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O Nordeste
Maio de 1923, página 5 · 12 trechos transcritos
Manchetes desta página
- Cristianismo e Teosofia Aos discípulos que perguntavam, à vista do cego de nascença: «Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?» — Jesus respondeu: «Nem ele pecou nem seus pais, mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus (João IX, 2—3).» Também nesta resposta de Jesus pensam os teósofos encontrar apoio para suas doutrinas fundamentais. Argumentam assim: «Se a reencarnação e a ideia da justiça divina (carma) fossem crenças estúpidas e falsas, o grande Mestre teria, sem dúvida, aproveitado a excelente oportunidade para repreender aos seus discípulos, porque estes a professavam sem o menor rebuço; entretanto, não o fez.» E deste silêncio do Salvador concluem sofisticamente: logo Ele «aceitou estas convicções íntimas como as coisas mais naturais do mundo». Tal modo de argumentar é semelhante a este: «O Nordeste» não perde ocasião para rebater o que em matéria de Fé é falso e estúpido: mas não refutou os artigos de Leadbeater, logo aceitou-os como a coisa mais natural do mundo. É fácil de ver que a conclusão nem a qualquer deflui logicamente das premissas, porque poderia dar-se, como de fato sucedeu, que, ocupados em assuntos sérios e úteis, não dispuséssemos do tempo para dissipar com teosofismo, do que sempre tratamos a contragosto, por simples dever de consciência. É doutrina elementar em crítica histórica que o silêncio constitui um argumento puramente negativo, só obtendo força probatória quando a pessoa a quem cabia falar, não falou. Disto deve saber muito bem o signatário da tradução de Leadbeater, professor, que é, da seção de História de um estabelecimento superior de ensino. Enquanto, achando «a resposta de Cristo muito digna de nota», apoiou o seu raciocínio no fato «que em várias ocasiões ele não usou de concisão ao fazer vigorosos comentários a respeito de práticas ou doutrinas errôneas». Então, porque várias vezes não usou Cristo de concisão, segue-se necessariamente que sempre não devia usar? Negamo-lo absolutamente. Quem tem alguma leitura do Evangelho, sabe que Jesus deixava de repelir os erros de seus discípulos, mesmo quando se opunham às suas doutrinas fundamentais. Assim, não refutou ex-professo a ideia errônea, que faziam os judeus, de um Messias conquistador, rei terreno e poderoso, embora mais de uma vez o tivessem querido fazer Rei. Quando, na sinagoga de Cafarnaum, anunciava que era mister comer a sua carne e beber o seu sangue, para ter a vida eterna, alguns discípulos que pensavam que Cristo falava da manducação natural de sua carne, o abandonaram, dizendo: «Isto é muito duro.» Em vez de lhes «falar com grande energia», como quisera o tradutor de Leadbeater, Cristo deixou-os ir, sem lhes explicar o modo como seria feita a manducação de sua carne. Além disso, não se faz necessário, para estabelecer uma doutrina, refutar preliminarmente todos os erros que a ela se opõem. A verdade é como a luz; com sua presença, ao mesmo tempo que ilumina, desfaz as trevas do erro. Diz, finalmente, o articulista teósofo que Jesus, respondendo aos discípulos, «lhes explicou simplesmente que nenhuma das hipóteses sugeridas era, naquele caso especial, a verdadeira causa da calamidade: Nem foi por pecado que ele fizesse, nem seus pais, mas foi para se manifestarem nele as obras de Deus». Que é feito, então, daquela LEI INEXORÁVEL do Carma, de que fala no seu sétimo artigo? Lá escreveu, o chefe teosófico: «Sob esta lei inexorável renasce o homem e, se se encontra em determinadas condições, é porque assim o mereceu por suas ações em vidas anteriores. O homem lavra o seu próprio destino e não só recebe exatamente o que merece como também a educação que mais convém à sua evolução». Se, no caso especial do cego do Evangelho, não foram os pecados dos pais nem os próprios que causaram aquele mal físico, porque o tal homem nasceu cego? Se o tradutor de Leadbeater acha «ser uma terrível blasfêmia o atribuir-se a Deus as tristíssimas fraquezas humanas», como pode haver mal para nele se manifestarem as obras de Deus? Dirão, talvez, que aquele caso especial foi uma exceção da regra. Mas quem garantirá que tais exceções não são antes a regra mesma e que a tal lei não passa de pura invencionice? Nada descobre melhor a falsidade de um sistema do que as suas contradições. Bem diz o provérbio: «Mais cedo se pega um mentiroso do que um coxo.»
