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O Nordeste

Janeiro de 1923, página 39 · 9 trechos transcritos

Manchetes desta página

  • A febre no Ceará! Palavras e observações do dr. Pompeu Filho Passamos para as nossas colunas uma entrevista que obteve o jornal «A Noite» do Rio, com o ilustrado médico coestadano, dr. Thomás Pompeu Filho sobre a febre amarela no Ceará. Eis na sua íntegra o que publicou a respeito aquele vespertino carioca: «A febre amarela está no Ceará. Trate-se ou não de um caso isolado, o fato é que ela existe oficialmente, por isso que já ontem, nesse caráter, em seção de «Última hora», registrávamos a notícia de haver a Diretoria da Defesa Sanitária Marítima recebido comunicação da Inspetoria de Saúde do Porto do Ceará, de um óbito daquele mal em Fortaleza, o que logo determinou providências especiais a bordo dos navios dali procedentes, em defesa da nossa cidade. Vem aqui a propósito recordar o mal-entendido que lavra entre a classe médica do Ceará e o chefe da Profilaxia Federal, e mal-entendido de que têm resultado gravíssimos inconvenientes à saúde pública. A desarmonia estabeleceu-se em torno do diagnóstico de uma certa doença que, na capital e no interior, tem vitimado vários estrangeiros recém-chegados. O quadro clínico da misteriosa doença é em tudo igual ao da febre amarela, razão porque os médicos locais foram unânimes em tratá-la como tal. O dr. Gavião Gonzaga, chefe do Serviço de Profilaxia Federal, divergindo dos seus colegas, considerou-a, porém, uma modalidade nova da peste, por haver encontrado—conforme declarou em conferência pública— o bacilo de Yersin no sangue do coração e na bile de cadáveres de indivíduos vitimados pelo mal. Apesar dessas declarações partirem de um chefe de serviço federal, com gravíssimas responsabilidades das medidas de combate às endemias reinantes no Estado, o corpo médico cearense insistiu no seu diagnóstico, repelindo a ideia de tratar-se de uma nova feição da peste. Por sua vez, o dr. Gavião Gonzaga recusava-se, terminantemente a tomar qualquer providência de combate e prevenção contra a febre amarela. No propósito de esclarecermos essa questão, que deve merecer do dr. Carlos Chagas os maiores cuidados, pois não é lícito que se sacrifique a saúde pública a caprichos ou erros individuais, resolvemos ouvir o médico cearense dr. Thomás Pompeu Filho, que aqui se acha, em missão da Inspetoria de Obras contra as Secas, para estudar o caso. Eis o que nos disse o referido profissional: —Encarregado pela Inspetoria de Obras contra Secas, para estudar, em companhia do meu colega dr. Carlos Ribeiro, os casos sobre os quais reinava divergência entre a classe médica e o Serviço de Profilaxia Federal, recusei-me a fazer qualquer declaração pública antes do resultado definitivo dos estudos feitos. No Ceará, ainda, em pesquisas procedidas no cadáver de J. B. [...], não me foi possível, mercê da deficiência do aparelhamento de laboratório, apresentar conclusões seguras. Por isso, vim até aqui levar avante as minhas pesquisas sobre o germe isolado do cadáver de I. B. W., as quais foram verificadas, confirmadas e concluídas pelo ilustre dr. Arthur Moses, suma autoridade no assunto, que foi, durante muitos anos encarregado da seção da peste no Instituto Oswaldo Cruz. Hoje, posso afirmar que o dr. Gavião Gonzaga labora em lamentável erro. O seu grande argumento—a presença do cocobacilo, que s. s. julga idêntico ao bacilo de Yersin—cai diante da observação recente, em Fortaleza, de casos da doença em que, nem antes nem depois da morte, foi possível encontrar o germe incriminado. Por outro lado, o germe descoberto pelo ilustre chefe da Profilaxia Rural não é o bacilo de Yersin, de que diverge por muitos caracteres. Semelhantes quantos aos caracteres puramente morfológicos, divergem mais ou menos, profundamente, quanto aos demais caracteres—tintoriais, culturais e biológicos—a ponto de não poderem ser reunidos numa mesma espécie. As reações imunológicas só por si bastam para distingui-los. Sem dúvida, o cocobacilo que tão profundamente impressiona o dr. Gavião Gonzaga, não passa de bactéria banal, dessas que vivem saprofiticamente nas cavidades naturais do corpo e que mercê do aniquilamento bruto da defesa orgânica pela violência da