidato em cada comissão, correspondendo, assim, ao terço.
  • Medida tomada RIO, 21 — O ministro da agricultura determinou ao diretor do Instituto Biológico de Defesa Agrícola que abra concurso para o preenchimento das vagas de cargos técnicos existentes em sua repartição.
  • Promoções elogiadas BELO HORIZONTE, 21 — Causou aqui boa impressão a notícia de que foram promovidos a general de brigada o Sr. Tertuliano Regueira e a major o capitão Daltro Filho, ajudante de ordens do chefe da nação. O presidente Bernardes visita a esquadra.
  • BELO HORIZONTE, 21 — O presidente Bernardes acompanha, em companhia do ministro Alexandrino de Alencar, a esquadra que saíra no mesmo dia para os exercícios gerais em Ilha Grande.
  • Os gafanhotos em Mato Grosso RIO, 21 — Por telegrama do inspetor agrícola de Mato Grosso, o ministro da agricultura foi informado do aparecimento de nuvens de gafanhotos nas matas mato-grossenses, onde a lavoura ficou [...].
  • Precedentes que [ocorreram] em Belo Horizonte [...]
  • A «Sul América»
  • INVERNO NO CEARÁ A profecia do capitão Moreira Maia está de acordo com a ciência?
  • Nas regiões andinas, as nuvens, cheias de vapores d'água, as quais deviam cair sobre o nosso solo. Há poucos anos atrás os cearenses sertanejos procuravam as causas das secas que assolam o nordeste brasileiro, periodicamente, nas experiências colhidas dentro do nosso próprio Estado. E todos nós sabemos que essas experiências eram empíricas, simples, rudimentares e sem base científica. Hoje, porém, em face do descrédito das profecias dos «acusadores de chuvas», voltaram as suas vistas para regiões longínquas, para o extremo norte do nosso país, e acreditam que o rio das Amazonas é um verdadeiro pluviômetro destinado a registrar a quantidade d'água pluvial que deve cair sobre o nosso solo, na época hibernal. Li no «Correio do Ceará» que um cearense respeitável, atualmente residente no Estado do Amazonas, vem, desde longos anos, predizendo, com uma precisão matemática, as secas no Ceará, baseado, exclusivamente, nas cheias exorbitantes «das águas do gigante caudaloso». As secas de 1915 e de 1910 foram vaticinadas por esse honrado cearense — capitão Moreira Maia — bastante conhecido em nossa terra, onde goza, atualmente, de um conceito profético extraordinário. Mas as experiências do capitão Moreira Maia estarão de acordo com a ciência moderna? Abordemos o assunto e veremos que a opinião esposada pelo nosso ilustre patrício não é destituída de valor científico; a ciência pode, perfeitamente, aceitá-la e demonstrá-la. As grandes cheias do rio das Amazonas, diz o nosso coestadano, têm quase sempre coincidido com as grandes secas no Ceará. Quando elas são regulares e comuns, os invernos aqui são, excessivamente, abundantes. Para explicarmos, cientificamente, este fenômeno, precisamos recorrer à ação mecânica das correntes aéreas que sulcam, em várias direções, o elemento gasoso que envolve o nosso planeta e varejam, em todos os sentidos, o nosso país. O assunto é vasto, mas, como o tempo de que dispomos é diminutíssimo, faremos, apenas, a respeito, uma ligeira apreciação. Os ventos alísios que sopram do Atlântico, carregados de umidade, para cima do continente, ora do Nordeste, ora do Sudeste, perlustrando as camadas superiores da atmosfera, não encontrando nenhum empecilho, nenhum obstáculo que detenha a sua marcha, atravessam, na direção geral de leste para oeste, o nosso país, e vão arrojar-se de encontro à enorme muralha de granito, a oeste, denominada Cordilheira dos Andes.