- Atualidades O primeiro jornal - No congresso de jornalistas que houve em Heidelberg foi apresentado fac-símile do primeiro jornal conhecido. É uma folha publicada em Estrasburgo, em 1609, por Johann Carolus, com o título: «Relação de todas as Notícias notáveis e memoráveis que sucedem em alta e baixa Alemanha, ou em França, Itália, Escócia, Inglaterra, Espanha, Polônia, Hungria, Transilvânia, Valáquia e Turquia, durante o corrente ano de 1609. Todas as notícias recebidas serão impressas com o maior esmero possível.» Entre outras curiosidades, o 1º número deste jornal contém uma carta de Veneza, datada de 4 de setembro de 1609, em que se anuncia o descobrimento do telescópio, por Galileu.
- Exames de fezes Comunica-nos o dr. Carlos Ribeiro que em seu Laboratório de Pesquisas Clínicas, à rua Barão do Rio Branco, 160 (em vista de estarem suspensos provisoriamente os exames de fezes que a Comissão de Profilaxia Rural fazia gratuitamente, para os pobres, prestando-lhes assim inestimável serviço), resolveu marcar um dia da semana para atender à pobreza, fazendo exame de fezes com 75% de abatimento sobre sua tabela usual. Tal redução será exclusivamente para a pobreza e terá um caráter puramente provisório, apenas enquanto não puder a Comissão Federal reencetar os seus trabalhos no mesmo assunto. O gesto do dr. Carlos Ribeiro visa, como se vê, prestar um valioso auxílio à pobreza, pois, com a redução citada, a importância cobrada não dará sequer para cobrir as despesas de um laboratório particular, como é o seu, com os referidos exames. Ficam assim designadas as segundas-feiras, das 8 às 10 horas da manhã, para recebimento do respectivo material.
- A situação do ensino no Ceará Continuamos a publicar, hoje, os dados colhidos pelo recenseamento escolar, nos diversos municípios, e que demonstram a situação do ensino no Estado: Milagres População total, 23.360. População escolar, 3.760. Escolas estaduais, 5; Matr., 204. Escolas municipais, 1; Matr., 66. Escolas particulares, 1; Matr., 19. Crianças em escolas, 8%. Crianças sem escolas, 92%. Missão Velha População total, 16.452. População escolar, 2.806. Escolas estaduais, 3; Matr., 156. Escolas municipais, 1; Matr., 30. Escolas particulares, 1; Matr., [...]. Crianças em escolas, [...]. Crianças sem escolas, [...]. Morada Nova População total, 12.316. População escolar, 1.992. Escolas estaduais, 4; Matr., 130. Escolas municipais, 1; Matr., 160. Escolas particulares, 1; Matr., 20. Crianças em escolas, 11%. Crianças sem escolas, 89%. Pacatuba População total, 13.374. População escolar, 1.945. Escolas estaduais, 17; Matr., 649. Crianças em escolas, 33%. Crianças sem escolas, 67%. Pacoti Pop. total, 8.148. Pop. escolar, 1.119. Escolas estaduais, 4; Matr., 129. Escolas municipais, 2; Matr., 30. Escolas particulares, 1; Matr., 40. Crianças em escolas, 18%. Crianças sem escolas, 82%. Palma Pop. total, 11.471. Pop. escolar, 1.071. Escolas estaduais, 5; Matr., 231. Crianças em escolas, 22%. Crianças sem escolas, 78%. Pedra Branca Pop. total, 11.400. Pop. escolar, 1.270. Escolas estaduais, 2; Matr., 111. Escolas particulares, 2; Matr., 44. Crianças em escolas, 12%. Crianças sem escolas, 88%. Pentecostes Pop. total, 7.473. Pop. escolar, 840. Escolas estaduais, 2; Matr., 128. Escolas particulares, 2; Matr., 20. Crianças em escolas, 18%. Crianças sem escolas, 82%. Pereiro Pop. total, 11.569. Pop. escolar, 1.380. Escolas estaduais, 5; Matr., 170. Crianças em escolas, 12%. Crianças sem escolas, 88%.