infecção amarílica, torna-se capaz de invadir o organismo, principalmente no período agônico. Afastada, assim, a hipótese de peste, fica, por exclusão, a de febre amarela, para explicar a infecção reinante no Ceará. E por que não aceitá-la, quando tão bem se coaduna com os fatos observados? Sem dúvida, os dados epidemiológicos em Fortaleza carecem de clareza para explicar, em face do elevado índice stegomyia local, o caráter francamente esporádico dos casos de infecção, observados até meados deste ano e, para encadeá-los uns aos outros, através dos longos espaços de tempo que os separam. Contudo, só se considera o fato de ter sido sempre, até dois anos atrás, muito pequena a colônia estrangeira no Estado, e mais ainda, se se atenta no elevado coeficiente de febres mais ou menos graves, complicadas de perturbações gastrointestinais, que caracteriza a feição nosológica da patologia infantil do Ceará, certo não será ousado procurar explicar a raridade do morbus, em seus casos típicos, pela escassez dos indivíduos receptíveis, e a conservação do vírus através do tempo, mercê das infecções atípicas das crianças, mais ou menos mascaradas para passarem despercebidas. Se não, como explicar a coincidência, ultimamente observada, entre o aumento do elemento estrangeiro de Fortaleza e o crescimento proporcional do número de casos típicos da infecção? Nos últimos meses, foram registrados vários casos, que se vão tornando cada vez mais frequentes. Não tardará, neste crescendo, que a doença assuma caráter francamente epidêmico, impossibilitando a vida, no Estado, ao elemento estrangeiro, se antes disso não se tomarem prontas e enérgicas medidas de profilaxia, não somente contra a peste que lá também existe, endêmica nas suas formas clássicas, mas, principalmente, contra a febre amarela, que outra não é a infecção reinante. Dessas conclusões do dr. Pompeu Filho, resultado de observações clínicas e acuradas pesquisas de laboratório, ressalta evidentemente a necessidade de o governo tomar providências imediatas que acautelem não só os interesses das colônias estrangeiras no Ceará, como evitem a propagação do mal por outros Estados. O que não nos parece lógico é que um encarregado de serviço tão importante queira sobrepor a sua vontade à da maioria de seus colegas e persista em não fazer a profilaxia de uma doença atestada por toda a classe médica da capital de um Estado e negada apenas por s. s. Ao dr. Carlos Chagas cumpre resolver de vez essa contenda, já responsável por diversas mortes e pouco abonadora dos créditos da sua repartição.
  • Exportação do caroço de algodão Permanecem de pé os nossos argumentos em prol da igualdade de proteção, por parte do Governo, às indústrias agrícolas, fabril e pecuária, pois o novo artigo de D. T. absolutamente não convence da conveniência de restringir a exportação do caroço de algodão, em tempos normais como o atual. O interessado articulista acha que devemos limitar-nos a exportar o óleo do caroço de algodão, a exemplo da América do Norte. Parece que o sr. D. T. não reside no Ceará, pois do contrário não poderia ignorar que em todo o Estado apenas existem três usinas destinadas à extração de óleo do caroço de algodão, as quais não têm capacidade para manipular a vigésima parte do caroço que produz nosso Estado. Não se pode comparar o desenvolvimento industrial dos Estados Unidos com o nosso atraso nesse ramo da atividade. Também não tem razão de ter a comparação das leis de São Paulo com as nossas, nesse tocante, porque aquele Estado se ampara na produção do café, como nós na do algodão; logo, assim, como São Paulo protege por todos os meios a cultura cafeeira, devemos por igual maneira proteger a cultura algodoeira, estimulando o seu desenvolvimento pelo aproveitamento e exportação de seus subprodutos, inclusive o caroço do algodão, que tanto concorre para compensar os esforços dos produtores sertanejos. O preço atual, que o articulista chama absurdo, e pretende jamais ter sido atingido, senão em tempos calamitosos, não é assim exagerado, pois regula o mesmo que vigorou no ano de 1921, que absolutamente não foi calamitoso. No referido ano de 1921 a nossa exportação de caroço do algodão se elevou a 230.000 quilos no valor oficial de réis 820:800$000, o que bem demonstra