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O Nordeste

Junho de 1923, página 39 · 15 trechos transcritos

Manchetes desta página

  • Manifestação de Fé em Milão (Correspondência da Itália) O espetáculo de fé, oferecido ao público, pela juventude católica milanesa, na tarde de Sexta-feira Santa, na visita às sete igrejas da cidade, é digno de permanecer na história da nossa federação, como uma das mais belas lembranças. Aquele exército compacto de jovens, com o chapéu na mão, seguindo a grande Cruz erguida para o céu da capital lombarda, como bandeira de combate e estandarte de vitória; aquela multidão, ordeira e recolhida, de forças juvenis, unidas em um só grupo ao redor dos altares e dos místicos sepulcros das igrejas de Milão; aquela manifestação serena e sincera da religiosidade mais pura e ardente, revestiu-se de tal solenidade e ao mesmo tempo de um sentimento de espontaneidade tão novo que todos ficaram profundamente comovidos. Pode-se dizer que a quase totalidade dos transeuntes traziam a cabeça descoberta; com toda a devoção. A Cruz apresentada pelas mãos juvenis, recolhia o obséquio da Milão católica. Muitos olhos se inundavam de lágrimas. [...] Do Carnaval à Semana Santa Há poucas semanas atrás, no domingo de carnaval, um cortejo, organizado por alguns sediciosos estudantes, atravessara as ruas de Milão. Sobre um carro chistoso, que quereria ser a caricatura do Carroccio, estava içado um Crucifixo, em torno do qual alguns jovens escarneciam em um parodiar ultrajante e sacrílego. Naquela ocasião, muitos de nossos adversários elevaram protestos. Mas, na Sexta-feira Santa, a juventude católica de Milão cumpriu um gesto condigno de reparação. Pelas ruas e praças da cidade passou a Cruz triunfalmente levada no meio da saudação reverente do povo e do pio sussurro de orações. Ao escárnio inconsciente se opunha a franca profissão do sentimento religioso e a corajosa afirmação da ideia cristã. O Deus de nossos pais, o Senhor das Comunas Lombardas, o sinal de nossa salvação viu, ao redor de si, não filhos degenerados, esquecidos da história de nosso povo e das páginas mais fulgidas das nossas glórias; mas os herdeiros de uma fé, que, então como hoje, é a única fonte genuína do amor da pátria e da liberdade. A Cruz de Santo Estêvão Às 6 1/2 da tarde, do oratório de S. Pantalini — o citadino assistente — partiu o grandioso cortejo, jovens de toda a União, estudantes, operários, etc., acorriam em grande número, que superou o do ano passado, nessa mesma ocasião. Alguém perguntou: «Onde está a bandeira da Federação?» «Alguma coisa é necessária. Um galhardete, um estandarte.» Dom Pantalini e o presidente citadino replicaram súbito: «Certamente, é necessário alguma coisa. É preciso uma bandeira: a Cruz! Vamos à igreja buscá-la!» A ideia suscitou um vivo assentimento, um aplauso geral. Todos se encaminharam para a igreja de Santo Estêvão: entraram, oraram; depois a Cruz, a grande Cruz escura com o alvo sudário, que do altar-mor olhava aquele esquadrão juvenil, foi colocada à frente do cortejo. O povo olhava atônito o estranho e inesperado espetáculo. A multidão de jovens, que seguia aquela Cruz, não podia forçar os citadinos a parar. Aqui e ali uma voz robusta recitava o Rosário; os outros respondiam. Das lojas, saíam grupos de curiosos; nas janelas, muitos se mostravam. E a juventude de Milão, que passa. Cidadãos, saudai a Cruz! A saudação dos corações O que sucedeu, então, não se pode descrever com palavras frias e inexpressivas. Era preciso participar, orar, era preciso recolher um insulto, nem uma crítica, nem um sorriso de escárnio. A cena na sua simplicidade — «uma Cruz e um regimento de jovens» — não permitia escárnio, nem mesmo aos mais enraivecidos de nossos anticlericais. Na rua Dante, duas filhas da Juventude Católica Feminina se ajoelham chorando diante da Cruz. Adiante, uma senhora se detém com o marido e brandamente lhe tira o chapéu; este obedece e guarda o chapéu na mão e, quem sabe?, talvez tenha sentido no ânimo o convite: «Está na Páscoa; Jesus te espera no confessionário». Muitos