- Um promotor é demitido O governo demitiu o promotor público de Maranguape, o criterioso moço dr. Cesar de Moraes Fontenelle. Demitiu-o por quê? O governo não se deu ao trabalho de fundamentar o seu ato, apenas dizendo que o fez de conformidade com o art. 115 da Const. do Estado. Quer dizer, traduzida a indicação, que o governo demitiu porque o funcionário é demissível ad nutum. Pouco importa que ele não tenha praticado nenhum ato, no exercício do cargo que lhe fora cometido, o qual dissesse mal de seu critério, ou fosse uma infração aos deveres respectivos. Aí estão os frutos da nova Constituição, que tirou aos promotores as legítimas garantias anteriores, de permanecerem no cargo enquanto bem servissem. Agora, a coisa é diferente. Permanecerão no cargo enquanto bem servirem, não ao Estado, mas aos interesses dos políticos e dos seus apaniguados. É o que se verificou com o dr. Cesar Fontenelle. Não se conformando com o logro que ao fisco estadual queria fazer alguém de sua comarca, S. S. conquistou as iras dos poderosos dali. E estes, tanto moveram os seus pauzinhos, com intrigas, que o governo, cedendo às injunções dos mesmos, acaba de demiti-lo. A má vontade contra o dr. Cesar, após a sua atitude no caso indicado, se vinha traduzindo, há meses, numa perseguição mesquinha. Requerida uma licença, o promotor, mandado submeter à inspeção, teve laudo desfavorável. Obteve-a, porém, de um mês, do Superior Tribunal de Justiça. Pediu, depois, a prorrogação da mesma ao governo; e, quando a petição já estava encaminhada para despacho, embaraçado propositadamente o seu curso, o promotor de Maranguape foi demitido. Somente quatro dias depois o governador põe no seu requerimento de licença este despacho: Prejudicado. Exclusivamente, a política, como se vê, influiu para a sua demissão injusta. Não se sujeitou a ela, evitando que seus protegidos fraudassem a fazenda estadual, e justamente por isso é que veio afinal a ser cortado. Que se registre, com o nosso protesto, esse ato mau da administração pública, o qual vem provar ainda uma vez que, neste regime, acima de tudo pairam os interesses da politiqueira mesquinha.
- ESCOLA DE AGRONOMIA Recebemos a seguinte comunicação: Ilmo. Sr. Redator do «O Nordeste» Tenho a honra de comunicar a V. S. que, em data de 26 do corrente, fundou-se nesta cidade, com sede na Escola de Agronomia do Ceará, a Sociedade Agrícola Cearense, cujo desiderato é prestar seguro apoio material e intelectual à Escola de Agronomia do Ceará e pugnar pelas práticas racionais da agricultura em nosso Estado. A diretoria da Sociedade está assim constituída: Presidente, Agrônomo José Thomás Valente; 1º Secretário, José Pires do Carmo; 2º Secretário, José de Ribamar da Silva Gomes; Tesoureiro, Sebastião Robespierre Alves. Aproveito a oportunidade e apresento a V. S. os meus protestos da mais alta estima e consideração. José Pires do Carmo | 1º Secretário
Anúncios, notas e expediente
- Expediente Redação: drs. Andrade Furtado e José Martins Rodrigues Administração: A. Ildefonso de Araújo ANO I Fortaleza—Quarta-feira, 2 de Maio de 1923 NUM. 253
- Telegrama O Brasil reconhece na Fé Católica um dos sinais característicos de sua nacionalidade e um dos principais fatores de sua grandeza. MAGALHÃES AZEREDO
- Nota social Selos & Cupons O sr. Luís Braga Rocha ofereceu-nos para os pobres do Asilo Vicente de Paulo, 4.000 cupons de bonde, em regozijo pelo seu aniversário.