o enorme prejuízo que acarretará para o Estado a restrição dessa exportação, mediante a arbitrária pauta de 400 réis por quilo. E convém notar que em tal ano o câmbio não estava tão baixo como hoje, de sorte que o preço de 150 réis equivalia então a cerca de 200 réis. Desde que a exportação do caroço de algodão se faz toda para o estrangeiro, pode-se afirmar que a razão da atual alta reside na baixa do câmbio. Realmente, o preço de 150 réis ao câmbio de 6 corresponde, em rigor, ao preço de 50 réis ao câmbio de 18. Uma libra esterlina produz, presentemente três vezes mais em dinheiro brasileiro do que ao tempo em que o câmbio se achava a 18 pence. As três fábricas existentes no Estado não estão a ponto de paralisar por falta de caroço de algodão. Ao contrário, a verdade é que elas têm até vendido caroço, pois costumam comprar esse artigo em maior quantidade do que a que podem manipular. Acontece ainda que, longe do que afirmou D. T. em seu primeiro artigo, as fábricas vendem de preferência o caroço arruinado para exportação, pelo motivo de não se prestar este para fabricação de óleo. Só quando há crise de transporte pela Estrada de Ferro, se verifica falta de caroço de algodão para ser manipulado nas fábricas. Para os comissários, ou intermediários da venda do caroço de algodão, nada influi ser mais alto ou mais baixo o seu preço, pois a comissão de venda, em qualquer caso, consiste sempre em dois réis por quilo, como pode atestar todo o comércio desta praça e do interior. Em resumo, o que o Governo pode fazer é aumentar a porcentagem do imposto, jamais arbitrar na pauta um preço fictício que representa quase o triplo do preço verdadeiro. É de esperar, portanto, que a pauta seja modificada, de conformidade com o preço real do caroço de algodão, o que, aliás, viria confirmar o espírito de justiça e de amor à verdade dos membros da Administração Pública. Fortaleza, 13 de Janeiro de 1923. F. Morara
  • A conferência do dr. Odorico de Moraes no Curso de Férias Em continuação às conferências, que se realizaram no «José de Alencar», dedicadas às professoras públicas do Estado, sexta-feira última, o dr. Odorico de Moraes realizou uma palestra sobre a psicologia nas escolas. Lendo interessante estudo, prendeu, por quase uma hora, a atenção da seleta assistência. Ao exibir o seu trabalho, que prima pelos ditos chistosos e muitos casos humorísticos, narrados com felicidade, exaltou o método moderno de ensino e a capacidade de trabalho do professor Lourenço Filho. A seguir, descreveu, causando hilaridade e provocando aplausos, o modus vivendi de uma pobre professora no interior longínquo do sertão, lutando contra a aspereza do meio, mal remunerada muitas vezes, e na tristíssima expectativa de casar com... um matuto viúvo! Prosseguindo, mostrou, como especialista que é da matéria, que podemos, quase de relance, conhecer as pessoas que nascem com. E, provando o asserto, exemplificou com desenhos, na lousa, de caricaturas de pessoas que nos dão a ideia, logo à primeira vista, do que são intimamente. Continuando, aconselhou às professoras, para facilidade do exercício do magistério, apreendendo o grau de assunção de seus alunos, observarmos nos pequenos estudantes os traços fisionômicos, por onde, quase sempre, denunciam os sentimentos bons ou maus, que desabrocham, e assim aperfeiçoá-los ou corrigi-los, com facilidade. E, depois de narrar fatos interessantes, provocando, quase sem cessar, hilaridade no auditório, perorou elogiando a ação do presidente Serpa, a quem se deve a orientação nova que vem tomando o ensino primário no Ceará. A diretoria da instrução pôde-nos fazer a declaração seguinte: as professoras matriculadas no curso de férias devem reabrir as suas aulas até o dia 25, a fim de terem direito aos seus vencimentos integrais durante o mês de janeiro.

Anúncios, notas e expediente

  • Expediente Administração: A. Ildefonso de Araújo O despotismo mais terrível é o que traz a máscara da liberdade. MAURV Redação: drs. Andrade Furtado e José Martins Rodrigues Fortaleza-Segunda-feira, 15 de Janeiro de 1923 NUM. 163
  • Telegrama Colégio Militar Chamamos a atenção dos interessados para o edital do Colégio Militar, referente aos exames de março próximo e publicado na seção competente desta folha.