  • em fortes precipitações pluviais; falta de correntes aéreas frias inferiores que se ponham em contato com os quentes superiores para provocar a condensação; a escassez, em certos anos, no solo do nordeste brasileiro, de umidade bastante que faça baixar um pouco os ventos alísios que correm pelas altas camadas atmosféricas; tudo isto é influenciado, certamente, pelos diversos movimentos executados pelo planeta em torno do sol, sobretudo o da rotação, e pelas manchas solares muitíssimo apregoadas pelos astrônomos: Flammarion, padre Moreux, Faye, padre Secchi e outros. Do exposto concluímos que, nos anos de invernos copiosos no Ceará, as cheias do rio das Amazonas são regulares, porque a maior parte dos vapores d'água que se levantam ao oceano, pondo-se em contato com o ar atmosférico que o cerca, satura-se, eleva-se às camadas superiores da atmosfera, é arrastada pelos ventos para cima do continente sul-americano e, relacionando-se com as correntes mais inferiores, também carregados de umidade, condensa-se e resolve-se em chuvas, antes de atingir os píncaros altaneiros e brumosos da Cordilheira do Sul. Eis por que a profecia do nosso conterrâneo Moreira Maia pode realizar-se e ser, satisfatoriamente, explicada pela ciência moderna. É admissível a hipótese de nosso Estado ser este ano assolado pelo tremendo cataclismo da seca? Por enquanto, nada podemos dizer de positivo. Relativamente [...], quase todas as [...] falham. No estado atual da ciência, diz o padre Moreux, ninguém pode prever ainda as transformações múltiplas e variadas por que passa o nosso planeta no insignificante espaço de um segundo de tempo. Aguardemos, portanto, a passagem do equinócio e a ação benéfica dos ventos do sudoeste e do noroeste e o equilíbrio perfeito dessas correntes aéreas nas zonas denominadas das calmarias. Pimentel Júnior

Anúncios, notas e expediente

  • Nota social Em favor da extinção da mendicância Um exemplo digno de ser imitado Os operários da conceituada «Alfaiataria Amando», ouvindo ao novo apelo, em nome dos sentimentos cristãos, no sentido de todos colaborarem ao lado do «Dispensário dos Pobres» para a extinção da mendicância, enviaram-nos a seguinte nota: «Os operários da Alfaiataria Amando resolveram mandar, aos sábados, uma pequena esmola para os pobres socorridos pelo 'Dispensário' e pedem o valioso concurso d'«O Nordeste» como intermediária dos aludidos donativos». Com muito prazer atendemos à solicitação dos dignos artistas patriotas. Ao invés de um donativo mensal, mandamos, semanalmente, o resultado de uma quota aberta entre eles. Que exemplo digno de ser imitado! A quantia agora recebida foi 1.000, e constitui a prova eloquente de que todas as classes estão animadas do desejo de extinguir a mendicidade nas ruas de Fortaleza. Deus faça prosperar aqueles bons operários que tão espontaneamente trazem seu generoso auxílio ao tão nobre desiderato cristão.
  • Telegrama O Dr. Manuelito Moreira, inspetor da Saúde do Porto, tendo telegrafado ao Diretor da Defesa Sanitária Marítima e Fluvial, a propósito da febre amarela entre nós, recebeu o seguinte telegrama em resposta: «Hoje, 18 — Levei vosso telegrama ao conhecimento do Diretor Geral, que está providenciando campanha de profilaxia da febre amarela nesta cidade. Peço acompanhar com interesse o emprego do soro tratamento e sobretudo o uso da vacina preventiva e transmitir suas impressões. Saudações. João Pedro de Albuquerque. Diretor Defesa Sanitária Marítima e Fluvial».
  • Nota social A comemoração do 19º aniversário do «Centro Artístico» Promete revestir-se de grande brilhantismo, este ano, no próximo dia 8 de Fevereiro, a passagem do aniversário do «Centro Artístico Cearense». A convite desta associação, fará, naquele dia, uma conferência, o Ilustre professor Paula Achilles, que vai dissertar sobre o tema: «Os homens, as artes e os séculos». Por essa ocasião, será inaugurado no salão de honra do «Centro Artístico», o retrato do benemérito sócio Joaquim Muniz.
  • Telegrama Telegramas DO PAÍS
  • Telegrama O Dr. Pedro Toledo recebido pelo presidente Alvear RIO, 20 — Comunicam de Buenos Aires que o embaixador do Brasil, Dr. Pedro de Toledo foi recebido, hoje, em audiência especial, pelo presidente da República, a quem entregou cartas autógrafas dos Drs. Artur Bernardes e Epitácio Pessoa. O presidente Bernardes comunica, na sua missiva, a sua posse, e apresenta cumprimentos ao Sr. Alvear. O Dr. Epitácio agradece a designação de uma embaixada especial para representar a Argentina nas festas do Centenário. O Sr. Alvear palestrou amistosamente com o embaixador Toledo, manifestando-lhe a satisfação que lhe causava o recebimento daquelas cartas. Declarou mais o presidente da Argentina que a atuação do embaixador do Brasil, em Buenos Aires, lhe agradava sobremaneira, e faria quanto estivesse em suas mãos para facilitar o desempenho de sua alta missão.
  • Expediente Administração: A. Ildefonso de Araújo Redação: Dra. Andrade Furtado e José Martins Rodrigues
  • Telegrama O católico que se envergonha da sua Fé é ainda mais covarde do que o soldado que foge diante do inimigo. VIVEIROS DE CASTRO.
  • Expediente [...] ANNO I Fortaleza-Terça-feira, 23 de Janeiro de 1923 NUM. 170
Compartilhar