militares saúdam a Cruz: caros jovens! Talvez sejam também da nossa Juventude Católica Italiana! Todos olham com respeito. Nas ruas mais frequentadas, como na rua Victor Emmanuel, na rua Dante, na rua Carlos Alberto, onde o longo cortejo obrigava os bondes e automóveis a pararem, a Cruz recebia a mesma saudação e colhia os mesmos sinais de respeito. Parecia que no ânimo dos milaneses ressoava o augúrio cristão: «Cristo ressuscitou — em todos os corações! — Cristo foi festejado, — Cristo foi adorado». O protesto de um cãozinho Houve um único protesto. Quando o cortejo saiu de S. Bábila para a Igreja de S. Carlos, sobre um automóvel agitava-se um cãozinho que latia desesperadamente, também surpreso pelo novo espetáculo. A senhora que o trazia nos braços procurava fazê-lo calar; mas em vão. Afinal não tinha um grande valor simbólico aquele protesto de um cão? Não dizia ele, talvez: «só os cães não reconhecem Cristo e a sua bandeira?» Que ânimos! Verdadeiramente, alguma explicação temos recolhido. Um bom ambrosiano arregalava os olhos, pasmado. Nunca havia contemplado um espetáculo semelhante. Uma Cruz! E todos aqueles jovens! O Rosário! Nas ruas! Em Milão! Coisa do outro mundo! Um momento permaneceu atônito. Depois sem ar de desprezo, mas surpreso e admirado exclamou, no seu belo dialeto: Che fídigh! — que ânimos! Havia nesta frase de sentido confuso a expressão de uma forte estupefação. Pobre infeliz! És tu também uma múmia do Egito, semelhante àquele Tutancâmon que tanto rumor produziu ultimamente entre os estudiosos? Ficaste, durante estes anos, sepultado na obscuridade do passado, nas pirâmides da antiguidade? Não sabes que existe na Itália «uma mocidade católica», que ora e ama Jesus Cristo? Somos nós, ó bom ambrosiano, que devíamos exclamar: che fídigh! É preciso ânimo são, no ano de 1923, a maravilhar-se de uma mocidade cristã, que não simpatiza com um olhar para os nossos jovens. Parecia-me ouvi-lo declamar «Hino da Paixão», enquanto nós, «catados e graves», percorríamos os templos e orávamos naquela Igreja que outrora recebeu suas orações e testemunhou sua piedade. — Sois felizes, ó jovens católicos — parecia murmurar o poeta lombardo — que na flor da idade não esquecestes a Cruz! Eu a perdi um dia; mas a encontrei depois. E a Cruz que levais agora me converteu e me fez grande! Amai-a, amai-a sempre a «bela, imortal, invicta fé, sempre afeita aos triunfos». As exortações de D. Pantalini Em cada uma das sete Igrejas, após uma curta oração, D. Pantalini dirigia aos jovens algumas palavras de exortação e meditação sobre a paixão de Jesus. Jesus no Horto, disse ele, nos ensina a não traí-lo como fez Judas e como o fazem muitos outros; Jesus, no tribunal de Herodes, nos adverte que, diante da impureza, a voz de Deus emudece, e é por isto que muitos jovens não nos seguiram; Jesus no encontro com sua Mãe e as santas mulheres de Jerusalém. Jesus pregado na Cruz, gravou nos corações juvenis inúmeros preceitos e ensinos, e escreve um «obrigado». Na última Igreja, a de Santo Alexandre, o orador disse que Jesus agradecia a seus jovens e lhes convidava a sempre trazer alto, na vida e na ação, o estandarte de nossa redenção. Um canto Depois da visita à Igreja de S. Tomé, em vez do Rosário, entoaram a Ladainha. Enquanto as trevas começavam a baixar, na poética semiobscuridade das lâmpadas elétricas, no centro de Milão, ressoava o canto dos jovens: «Kyrie eleison!» «Christe eleison!». A Madona contemplava e ouvia: «Santa Maria, ora pro nobis!» Nada de mais suave e mais comovente que os sons daquele canto que saudava a Virgem Mãe de Jesus, e lembrava o verso de Carducci: «Os pequenos descobrem a cabeça — curvam a fronte Dante e Aroldo». Enfim, a simpática manifestação da Sexta-feira Santa, não foi talvez um hino grandioso. Enquanto os nossos jovens se despertam, se recolhem e afirmam sua piedade, a sua manifestação se reveste da fascinação irresistível de um canto. É o canto da primavera que saúda o Vencedor da morte, o Rei da eternidade e de nossas consciências, o Deus do passado e do futuro.