- Nota social Para a Festa das Árvores A ÁRVORE A árvore cai! A ramaria forte Treme em cima, dançando uma dança de morte. Rompeu-lhe o alburno agora e vai-lhe ao coração o atro golpe. Uma a uma as fibras rangem; luta, range, arqueja o madeiro, e, pouco a pouco, estala, à mortal vibração. A grande árvore cai! Já se lhe inclina e verga a frente, e aos pés, a gruta, o seu sepulcro, enxergai Astros, sol, amplidão, esferas de ouro, céus. Nuvens, sopros do mar, e pássaros da aurora. A grande árvore cai! Mandai-lhe em pranto agora o vosso último adeus! A grande árvore cai! Como entre o firmamento e o mar alto, a viajar um grande mastro ao vento oscila: oscila assim seu corpo imenso no ar. Elos, cirros, cipós, que o segurais, descaí-o! Rompeu-se-lhe a medula, e já rechinha o tronco. Não o ouvis estalar? A grande árvore cai! Com os ramos seus robustos ide envoltos na queda, ó vós que a rodeais, arbustos; segui-a ao sono extremo, ó corvos, vós que a amais. Ouvi, cede-lhe o cerne ao ferro que a retalha. Cosei-lhe em flor e em luz esplêndida mortalha. Florestas tropicais! E caiu rudemente e com ela rodaram. Ruindo, os cedros na gruta, e os montes estrondearam. Rasgou-se ao bosque o teto, a túnica se abriu; E a ave, e a fera, e o inseto, e o próprio homem, imerso de horror, tudo fugiu de pronto, espavorido, quando a árvore caiu! E da ruína estupenda o lúgubre alarido Foi de ermo em ermo e foi de bosque em bosque ouvido. Tudo, da grimpa excelsa ou da planura, o vale E o rio, o cedro e a rocha, o lenho e a palmeira, pondo O olhar nos céus, tremeu àquele extermínio hediondo e crime sem igual! Alberto de OLIVEIRA
- Nota social FESTA DA ASSOCIAÇÃO DA PROPAGAÇÃO DA FÉ Amanhã, 3 de maio, na igreja da Prainha, às 6h15, haverá missa solene, com prática, na intenção dos membros da associação da propagação da fé.
- Telegrama Telegramas DO PAÍS O movimento gaúcho Para se unir aos revoltosos PORTO ALEGRE, 30 - Seguiram, com destino a São Gabriel, 200 homens, a fim de se reunir às forças revolucionárias. O caudilho Saraiva PORTO ALEGRE, 30 - Comunicam de Livramento que o jornal situacionista «Republicano» afixou um cartaz, noticiando que o caudilho Saraiva invadiu o Estado, vindo do Uruguai, com 800 homens, devendo encontrar-se em Pontos de Upamaroty. A situação em Bagé PORTO ALEGRE, 30 - Informam de Bagé que as tropas do governo estão concentradas naquela cidade, e os revolucionários nas cercanias da mesma. É bem possível que se venha a travar um combate no interior da cidade. As forças neutras não oferecem garantias aos não combatentes. Habeas-corpus a um jornalista PORTO ALEGRE, 30 - O juiz federal concedeu «habeas-corpus» ao jornalista Lourival da Cunha, para poder entrar na sua redação e dela sair livremente. Não houve combate em Cachoeira de Fogo. É desmentido que tenha havido um combate em Cachoeira de Fogo entre forças do governo e as de Zeca Neto, não passando o mesmo de ligeiro tiroteio entre as patrulhas. A ocupação de D. Pedro II PORTO ALEGRE, 30 - Informam que a ocupação da estação de D. Pedro II, nas terras hispano-brasileiras, foi feita por [...]. A notícia da ocupação foi sigilada na intendência. Os "contos" sobre a situação militar no Rio Grande do Sul. RIO, 30 - Contam-se em todos os lugares coisas que chegam a ser inverossímeis. Informam de Bagé que as tropas do governo estão concentradas naquela cidade, e os revolucionários nas cercanias da mesma. É bem possível que se venha a travar um combate no interior da cidade. As forças neutras não oferecem garantias aos não combatentes. Habeas-corpus ao jornal “Última Hora” PORTO ALEGRE, 30 - O juiz federal concedeu uma ordem de «habeas-corpus» ao jornal «Última Hora», para afixar cartazes com as notícias do movimento revolucionário. [...]