  • Nota social A morte cristã do Conselheiro Álvaro de Oliveira Tivemos ensejo de ler na imprensa do sul a consoladora notícia de que este respeitável e honrado cearense, exemplo do homem de bem, faleceu no regaço da Igreja Católica. Quem possuía as nobres virtudes cívicas do conselheiro Álvaro de Oliveira, não podia deixar de integrar-se na Fé, de terminar os dias na santa paz que Deus reserva aos justos. Agora, temos a confirmação dessa notícia, em preciosa carta do dr. Benjamin de Oliveira, filho do saudoso cearense falecido. Dessa missiva do ilustre e prezado amigo, destacamos os seguintes trechos que, desejamos sejam conhecidos dos leitores: «Em todas as circunstâncias que precederam e rodearam a morte do meu Pai, vimos, claramente, a misericórdia e providência divinas, desde a minha vinda inesperada do Ceará, desde a tendência acentuada que meu Pai havia, há muito, demonstrado de abraçar, integralmente, o Catolicismo, até o fervor e a humildade com que recebeu todos os sacramentos, impressionando, vivamente, o sacerdote jesuíta que os ministrou, padre Américo Novaes, até a lucidez de espírito e admirável serenidade que conservou até o fim. Se foi a maior perda que já sofri, foi também a maior graça e o maior consolo que já recebi das mãos de Deus.» Essas palavras edificantes e alentadas por um vivo sentimento de Fé, dão-nos a consolação de que o eminente e saudoso conselheiro Álvaro de Oliveira morreu cristãmente, como era de esperar que terminasse uma existência tão útil e tão dedicada à verdade.
  • Telegrama Soneto de Julio Maciel JUAZEIRO É no Sertão do Norte. Às águas de Janeiro O verde o prado arreia e ao monte verte a espalda; Entre as árvores mais vitorioso o Juazeiro No azul amplo dos céus a ramada desfalda. Sem ponta de asa, agora a amplidão é um braseiro, A terra, nem que fosse uma fornalha, escalda: —Só, na planície nua, o vegetal soalheiro Levanta em pompa aos céus a copa de esmeralda! E assim faustoso e vivo, em meio à morte e o luto Acenando de longe, é promessa e carinho Aos olhos de quem foge acaso o Sertão bruto. Perto, porém, se ostenta o Juazeiro, escarminho. No alto—maciça e verde, a copa está sem fruto! Em baixo—a sombra fresca é em rude chão de espinho!
  • Anúncio Ecos Os srs. Joaquim Gonçalves & Cia. atenciosamente nos comunicaram que acabam de abrir nesta praça, à rua Coronel Bezerril, 48 e 52, um estabelecimento comercial que se destina à compra e venda de fazenda e miudezas, comissões e consignações, filial à sua casa matriz de Acaraú, neste fausto.
  • Telegrama Telegramas (Do nosso serviço telegráfico) DO INTERIOR As festas pelo aniversário de Mons. Manoel Cândido BATURITÉ, 13—Em comemoração ao natalício de monsenhor Manuel Cândido, houve, na Matriz, solene missa cantada, celebrada por três sacerdotes. Oficiou monsenhor Cândido, servindo de diácono o jesuíta Thomás Lhosgnan, e, de subdiácono, o jesuíta Alexandrino Monturo. Houve grande número de comunhões. Monsenhor Manuel Cândido pronunciou comovente sermão de agradecimento. «A Verdade» anunciou em edição ilustrada. Chuvas BATURITÉ, 13—Nesta última semana, caíram chuvas regulares neste município. O presidente do Estado inaugura, em Aquiraz, a rua do seu nome AQUIRAZ, 15 - O sr. presidente do Estado passou ontem, o dia aqui, acompanhado do dr. Lourenço Filho, diretor da instrução pública, e da esposa deste. Às 11 horas, s. exc. inaugurou a «Avenida Juliano de Serpa». O povo aclamou entusiasticamente o presidente do Estado. Continuam muito animados os festejos de São Sebastião. DO PAÍS Os [franceses] [param] RIO, 11 — Despachos de Paris informam que as tropas francesas, que partiram ontem de [manhã], em direção a [...], pararam às 18 horas. [...]. Dispõem as forças de efetivo de uma divisão de infantaria e outras [unidades] comandadas de mil homens, e, na direção geral do comando militar. Acompanham as tropas blindadas, motocicletas e caminhões. As guarnições foram submetidas a bombardeio pesado por aviões de transporte de tropas e tanques.
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