  • Antonio Salles Ontem, data do aniversário natalício do prestimoso e brilhante homem de letras que é Antonio Salles, houve da parte da nossa intelectualidade altas provas de apreço a esse distinto prosador e primoroso poeta. «O Nordeste», que muito folga em homenagear as glórias legítimas do Ceará, por ser um jornal inteiramente consagrado à defesa da nossa terra e da nossa gente, associou-se com máxima efusão de sentimentos às demonstrações de real estima tributadas a Antonio Salles. É motivo de grande ufanismo para todos nós, contar esta redação na pessoa do laureado intelectual, um dos seus mais apreciados colaboradores. Camponeses Ele, um caboclo válido e robusto, Ela, morena de soberbo porte. No lar floresce o sentimento augusto Do amor que os prende como um laço forte. Não teve berço de elevado custo A filhinha que beijam num transporte; Mas a pobreza não lhes causa susto. Pobres! Não vivem maldizendo a sorte Na solharia e rústica tapera. O rude camponês, de fronte erguida, O mortal mais feliz se considera... A riqueza que brilha, que fascina, Não vale um beijo da mulher querida, Um sorriso da filha pequenina! Somos deveras penhorados a tais atenções fidalgas do ilustre amigo, que, com belas produções inéditas, tem magnificamente contribuído para o realce de várias edições desta folha. Antonio Salles é um nome feito na literatura nacional. Os seus livros são conhecidos de sul a norte do país, para honra do Ceará, que nele possui, incontestavelmente, um filho dos mais dedicados e extremosos. Tem sido fecunda a sua atividade na imprensa, em cuja arena sempre se afirmou um jornalista de raça. «O Nordeste» rende nestas linhas um preito de gratidão e afeição a Antonio Salles, augurando-lhe e à sua irmã, família, perenes felicidades.
  • A TRIBUNA Todas as vezes que alguém tenta dar a sua opinião sobre a sedição de julho e as responsabilidades que cabem a um grupo de subversores da ordem pública e inimigos dedicados e extremosos, a Tribuna arrioa-se à indignação e barra o caminho, irritada pela liberdade de se manifestar a respeito. Foi o que sucedeu conosco a propósito do primo-editorial de anteontem sobre a anistia que pretendem conceder aos sediciosos de julho. São tão radicais e extremados os métodos dos «católicos racóes». Os confrades que entendem que, para eles, se quem perdeu o senso moral e a dignidade, são capazes de censurar os digníssimos patriotas que traíram as suas instituições civis. [...].
  • PELA MORALIDADE SOCIAL Alguns moradores da Rua do Rosário, no trecho entre o Palácio do Governo e a Praça dos Voluntários, procuraram-nos para contra diversas meretrizes, moradoras em duas casas vizinhas, naquele trecho, que não respeitam as famílias ali existentes, ora aparecendo com trajes indecentes às janelas, ora dirigindo pilhérias durante o dia e à noite, com grande escândalo. Esperamos que a polícia saberá agir, fazendo postar naquele local, se preciso for, guardas para que assim não se vejam coagidas a aparecerem às janelas, as famílias residentes naquela via pública.
  • Esteve, hoje, nesta redação, o sr. José Felippe da Silva, proprietário de vários imóveis e casas, à rua Juvenal Galeno. Seus prédios, hoje ocupados por presidiários, são alugados a famílias. Ciente agora da [...] que algumas famílias de mulheres desrespeitam o decoro das famílias, afirmou-nos o sr. José Felippe que iria chamar à ordem o responsável pelo aluguel. A norma que mantém é de não consentir que suas casas sejam ocupadas para fins ilícitos e desonestos. Igualmente não tomou prédios, por meio de notificações para aumento de aluguel. Aplica a defesa solicitada pelo sr. Felippe da Silva, a propósito da carta de ontem, estampada nesta mesma seção, e firmada por F. Pereira de Assumpção.
  • A malvadez de condutores de bondes São constantes e muitos os reclamos irritados da população contra a desatenção dos motoristas de bonde para com os passageiros dos carros, tratados com todo o requinte da grosseria. Ontem, trouxeram-nos, contudo, várias reclamações. Narramos a de uma senhora com duas crianças. A rua não é ideal para parar o bonde. A senhora pediu ao condutor para parar, mas ele partiu, sacudindo-a violentamente do calçamento. Uma senhora [...].

Anúncios, notas e expediente

  • Expediente Redação: drs. Andrade Furtado e José Martins Rodrigues Administração: A. Ildefonso de Araújo
  • Telegrama Quando a alma está inteiramente ocupada pela caridade, não há nela lugar para a vaidade. [...]
  • Expediente ANO I Fortaleza — Quinta-feira, 14 de Junho de 1923 NÚM. 288
  • Telegrama Oficiais que regressam RIO, 13 — Chegaram, ontem, em rebocadores, do alto mar, o comandante Heitor Perdigão e o tenente Moisés Freire.
  • Nota social Selos & Cupons Por motivo do seu aniversário natalício, a pequena Maria Nadir da Cunha, querida filha do sr. José Ubirajara da Cunha, ofereceu, por nosso intermédio, 2.000 cupons de bonde, aos pobres de São Paulo. A mimosa Maria Luiza, filha do sr. Jader R. da Silva, ofereceu 600 cupons de bonde para os pobres de S. Vicente de Paulo. Juntai cupons para os pobres das Conferências de S. Vicente de Paulo! Um cupom vale um real. [...] Guardai cupons de bonde para os pobres de S. Vicente de Paulo.
  • Telegrama [...]
  • Telegrama Festa do Círculo da Imprensa RIO, 13 — O Grêmio da Imprensa está organizando para domingo uma festa na Quinta da Boa Vista, na qual haverá jogo de futebol, corso de carruagens, batalhas de confete e serpentinas.
  • Nota social Toilettes. A senhora Sibyl Wilkinson, de Nottingham, mais conhecida pelo nome de condessa de Monte Cristo, é, ao que parece, a senhora «mais bem vestida do mundo inteiro». Para uma visita de uma semana a Londres, levou ela recentemente nada menos de trezentos vestidos, duzentos chapéus e cem pares de botinas e sapatos, sem contar os vestidos de gala e de baile e outras ninharias. — «Se eu sou a mulher mais bem vestida do mundo, diz ela, é preciso que esteja à altura da reputação que possuo.» Cada dia, a sra. Wilkinson veste no mínimo quatro vezes diferentes, que custam frações avultadíssimas; ouve-se escutar o fox-trot composto em sua homenagem, com colares de pérolas. [...]. Porque, na verdade, é muito in[...]. Possui a sra. Smith-Wilkinson um manto de seda imperial, bordado à mão, que pertenceu à Imperatriz da China, feito de lantejoulas de ouro sobre tela de prata, bordado pelo avesso, com rendas de pérolas, e um chapéu de pérolas, velho, de 20 anos, usado na corte do Czar da Rússia.
  • Nota social Guardai cupons para os pobres das Conferências de S. Vicente de Paulo. Um cupom vale um real. [...] Guardai cupons de bonde para os pobres de S. Vicente de Paulo.
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